Trump tem tido uma postura lamentável em relação à  Ucrânia. Não há como contornar a questão. A agressão  começou, de facto, com a invasão russa — mas não em 2022.  Começou em 2014, com a anexação da Crimeia. A Europa não  acordou há três anos, tão pouco há onze. Se quisermos ir mais  além, nem em 2008 com a invasão de Putin à Georgia.

Em vez de despertarmos para a realidade e investirmos  seriamente na nossa defesa e autonomia estratégica,  preferimos não abdicar dos nossos “dinheirinhos” para as  pensões. Passámos décadas convencidos de que a União  Europeia era o melhor sítio do mundo para viver (o que, em  muitos aspetos, era verdade), enquanto descansávamos à  sombra da proteção norte-americana. Defesa? “Nem pensar  nisso! Isso implicaria cortar em apoios sociais” (palavra fancy para dependência do Estado). “Os EUA protegem-nos!”

Enquanto os Estados Unidos e a China investiam na inovação  e a Rússia se rearmava, a Europa ficou para trás. Melhor  dizendo: nem sequer entrou na corrida. Poderemos dizer que  vencemos na corrida da regulação? Talvez. Fomos pioneiros  em criar um modelo burocrático asfixiante, que, ao invés de  fortalecer a Europa, a deixou à deriva. O sonho europeu foi  destruído pela visão economicista e pelo pragmatismo  apolítico dos herdeiros do “Fim da História”. O mesmo  pragmatismo que levou boa parte da Europa a comprar gás  russo, financiando em biliões de euros o regime de Putin — e  tudo em nome do conforto e da conveniência.

Mas continuámos satisfeitos a viver “no melhor lugar do  mundo”.

Neste mês de Fevereiro de 2025, o vice-presidente dos EUA  fez um discurso brilhante sobre o estado da Europa. O corouníssono de comentadores pró-UE apressou-se a condenar J.  D. Vance — “Os EUA de Trump não nos dão lições!” Pois bem,  parece que dão, até porque são eles que pagam a factura.  Vance apontou as falhas óbvias da UE: ataques à liberdade de  expressão, ingerência em eleições nacionais (como no caso  romeno), regulação sufocante e desinvestimento na defesa.  Mas foi mais fundo. Questionou a razão de ser da Europa.  Porque lutamos pela Ucrânia? Qual a força anímica que nos  leva a investir nesta guerra? Bruxelas responde com  abstrações como “valores partilhados”, “democracia” e  “direitos humanos” — palavras vazias sem uma ordem  valorativa por trás. Em nome do globalismo, a Europa rejeitou  a sua herança cristã e abraçou o multiculturalismo. O  resultado? O eleitorado virou-se para partidos identitários, os únicos que ainda ousam definir o que é a civilização europeia.  O discurso de Vance foi recebido na Europa como as más  notícias por um doente que se recusa a ouvir o diagnóstico.  “Como assim, tenho de abdicar do meu estilo de vida?! Sinto-me óptimo!”

Pois bem, quem não está disposto a abdicar do seu conforto,  não se poderá sentar à mesa dos grandes.

O Papa Bento XVI dizia: “Procurais conforto. Mas vós não  fostes feitos para o conforto, mas para a grandeza.” O mesmo  se aplica às nações. A Europa tem uma economia onze vezes  superior à da Rússia, uma população de 500 milhões de  habitantes — superior à dos EUA — e concentra algumas das  melhores universidades do mundo. Tínhamos tudo para ser  uma potência hegemónica, mas escolhemos o conforto em vez  da grandeza.

O “Fim da História” chega agora ao seu fim definitivo. A ordem  demoliberal que conhecemos desmorona-se. A História está de  regresso.

E para aqueles que escolheram o conforto em vez da  grandeza, o regresso da História vai doer.