Gianni Infantino pode ter prometido a final do Mundial de 2030 a Marrocos. Em troca de um voto. A notícia é de The Times. A negação é da FIFA. E a desconfiança, essa, já não é de agora. Vem de um telefonema, em pleno Mundial dos Estados Unidos, há dois meses.

Nos oitavos de final do Mundial 2026, o avançado norte-americano Folarin Balogun foi expulso com cartão vermelho direto, por uma entrada sobre o tornozelo de um adversário bósnio, o que implicava suspensão automática para o jogo seguinte, frente à Bélgica. Horas depois, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, telefonou pessoalmente a Infantino para pedir a revisão da decisão. Segundo o The New York Times, a Casa Branca não se ficou por um simples telefonema, com o secretário do Comércio, Howard Lutnick, e o diretor da task force da Casa Branca para o Mundial, Andrew Giuliani, mobilizaram advogados para pressionar formalmente a FIFA. O Comité Disciplinar acabou por suspender a punição de Balogun ao abrigo do Artigo 27 do Código Disciplinar, sujeitando o jogador a um período probatório de um ano, a primeira vez desde 1962 que um cartão vermelho num Mundial não resultou em suspensão automática. Balogun jogou os oitavos de final. A UEFA classificou a decisão como injustificável, a Bélgica tentou recorrer e viu o apelo rejeitado, e Infantino confirmou ter recebido o telefonema de Trump, embora tenha negado qualquer interferência pessoal, garantindo que os órgãos da FIFA decidiram de forma independente.

Ainda em julho, a organização britânica de direitos humanos FairSquare apresentou uma queixa formal na Comissão de Ética do Comité Olímpico Internacional contra Infantino, alegando violação repetida do dever de neutralidade política da Carta Olímpica, citando entre outros episódios a entrega do inaugural “FIFA Peace Prize” a Donald Trump em dezembro de 2025 e o próprio caso Balogun. A 24 de julho, o COI rejeitou a queixa. Um porta-voz explicou que, segundo a Carta Olímpica, cada federação internacional mantém autonomia sobre a sua governação, pelo que o assunto ficava fora da jurisdição da Comissão de Ética do COI, sem que isso constituísse uma validação da conduta de Infantino, apenas uma decisão de competência formal.

Poucos dias depois, a 28 de julho, a FIFA revelou o plano que viria a ser o mais destrutivo do mandato de Infantino, a criação da FIFA Forward Enterprise, uma subsidiária comercial que geriria os direitos televisivos, de patrocínio e de bilheteira do Mundial e de outras competições. O plano previa vender até 20% da empresa a investidores privados, angariando cerca de 4,2 mil milhões de dólares numa operação avaliada em 20 mil milhões. O investidor principal identificado foi a Thrive Capital, do empresário Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, genro de Donald Trump. A ligação à família Trump, tão pouco tempo depois do caso Balogun, acendeu de imediato suspeitas de favorecimento político. A reação foi imediata e transversal. A CONCACAF e a AFC criticaram publicamente terem sabido do plano através da imprensa e não por canais oficiais da FIFA, a UEFA votou ameaçar um boicote total às competições da FIFA, incluindo o Mundial, caso o projeto avançasse, e federações de peso histórico, como a inglesa e a galesa, retiraram formalmente a confiança a Infantino. Nos bastidores, o seu conselheiro sénior, Carlos Cordeiro, demitiu-se em protesto, e o diretor de operações da FIFA descreveu o plano como um mau negócio para o futebol. Líderes políticos, incluindo o primeiro-ministro britânico, e congressistas norte-americanos juntaram-se às críticas, acusando a FIFA de vender o futebol à família Trump. A 1 de agosto, sob pressão generalizada, Infantino confirmou que o plano não avançaria, alegando que tinha criado divisões incompatíveis com o objetivo inicial. O recuo travou o boicote da UEFA, mas não travou a crise de confiança que já se tinha instalado.

A 5 de agosto, com o plano morto e várias federações europeias a retirarem apoio à recandidatura de Infantino em 2027, Luís Figo publicou uma coluna no Daily Mail a exigir a sua demissão imediata, descrevendo o comportamento do dirigente nos dias anteriores como o mais desonesto e cobarde que já viu no futebol, e acusando-o de ter mentido, enganado e tentado encher os bolsos à custa do jogo que devia servir. Isolado na Europa e a precisar urgentemente de aliados para a reeleição, Infantino viajou nos dias seguintes para Marrocos, onde se realizará também o Congresso da FIFA de março de 2027, data da votação presidencial. Foi nesse contexto que o The Times noticiou, a 5 de agosto, que Infantino terá prometido a Marrocos, em privado, a organização da final do Mundial 2030 no Estádio Hassan II, em Casablanca, em troca de uma declaração formal de apoio à sua reeleição. A FIFA desmentiu a notícia horas depois, com um porta-voz a garantir às agências internacionais que é falso e enganador afirmar que Infantino fez qualquer promessa sobre a sede da final, e que a decisão sobre o palco, que terá de respeitar o caderno de encargos da candidatura conjunta de Portugal, Espanha e Marrocos, ainda não foi tomada. A Federação Portuguesa de Futebol e a Real Federação Espanhola de Futebol adotaram, até ao momento, posturas de distanciamento público e contenção diplomática, sem confrontar diretamente Infantino.

Isolado, este último episódio poderia ler-se como um rumor por confirmar. Encaixado na sequência dos últimos dois meses, é difícil não ver um padrão. Um presidente que, perante uma pressão política direta durante o Mundial, cedeu a um telefonema da Casa Branca, que tentou transformar os direitos comerciais do Mundial num negócio privado com uma família ligada ao mesmo governo, e que, isolado depois do colapso desse plano, terá recorrido à mesma lógica de troca de favores para tentar assegurar a sua sobrevivência política, desta vez à custa da candidatura ibérica. Há ainda dois detalhes que ajudam a montar o puzzle. O plano da FIFA Forward Enterprise previa que o salário de Infantino aumentasse até seis vezes, caso liderasse a nova subsidiária sem limite de mandato, o que desmente a narrativa oficial de que a privatização servia apenas para desenvolver o futebol. E a sua residência oficial, transferida de Zurique para o Qatar antes de 2022 e depois para a Arábia Saudita, país anfitrião do Mundial de 2034, é apontada há anos como sinal da proximidade do dirigente a regimes e interesses que lhe convêm. As acusações de centralização de poder acompanham Infantino desde que sucedeu a Sepp Blatter em 2016, prometendo limpar a FIFA. Dez anos depois, o Conselho da FIFA transformou-se, segundo os críticos, num órgão de homologação das decisões do seu presidente. Se isso for verdade, os últimos dois meses não são uma sucessão de crises isoladas, são o resultado previsível de uma década sem travões internos.

Fica a pergunta para quem gere o futebol português. Continuar em silêncio prudente é neutralidade diplomática, ou é cumplicidade com um sistema que, por várias vezes nos últimos dois meses, já demonstrou estar disposto a tratar o Mundial como moeda de troca?