O Triunfo dos Porcos, de George Orwell, é uma alegoria – à revolução russa de 1917 – na qual os animais de uma quinta conduzem uma revolução motivada pelas más condições de vida que lhes eram proporcionadas pelo proprietário da quinta. Ao assumirem o controlo da quinta, os animais estabelecem e afixam publicamente as regras do novo regime que designam de Animalismo. Os sete mandamentos do Animalismoestabelecem que aquele que andasse em duas pernas era inimigo, o que andasse em quatro patas ou asas era amigo, nenhum animal deveria vestir roupas, dormir numa cama, beber álcool, matar outro animal e, por fim, que todos os animais eram iguais.

Com o passar do tempo, e ao invés das aspirações que haviam fundado, todos os animais trabalhavam mais e comiam menos comparativamente com o período anterior à revolução. Todos à excepção dos porcos, que haviam assumido o controlo da quinta – passando a andar em duas patas, vestir roupas, dormir em camas, beber whiskey e matar os animais que contestassem a sua liderança –, justificando as suas condutas alterando os mandamentos sempre que eram confrontados com o facto de estarem a incumprir os mesmos. No final da alegoria, os sete princípios do Animalismo são substituídos por um único mandamento: “todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais do que outros”.

Ora, não fosse o Bloco de Esquerda um partido de Neo-Trotskistas – uma das figuras da revolução satirizada no conto – nada teriam que ver com esta sublime alegoria. Mas parece que, de facto, existem algumas semelhanças entre os dirigentes bloquistas e os porcos de Orwell. Os arautos da extrema esquerda, à semelhança do que que acontece na quinta, também definiram as regras do novo regime, que quase lideram. É assim com o Governo e com a Câmara Municipal de Lisboa, cujas respectivas maiorias estão dependentes dos bloquistas. Regime esse que foi construído com base em causas fracturantes, mas também com ataques aos ditos porcos capitalistas.

Essa perseguição tem por ex-líbris o imposto Mortágua que, nas palavras da sua proponente, consistia em perder a vergonha de ir buscar a quem está a acumular dinheiro, os porcos capitalistas. Mas não se basta por aí, passa também por ataques perpetuados ao alojamento local, pela sugestão de Catarina Martins de controlo de preços à habitação. E claro está, por todo o discurso contra os especuladores imobiliários – também eles porcos capitalistas – assumido pela carinha laroca de Ricardo Robles na campanha autárquica como a sua principal bandeira, e que evidentemente terá tido algum peso na sua eleição enquanto vereador da Câmara Municipal de Lisboa.

Se os bloquistas já assumiam algumas semelhanças com os porcos de Orwell devido à influência que exercem sobre a nossa quinta, estas vêm agudizar-se quando afinal vimos a descobrir que Robles é um dos mais finos especuladores imobiliários e Catarina Martins até detém participações sociais numa empresa cuja actividade é o alojamento local, recorrendo para tal a mecanismos obscenos de promoção do capitalismo, como a plataforma Airbnb.

Considerando que, até aqui os porcos bloquistas já eram mais iguais do que os outros, as parecenças com os animais dominantes do Triunfo dos Porcos voltam a estreitar-se quando Mariana Mortágua e Catarina Martins vêm à praça pública contradizer os mandamentos do bloquismo, ao defenderem a legítima actuação de Robles como não sendo a de um porco capitalista.

Desta forma, podemos constatar que, de facto, “todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que outros” e que a distância entre os porcos capitalistas e o Triunfo dos Porcos é, afinal, muito curta.

Advogado