Conheci dois casais que odiavam toda a gente. Os primeiros não se coibiam de dizer mal da família e dos amigos próximos perto dos filhos desde que estes eram muito pequenos, filhos que se tornariam, num caso, um maledicente, e no outro, no caso da filha, despertaria nela o desejo de fugir de casa dos pais assim que pudesse. Importa todavia a geometria da maldade composta, em ambos os casos, pela parelha. Talvez em separado houvessem no passado sido pessoas comuns, com as suas antipatias e simpatias. A sua natureza execrável vinha da conjugação. Pioravam-se e pioravam tudo em seu redor.
No fim da vida, odiavam-se um ao outro. Ele ganhara a convicção de que fora ela quem tinha feito dele um traste, infectando-o com a sua malignidade. Ela convenceu-se de que tinha sido ele a pegar-lhe a doença. Detestavam aquilo em que se tinham tornado e nem nesse momento se consideravam responsáveis pelo seu destino, atirando as culpas à cara um do outro.
A certa altura, ele morreu. E ela caiu na cama, com uma depressão que mais do que luto por ele era luto pela perda da sua companhia na maldade. Não sabia ser má sozinha. A morte dele levava-a a perder o seu poder junto daqueles que a vida inteira tinha aterrorizado. Tinha saudades de conversar com o marido, saudade de ter a quem dizer mal dos outros. E foi envelhecendo no veneno que não tinha meio de ventilar, sentindo-se a cada dia mais irreconhecível, de uma bondade nova, que era apenas fraqueza.
O outro casal está ainda vivo e de boa saúde. Também eles são piores quando estão juntos e pioraram-se uma vida inteira.
Aos domingos, gostam de ir almoçar fora e visitar os tristes. Metem-se no carro, chegam a fazer quilómetros. Visitam a prima solteirona, apenas para quando lá chegarem lhe perguntarem se não tem vergonha de não arranjar um marido. Visitam o irmão falido, para lhe perguntar se ele tem medo de trabalhar. Visitam a tia doente, para lhe dizer que tem é preguiça. Visitam os sobrinhos sem filhos, a quem perguntam se são estéreis.
Imagino-os no carro, na antevisão do momento em que entram em casa dos outros, antecipando o incómodo que irão causar e sentindo nisso quase uma luxúria. A vida sexual deste casal resume-se a estas visitas dominicais.Para os outros, os visitados, são família que morreu em vida. Abrem a porta, recebem-nos a contragosto, incapazes de lhes responderem, tamanha é a sua insolência e a imprevisibilidade das suas aparições, ainda que os outros não esperem nada de bom daqueles lados.
Pergunto-me, então, pelo casamento, capaz de melhorar ou piorar as pessoas para lá de qualquer possibilidade de redenção. Normalmente, os amigos bons arranjam boas companhias, raramente não gosto dos maridos e mulheres dos meus amigos. É habilidade somente humana: a de nos piorarmos porque estamos juntos, o carácter infeccioso do convívio continuado, o apodrecimento do espírito advindo do companheirismo.
Recordo a filha do primeiro casal, a tal que fugiu a tempo. Ao fim de semana, de vez em quando, recebiam os pais dela em casa, para ver os netos. E então, na véspera, e nas horas antes de eles chegarem, ela ficava nervosa, e o marido acalmava-a, com a antecipação do momento em que encenaria a peça do jantar de família, lembrando ao marido aspectos da vida que não queria que ele mencionasse à mesa, agitada enquanto preparava a comida e enquanto os esperavam, visto que, por incentivo da mãe, que sabia deixar a filha ansiosa e fazia de tudo para o conseguir, os pais chegavam sempre atrasadíssimos aos jantares, indiferentes ao facto de que os miúdos precisavam de comer a horas, e que a comida perdia a graça.
A filha ansiava pelo momento em que se iam embora. Horas depois, de madrugada, com o marido e os filhos já a dormir, entrava no duche para se lavar dos pais. Era invadida pelo pânico de vir a ser como eles, a vergonha corria-lhe pelo corpo, contou-me. Lavava-se até sentir a pele arder, com água muito quente. Depois metia-se na cama, abraçava o marido e, revivendo a entoação das frases proferidas à mesa, adormecia tarde e tinha sonhos inquietos.