Não foi preciso esperar muito. Na sequência de uma opinião consensualizada sobre o reconhecimento do Estado da Palestina − estudadamente, laboriosamente, pacientemente conseguida − o dirigente do Hamas Ghazi Hamad, numa entrevista a Al-Jazeera, de 2 de Agosto, foi claro como água: Israel tem de ser derrotado pelas armas e já o foi, uma vez que o mundo se une contra o genocídio cometido por Israel. E pergunta: “Algum país se atreveria a reconhecer o Estado da Palestina antes do 7 de Outubro?” Do lado do Hamas, tudo está a ser feito para que o reconhecimento do Estado da Palestina fique umbilicalmente ligado à violência fundadora do 7 de Outubro de 2023, violência essa que corresponde à constituição fundadora do Hamas. Nunca o grupo terrorista escondeu ao que vinha, nem fez segredo dos meios de terror que sempre considerou legítimos usar. E Ghazi Hamad prossegue na mesma linha. Tais declarações não são, pois, fruto do acaso. O reconhecimento do Estado da Palestina é o reconhecimento do Hamas e dos seus dirigentes como os seus verdadeiros fundadores.
Com precisão laboratorial, a propaganda do Hamas, devidamente articulada com a sua diplomacia, sobe a parada e cobre todos os lances anteriores. Se o Hamas pretende um tal reconhecimento duplo, de onde lhe advém a legitimidade? A propaganda meticulosamente dirigida ao Ocidente deu a resposta no mesmo dia (que não é um acaso prova-o a data de filmagem: 27 de Julho). O Hamas divulgou um vídeo de um refém israelita − civil − esquelético a cavar o que afirma ser a sua sepultura. No dizer do Hamas, a imagem continha a forma elementar e abstracta da justiça: a equivalência material. A fome em Gaza, cuja responsabilidade os terroristas imputam exclusivamente a Israel, é paga agora pelos reféns − também eles morrerão à fome. O Hamas estaria assim a devolver o que lhe foi feito.
Mas a imagem divulgada, que chocou vários dirigentes europeus, segundo os próprios afirmam, que se apressaram a vir a público declarar estados de alma − pisam, certamente pela primeira vez, o solo do planeta Terra −, remete deliberadamente para o nacional-socialismo. O objectivo é duplo. Se Israel está efectivamente a cometer um genocídio, todos os meios de defesa usados pelo Hamas são legítimos, uma vez que, fosse aquele consumado, seria o fim do povo palestiniano como tal. O risco seria assim existencial na autêntica acepção do termo. Toda a propaganda do Hamas conseguiu que os actos de guerra israelitas fossem considerados fora de qualquer consideração tática ou estratégica (neste capítulo não deixaria de ser interessante analisar as notícias da agência Lusa, Israel mata sem mais, sem ser numa operação militar com objectivos próprios, por um mero acidente ou por qualquer outro motivo), sendo antes apresentados como actos de uma vontade do mal pelo mal, de uma vontade intrinsecamente homicida.
A meta visada é a identificação de Israel com o nacional-socialismo, para desse modo destruir o que na opinião pública do Ocidente é a caução indiscutível do Estado judaico. As vítimas do mal pelo mal são agora os autores do mal pelo mal. Assegura-se assim que os místicos da compaixão no Ocidente, de longe preponderantes à esquerda, se identifiquem com o sofrimento do povo palestiniano por deslocamento, isto é, sem terem de se confrontar directamente, sem mediações de qualquer espécie, com a retirada voluntária do apoio compassivo aos judeus vítimas da perseguição e da tentativa de extermínio pelo nazismo. Pelo contrário, o ego dissolve-se e alastra-se sem ser forçado a uma decisão racional com base num juízo ponderado, passando de uma causa para a outra insensivelmente porque sem forma. Em contrapartida, essa mística é compatibilizada com um distinguo petrificado, absoluto. Se a rejeição do nazismo deve ser absoluta, depois de operado aquele deslocamento, também a rejeição de Israel deverá ser absoluta. O distinguo é o maniqueísmo puro. A rejeição de Israel é total, à imagem e semelhança da rejeição do nazismo. O refém esquelético a cavar a sua sepultura é, num grau de perversidade moral dificilmente alcançável, transfigurado como a resposta do judeu ao verdugo nazi − era o que eles teriam feito como resposta ao genocídio perpetrado pelos nazis. E, se essa resposta seria legítima então, é legítima agora.
Trata-se uma emboscada montada com princípio, meio e fim. Se o Ocidente reconhecer um Estado palestiniano nestas condições enterra toda a sua tradição e valores morais e renega toda a sua política pós-1945 − descolonização incluída. Mas tal constituiria também uma declaração de derrota. Seria cair de livre e espontânea vontade de joelhos aos pés de um inimigo. O que poderia esperar? Cuspir-lhe-iam na cara de desprezo. Em seguida cortar-lhe-iam a cabeça. O Hamas já mostrou que é capaz disso e de muito mais. A última vez a 7 de Outubro de 2023.