Ao longo da história da Humanidade houve várias vozes com a missão de manter a lembrança da nossa ligação ao planeta, e o respeito por tudo o que nele existe. A aceleração da degradação ambiental das décadas mais recentes traça também a história do movimento ambientalista. Este artigo é uma viagem nos temas e factos mais marcantes a partir dos anos 80, sobre o contexto da fundação das associações ambientalistas, as suas conquistas, formas de intervenção e desafios que se moldam também à manifestação e perceção da realidade que vivemos.

Com o avanço industrial e tecnológico do pós-guerra, surgem as primeiras vozes críticas que moldariam o pensamento ambiental moderno. Autores como Aldo Leopold, Rachel Carson ou Nicholas Georgescu-Roegen alertam para os limites ecológicos do crescimento e para os impactos invisíveis da ação humana sobre os sistemas naturais.

Na década de 80, o movimento ambientalista ganha expressão global. A pressão pública sobre temas como o buraco na camada de ozono, os acidentes industriais e nucleares (como o de Bhopal ou Chernobyl) e a destruição da Amazónia mobiliza protestos, campanhas e a consolidação de organizações ambientais em vários países. Neste mesmo contexto de crescente consciencialização, a década de 80 em Portugal revela-se particularmente fértil para o ambientalismo. Esse despertar traduziu-se na fundação da Quercus em 1985, centrada na recuperação da floresta e fauna autóctones, assumindo dois anos depois o nome atual e uma presença nacional consolidada.

Na década de 90, com a Conferência do Rio, em 1992, o ambiente entra na agenda política internacional, surgindo compromissos como a Convenção sobre Alterações Climáticas e, no final da década, o conceito de justiça climática. Importa realçar nesta década o início do cultivo de Organismos Geneticamente Modificados (OGM) patenteados, e, em consequência, a contestação a esta manipulação na produção de alimentos e por uma agricultura que respeite a essência da Vida. Em Portugal, o período é marcado ainda pela chamada “limpeza do século”, com o encerramento de lixeiras e instalação de incineradores, gerando contestação e mobilização em defesa de soluções mais sustentáveis e participadas.

Nos primeiros anos do século XXI, o movimento internacional institucionaliza-se: o Protocolo de Quioto, o reconhecimento do IPCC e as COP anuais tornam o clima tema central, apesar de avanços limitados. Em Portugal, consolidam-se políticas ambientais e cresce a intervenção das ONGA. A Quercus reforça a sua ação crítica, educativa e legal, mantendo-se vigilante perante projetos de forte impacto ecológico. Persistem, contudo, fragilidades na gestão de resíduos, na conservação da biodiversidade e na transição energética.

O Acordo de Paris, em 2015, simboliza novo compromisso global, no entanto a distância entre metas e realidade torna-se evidente. As Greves Climáticas Estudantis e o Fridays for Future ganham destaque, exigindo justiça climática e ação imediata. Portugal vive esse mesmo paradoxo: avança em metas e renováveis, mas a execução é lenta e desigual. A Quercus continua a intervir, denuncia incoerências e afirma a justiça climática e a transição ecológica como pilares da sua ação.

A persistência e criatividade são elementos essenciais para consolidar a evolução da sociedade. As mudanças alimentam-se de ousadia e coragem para explorar novos caminhos à frente do seu tempo. De avançar no processo de expansão do conhecimento e da consciência.

Quarenta anos depois, o que começou como uma reação a agressões ambientais visíveis e primeiros passos na tomada de ação pela conservação da natureza, transformou-se numa ação muito mais ampla, que interpela sistemas económicos, modelos de consumo e formas de poder. A justiça climática tornou-se a linguagem comum entre quem começou nos anos 80 e quem hoje levanta cartazes nas escolas.

Entre passado e presente, a mensagem mantém-se: uma ação coletiva, persistente e plural é essencial para garantir que o futuro não seja escrito à custa do planeta, e sim na construção renovada de uma sociedade justa e cultura regenerativa.