Debates, montes de debates! 28 debates num mês. Faz lembrar aquelas alturas de campeonato do mundo de futebol, com jogos a toda a hora, se todas os confrontos fossem um electrizante São Marino-Djibouti. Sim, eu sei que não há grandes hipóteses de São Marino e Djibouti marcarem presença num mundial de futebol. Mas e Catarina Martins ou Jorge Pinto marcarem presença numa Presidência da República?
Atenção, gosto de debates e de converseta em geral. Aliás, por isso mesmo, acho que avaliar as capacidades de potenciais Presidentes da República através de um formato de debate com meia hora, é como se, na Grécia Antiga, se avaliasse o corredor mais apto a fazer a maratona através de uma corrida de sacos em que os participantes equilibrassem um ovo numa colher que transportam com a boca. Em meia hora de programa, com o tempo útil de debate a não exceder os dois minutos e meio, estamos a avaliar, não tanto quem pode ocupar o cargo de mais alto magistrado da nação, mas mais quem merece ser eleito o mais alto regurgitador de frases feitas da nação.
Como é que isto se fazia como deve ser? Muito simples: cada candidato ia, à vez, a um podcast estilo Joe Rogan e ficava a falar com o entrevistador um mínimo de três horas. Sem intervalo para idas à casa de banho (quero lá saber da legislação do trabalho, pá!). Se o velhinho Trump conseguiu, estes também conseguiam. Sem cortes, sem interrupções, com todo o tempo para nos explicarem, em detalhe, o que pensam do mundo, do país e, isso sim fundamental, das exibições da seleção sem o Cristiano. Ao Joe Rogan de serviço caberia a simples tarefa de lançar questões, assinalar incoerências e fazer pouco das estupidezes.
Mas quem faria essas entrevistas? Não estando o Joe Rogan disponível, quem, igualmente perspicaz, mas muito mais bonito, poderia desempenhar esse papel? Eu, como é óbvio. Essa era fácil. Para já, e na eventualidade de não terem vagar para ver 379 debates — que às vezes há aquela urgência de ir à despensa ver se o sal não está já fora de prazo — ficam com o essencial sobre cada interveniente (pela ordem ditada por um sorteio inspirado no do Totoloto em que saiu a bola com o número zero).
António José Seguro
Gera um grau de entusiasmo idêntico ao de uma apresentação de PowerPoint feita pelo Flash, a preguiça do Zootrópolis. Tem a vantagem de não precisar de um orçamento tão chorudo em Belém, porque não fará viagens para destinos exóticos: com ele é só lugares comuns. Teve como ponto alto da carreira fazer frente a António Costa no PS. Vamos manter as coisas assim.
António Filipe
Cumpre o papel expectável de um comunista na corrida a Belém. Não, não me refiro a “defender” os direitos dos trabalhadores. Refiro-me a proporcionar a todos os portugueses a possibilidade de, ficando o Dino Parque da Lourinhã longe, observarem o comportamento de um dinossauro político que sobreviveu a todos os fenómenos de extinção, até aos nossos dias.
Catarina Martins
É a única mulher nos debates. Facto que a trará, certamente, muito revoltada. Temos isso em comum: não só não percebo porque não está a Joana Amaral Dias nestes confrontos, como adoraria que estivesse também, por exemplo, uma Margaret Thatcher. Estou certo que a mesma frustração traz indignada a activista — também pelos direitos das mulheres, suponho — Catarina Martins.
Henrique Gouveia e Melo
Para quem gosta de Ciência, é o sucessor natural de Marcelo Rebelo de Sousa: em termos Darwinianos, sairia da presidência o nosso Homem da Atlântida, que passou dois terços dos mandatos de molho na praia, e entraria um Almirante que, no início da campanha, foi apanhado com os calções na mão, perdendo votos cada vez que abria a boca. Para quem gosta de Portugal, boa sorte.
Luís Marques Mendes
O candidato ideal para aqueles portugueses que, olhando para os mandatos de Marcelo Rebelo de Sousa, garantem: “Foi um estupendo Presidente! Pena ser tão alto.” As vossas preces foram ouvidas. Em caso de vitória, e para os fãs mais preocupados com a saúde, aconselho que se façam sempre acompanhar por um banquinho, para as selfies não serem demasiado esforço para a região lombar.
André Ventura
Ainda nem três dos 518 debates tiveram lugar e já posso garantir que estes candidatos debatem leve, levemente, como quem quer deixar tudo assim-assim. Justiça seja feita a André Ventura. Não faço ideia se, no fundo, quererá deixar tudo assim-assim, mas debate forte, fortemente, como quem aparenta não ter paciência para a tal conversa de chacha com que PS e PSD nos têm pastoreado nos últimos 50 anos. Eu também não tenho.
João Cotrim de Figueiredo
A principal característica que lhe falta é ter mais características. Não tanto para Presidente da República, mas como assunto de crónica humorística. Ainda assim, a experiência presidencial prévia, como líder da Iniciativa Liberal, não deslumbrou: sonhámos com uma promessa de motosserra à Milei, acordámos com um Bloco de Esquerda que toma banho. Sem desdenhar do óptimo asseio, claro.
Jorge Pinto
O Jorge Pinto não costumava apresentar-se sempre de brincos? Quando é que passou a andar todo aprumadinho, pronto para assumir o cargo de Presidente da República ou de estagiário da Caixa Geral de Depósitos? Esta nova versão Livre de comunista é muito moderna, tipo aquele exterminador de metal líquido, que queria dar cabo do Schwarzenegger e de toda humanidade, assumindo qualquer forma que lhe desse jeito. Só não se lembrou da de Presidente da República. Lembrou-se agora o Livre.
Portanto, é escolher. Isto assumindo que Manuel João Vieira acabará por não constar do boletim de voto. Porque, se constar, a opção é óbvia: votar no homem que, enfim, nos juntará à fama o proveito, gastando tudo em p&%$# e vinho verde canalizado.
Siga-me no Facebook (@tiagodoresoproprio) e Instagram (@tiagodoresoproprio)