Na “Divina Comédia” os traidores estão no nono círculo do Inferno, o pior de todos, presos num lago de gelo. Quem sou eu para criticar Dante? Ninguém, mas sei que nisso ele falhou redondamente. O traidor não precisa de ser visto como a pessoa que atingiu o estado mais podre da existência. Pelo contrário, a traição é o pecado mais elementar e democrático que existe.

Dante quis ser o mais bíblico que conseguiu mas a Bíblia é mais bíblica do que ele. A vida de Jesus contada nos evangelhos destaca dois traidores. Há gente que sobra a abandonar Jesus ao longo da vida dele: aqueles que lhe prometem o que não cumprem, aqueles que aderem e abandonam, aqueles que o aclamam e que depois o crucificam, e por aí fora. Mas em toda essa multidão os dois traidores que brilham acima da média são Judas e Pedro.

Judas é um traidor daqueles feitos tão à medida que os descrevemos como predestinados. A pessoa olha para ele e diz: estava-se mesmo a ver. Mas com Pedro a conversa é outra: não se estava nada a ver… O primeiro traidor confirma as nossas suspeitas e o segundo arruína as nossas melhores expectativas. Sejamos sinceros: Pedro parte-nos o coração como nunca Judas conseguiria. Se a traição fosse monopólio dos maus, pouco ou nada sofríamos com ela.

Mas é aqui que se encontra o detalhe redentor. Ainda bem que a traição não é monopólio dos maus. Na noite em que Jesus foi traído, foi traído pelo mau que era Judas, e que já se estava mesmo a ver, e foi traído pelo bom que era Pedro, e de quem ninguém esperava semelhante coisa. A traição junta maus e bons mesmo no pequeno grupo de amostra estatística que eram os discípulos de Jesus. Topem a contagem à boca das urnas naquelas horas decisivas: em doze, dois já traíram o Mestre.

Quando Jesus está angustiado no jardim do Getsemane, chega Judas com os soldados para o prenderem. O toque final, de crueldade insuportável, é um beijo. Judas, facínora indescritível, trai porque decidiu trair. Pedro, na defesa de Jesus, saca de uma espada e acaba a cortar a orelha do servo do Sumo-Sacerdote. Se Jesus estava desiludido com Judas, desiludido com Pedro ficou — e isto ainda antes da negação explícita que havia de acontecer quando o galo cantasse. Há uma estranha sintonia entre o beijo de Judas e a espada de Pedro: ambos se comportam armados.

O traidor Judas e o traidor Pedro estão nas trincheiras opostas da batalha, mas naquele momento entendem a guerra da mesma maneira. Ao ficar sozinho, é como se Jesus fosse traído por quem o ataca e por quem o defende. Os homens que o odeiam acorrentam-no, os homens que o amam abandonam-no assustados. O seu Reino parece ficar longe do Reino que os discípulos e os inimigos desejam. Para sermos traidores só precisamos de não entender assim tão bem o Reino de Deus.

A coisa boa é que a história não terminou aqui. À medida que ela avançou, piorou o estado de Judas e piorou o estado de Pedro. Mas, no final, o traído resolveu fazer algo com o traidor que sobrou (porque o outro matou-se). Como é que Jesus ajustou contas com Pedro? Mostrando-lhe o futuro que há além da traição e que se chama amor. Pedro, o traidor, virou Pedro, o pastor. Esta será uma Igreja estranha, sem dúvida.

Foi aqui que Dante falhou. Os traidores não têm de estar exclusivamente onde o Inferno queima mais quente. Trair não tem de ser o pecado mais esforçado; basta que exageremos na defesa do que amamos. É por isso que Jesus não precisa assim tanto dos que o defendem, mas os que defendem Jesus precisam totalmente dele. Não duvido que haja traidores no nono círculo do Inferno, mas estou ainda mais certo de que eles também serão encontrados logo à entrada do Paraíso.