Entre os signatários da carta “Não-socialistas por Seguro” encontro pessoas por quem tenho estima genuína. Desde professores que me ensinaram os fundamentos da democracia liberal, a companheiros de campanha com quem aprendi, na prática, como essa democracia se vive e se disputa. É precisamente por essa estima que me sinto obrigado a escrever estas linhas. Não porque lhes negue boa-fé, mas porque a carta que subscrevem nada tem de liberal e muito pouco de democrática. O seu tom é, pelo contrário, profundamente iliberal.

O argumento central é simples e solene: os não-socialistas devem apoiar um candidato socialista — não por convicção, mas por dever moral; não por escolha política, mas por higiene democrática. O gesto é apresentado como um momento de maturidade nacional, um triunfo da conciliação sobre a polarização. Contudo, quanto mais releio a carta, quanto mais observo as reacções fora da bolha onde foi gestada, mais evidente se torna o seu efeito paradoxal, ainda que previsível: longe de desarmar trincheiras, aprofunda-as.

Segundo esta lógica, a eleição deixa de ser uma escolha política ordinária e transforma-se num juízo escatológico. Se Ventura vencer, instala-se o caos moral e institucional; se Seguro triunfar, respiramos de alívio e a República fica salva. O raciocínio é tão pobre quanto o seu espelho simétrico no discurso mais histérico do venturismo, onde Seguro aparece como o prenúncio de um regresso ao socratismo corrupto. Ambas as narrativas são intelectualmente frágeis e historicamente analfabetas.

Quem estuda História sabe que os países não colapsam — nem se salvam — num único dia. Os destinos nacionais não se decidem em momentos messiânicos, mas em processos longos, estruturais, cumulativos. Portugal vive hoje um declínio profundo, com raízes antigas e complexas. Ventura não é a causa desse declínio; é um sintoma. Não compreender isto é ceder ao presentismo — essa doença contemporânea agravada por ciclos noticiosos de 48 horas e por vídeos de 20 segundos. Tudo tem de ser um turning point, porque já não sabemos pensar em duração.

É por isso que esta carta me parece um exercício de histeria moral.

Mais curioso ainda é o facto de alguns dos seus subscritores se proclamarem “não-socialistas” quando, em termos substantivos, se situam à esquerda do próprio candidato que apoiam. A ironia é evidente, mas o problema não é apenas esse. Trata-se de uma hipocrisia suave, quase cerimonial: um gesto simbólico de subserviência que revela algo mais fundo.

A carta é, no fundo, o retrato de uma direita traumatizada. Décadas após o 25 de Abril, persiste o velho complexo de inferioridade: ser de direita continua a exigir um pedido de licença à esquerda, uma inclinação respeitosa perante a sua hegemonia cultural. Não se trata de convicções — trata-se de validação moral. Esta postura, longe de proteger o regime democrático, cria o terreno ideal para figuras anti-sistémicas. A demagogia cresce precisamente onde a direita abdica de si própria.

O efeito é claro: ao cercar moralmente Ventura, ao isolá-lo como figura indecível, ao tentar capturar o voto legítimo através da intimidação ética, reforça-se exactamente aquilo que se pretende travar. Muitos votarão nele pela primeira vez em reacção a esse cerco. Quando o fizerem pela segunda e pela terceira, já não haverá apelos morais que os detenham. Quem observa de fora a bolha que cerra fileiras em torno de Seguro sentirá a tentação, muito humana, de a desafiar com o voto.

Invocar a moderação como valor absoluto, como faz a carta, é um gesto pueril. Não é virtude: é medo disfarçado. O eleitor contemporâneo não se move por catecismos morais; valoriza a coragem — a coragem de decidir por si, de romper com consensos artificiais, de desafiar elites que ainda acreditam controlar o jogo. Ignorar isto é não compreender o tempo em que se vive.

A carta não é, portanto, um gesto de conciliação. É um instrumento de polarização travestido de virtude cívica; uma armadilha moral que tenta transformar o voto de cidadãos livres numa prova de pureza ideológica. É precisamente esta moralização da política que alimenta o populismo que diz combater.

Se o centro-direita não perceber que a democracia exige liberdade real de escolha, continuará a produzir os seus próprios fantasmas. Ventura não surge do nada: nasce do medo, da subserviência e da incapacidade de ler o tempo histórico. Ignorar esta lição é garantir que o problema não desaparece — apenas cresce, mais robusto e mais difícil de conter. Como se diz muito naquele programa com audiência: “Depois não se queixem”.