Estávamos em plena pandemia quando o plano de vacinação arrancou. O país vivia num clima de medo legítimo, escassez e incerteza, e a vacinação era, literalmente, uma questão de vida ou de morte para milhares de portugueses. Ainda assim, o Governo socialista de António Costa entendeu que aquele era o momento ideal para nomear um apparatchik de partido para coordenar a task force. Um produto típico da máquina: politicamente bem colocado, tecnicamente frouxo e moralmente indiferente. O resultado foi exactamente o que se podia esperar de um regime governado por boys de partido.

O processo revelou-se caótico, pouco criterioso e permeável ao favoritismo. Pessoas saudáveis, por força do cargo, do estatuto ou do compadrio, passavam à frente de populações vulneráveis. As prioridades clínicas eram substituídas por prioridades sociais. O Estado deixava de proteger para começar, como tantas vezes, a distinguir. O escândalo instalou-se, não por excesso de exigência pública, mas porque a indecência era demasiado visível para ser disfarçada.

Foi então que chamaram um militar.

Não por súbita iluminação política, mas por necessidade. Quando a partidocraciafalha, recorre-se sempre — ainda que com relutância — a quem vive fora dela. Henrique Gouveia e Melo entrou não para discursar, nem para explicar, nem para agradar. Entrou para fazer aquilo que o Estado parecia já incapaz de fazer por si próprio: impor regras, cumprir critérios e tratar todos por igual.

O favoritismo desapareceu. A arbitrariedade cessou. A vacinação passou a ser organizada, previsível, rigorosa. Durante alguns meses, o Estado português voltou a comportar-se como Estado. O reconhecimento foi praticamente unânime, salvo os negacionistas profissionais e os desconfiados crónicos.

Aponta-se hoje, com ar doutoral, que “não basta ter coordenado uma taskforce de vacinação para ser Presidente da República”. A observação é verdadeira, mas irrelevante. Ninguém sério defende o contrário. O que está em causa não é a vacinação enquanto feito técnico, mas o que aquele episódio revelou sobre quem o protagonizou.

Revelou, desde logo, a diferença abissal entre quem vê o poder como serviço e quem o vê como carreira. Revelou que há quem, perante uma missão pública, não pergunte quem ganha, mas o que tem de ser feito. Revelou, sobretudo, que a disciplina, o sentido de dever e o patriotismo — palavras hoje tratadas com desconfiança em certos círculos — continuam a produzir resultados concretos.

Um militar não governa por afectos, nem por equilíbrios partidários, nem por sondagens. Governa por missão. E isso faz toda a diferença num país onde a política se tornou um sistema de favores cruzados, comentários televisivos e pequenos negócios disfarçados de opinião.

Não é por Gouveia e Melo ter sido um bom coordenador da vacinação que pode ser um bom Presidente da República. É porque aquele momento condensou, de forma quase pedagógica, aquilo que ele pode trazer à Presidência: rigor institucional, independência real e ausência total de favoritismo. Exactamente o contrário do que nos habituámos a ver.

Num regime cansado, capturado e auto-referencial, a Presidência da República precisa menos de um político experiente e mais de alguém que não pertença à mesma fauna. Alguém que não tenha passado a vida a servir-se do Estado, mas que saiba, instintivamente, servi-lo.

Nesse contraste — entre o apparatchik e o oficial, entre o favor e o dever, entre o favoritismo e a responsabilidade — está a razão essencial do meu apoio a Henrique Gouveia e Melo.

Faço-o com a reserva natural de um monárquico pouco inclinado a entusiasmos presidenciais, mas também com a lucidez de quem reconhece que nenhum dos candidatos apresenta uma verdadeira visão para o país. O Almirante é o que mais se aproxima. Num tempo de pobreza política, isso já não é pouco.