Foram múltiplos os direitos de resposta e as reações a um artigo cujo mote serviu  a ideia de que “um grande médico não se forma das 9 às 5, as horas extraordinárias são  necessárias – para o médico, para os doentes”. Talvez quem tenha escrito estas palavras  não saiba que generalizar a geração médica mais jovem à ideia de “o médico” seja de  um enorme equívoco, uma vez que o número de jovens médicas formadas a cada ano é  superior ao de jovens médicos há muito tempo. Talvez não saiba que ainda assistimos a  chefias hierarquias médicas quase no masculino, quando no mínimo o número de  Diretoras de Serviço devia estar próximo do número de Diretores de Serviço. Talvez não  saiba as Médicas em idade fértil passam sempre pela condicionante de poderem  engravidar quando determinam o seu percurso – porque sim, somos melhores  profissionais quando temos uma vida pessoal satisfatória, mas não, a carreira de uma  mulher não tem de estar condicionada pela Maternidade – vejam-se os exemplos de  Ursula Von der Leyen e Assunção Cristas. Surpreendam-se, ainda, com o número de  vezes em que, mesmo de estetoscópio aos ombros, uma jovem Médica é chamada de  “menina” ou “enfermeira”, quando médicos da minha idade, por serem homens, são  tratados logo à partida por “Doutor”.

A Medicina é o sonho que grande parte da sociedade embala. Ingénuos são  aqueles que não sabem que, quando se torna realidade, múltiplos são os fatores e  copiosos os intervenientes coniventes em tornar a carreira Médica rapidamente  desgastante, com riscos para a própria saúde mental e física.

A classe Médica tem um  horário de trabalho legal superior a qualquer outra classe – 12 horas em Serviço de  Urgência. Deixemos talvez de discernir sobre o número de Médicos que são empurrados  a trabalhar numa jornada de 24 horas e outros horários superiores. Dentro das atividades Médicas estão contempladas, derivando entre Especialidades, as atividades  de bloco operatório, consulta, enfermaria, consulta, urgência interna, urgência externa.  Admirar-se-iam com o número de vezes em que há sobreposição de tarefas médicas,  fazendo-se consulta e enfermaria na mesma manhã, para garantir que os doentes são  vistos atempadamente. Renunciemos à necessidade de comentar o número de vezes  em que as jovens médicas se veem confrontadas com pequenas e mesquinhas  necessidades de afirmação da parte de outras classes profissionais, por serem mais  experientes e experimentadas, à frente de doentes, no estabelecimento de diagnóstico e tratamentos. E não, aqui ter feito referência às jovens mulheres médicas não é por  acaso.

Recusar horas extraordinárias, além das 150 horas extraordinárias com que já  nos deparamos como obrigatórias, é um ato de enorme coragem. Porque dentro da  carreira médica, como dentro de qualquer outra, é bem visto quem se anula e abnega.  É bem visto quem se cancela e invalida, quem não exprime grandes opiniões, quem não  dá trabalho, quem faz tudo para facilitar o curso habitual dos processos, sem capacidade  para inovação e mudança, ainda que se esfole ou esfarele.

Que isto não se confunda com a óbvia necessidade de trabalho árduo para se ser  um bom profissional, inerente a qualquer profissão. A qualidade Médica vem inegavelmente da experiência, do número de doentes observados, operados,  consultados. Mas a qualidade de um Médico ou de uma Médica vem sobretudo da sua  capacidade de decisão. O que traz valor acrescentado à atividade Médica é o raciocínio,  que muitas vezes define a qualidade de vida, a vida ou a morte de um doente. A  capacidade de raciocínio, para que não seja moldada por fatores externos, mas sim pela  evidência científica, experiência e boa prática, tem de ser guiada pela lucidez. No  entanto, a perspicácia na decisão só vem de uma mente que não esteja cansada, nem  assoberbada. Por isso, caríssimos leitores, recusar horas extraordinárias é reconhecer o  limite da capacidade humana, é ter a humildade de se ser gente para que na hora certa  se seja Deus.

Ainda me sujeito a muito mais do que gostaria, mas na certeza de estar a  trabalhar para melhorar as condições atuais, e garantir aquilo ao qual as gerações  seguintes já não vão ter de se submeter.