Existe ou não um duplo padrão moral na avaliação de comportamentos antiéticos por parte de políticos em Portugal, dependendo do seu quadrante político?

No plano internacional existem estudos e evidências que apontam para a existência de um “duplo padrão” (double standard) na avaliação moral de políticos por parte de eleitores ou comunidades, dependendo da orientação ideológica (esquerda ou direita) tanto dos políticos quanto dos avaliadores.

Genericamente, podemos afirmar que as pessoas tendem a julgar comportamentos imorais de forma mais branda quando cometidos por políticos do seu próprio grupo ideológico.

No estudo “Partisan Bias in Political Perceptions” (Bartels, 2002) o autor mostrou como os eleitores avaliavam o mesmo comportamento de forma diferente dependendo do partido do político envolvido.

Já Frimer, Skitka e Motyl (2017) no artigo “Liberals and conservatives are similarly motivated to avoid ideological dissimilarity” mostraram que ambos os lados do espectro político exibem viés moral seletivo, julgando de forma mais dura os adversários políticos.

Outro estudo de Brandt et al. (2014) encontrou que tanto conservadores quanto liberais têm “preconceitos morais” contra quem ameaça as suas visões de mundo.

Um estudo de Tappin & McKay (2019) chamado “Moral Polarization and Outgroup Hostility” desenvolveu experiências nos EUA para mostrar que os eleitores perdoam escândalos ou comportamentos antiéticos quando cometidos por políticos de sua ideologia, mas são mais severos quando o comportamento é do “outgroup” (ex: esquerda julgando a direita e vice-versa).

Os meios de comunicação social também reforçam estes padrões. Por exemplo, um estudo do Pew Research Center demonstrou que liberais e conservadores consomem informação oriunda de meios de comunicação social diferentes, o que contribui para avaliações morais assimétricas.

Tal fortalece a chamada “assimetria moral percebida”, em que cada grupo acredita que o outro é mais imoral ou hipócrita.

Portanto, podemos dizer que há um duplo padrão moral evidente quando se avaliam políticos da esquerda e da direita e que tal ocorre em ambos os lados do espectro político. Este fenómeno é impulsionado por fatores como identificação partidária, viés de confirmação, tribalismo político e racionalização motivada.

Há estudos que apontam que os conservadores (direita) tendem a valorizar mais a lealdade ao grupo, autoridade e pureza moral, enquanto que os liberais (esquerda) priorizam mais o cuidado com o outro e a justiça (ver Jonathan Haidt – Moral Foundations Theory).

Tal tem implicações nos julgamentos morais:

Apoiantes de direita podem ser mais tolerantes com comportamentos antiéticos se acreditarem que o político está “a proteger os valores do grupo” (ex.: nação, família, tradição).

Apoiantes de esquerda tendem a julgar mais severamente comportamentos vistos como hipócritas em relação à justiça ou a igualdade.

Temos como exemplo prático Donald Trump nos EUA. Foi amplamente perdoado por apoiantes mesmo após escândalos graves. Isto foi objeto de estudo em várias pesquisas (ex: “Why voters forgive politicians’ moral transgressions”, Nyhan & Reifler, 2017). Estes estudos mostraram que os eleitores podem priorizar resultados políticos e identidade partidária mais do que a ética pessoal.

Um estudo de Ryan e colaboradores (2015) analisou como os eleitores dos EUA puniam candidatos envolvidos em escândalos e encontraram que:

Escândalos sexuais eram mais prejudiciais para políticos de esquerda.

Escândalos financeiros ou de corrupção eram mais facilmente perdoados por eleitores de direita, se o político fosse visto como “efetivo” ou “firme”.

Em países com uma cultura política mais polarizada (como nos EUA ou o Brasil), há maior tendência para a “blindagem moral” dentro do grupo.

No Brasil, por exemplo, pesquisas sobre o bolsonarismo mostraram que os apoiantes de Jair Bolsonaro relativizaram muitas vezes as declarações ou ações que, em outros contextos, seriam condenadas, por acreditarem que ele estava a “lutar contra o sistema” (Christian Lynch e Esther Solano.)

Notemos, todavia, que a esquerda também pode perdoar atitudes antiéticas se acreditar que o político representa uma “causa maior” (ex.: justiça social, igualdade).

Por exemplo, escândalos que envolveram líderes de esquerda como Lula, Cristina Kirchner ou outros também foram relativizados pelos apoiantes com argumentos de perseguição política e guerra judicial.

Em Portugal, a ética na política tem sido uma preocupação crescente entre os cidadãos, especialmente em momentos de crise institucional ou escândalos de corrupção.

Segundo o estudo “Ética e Integridade na Política”, da Fundação Francisco Manuel dos Santos (2022), os cidadãos portugueses valorizam a ética na política como um pilar fundamental da democracia. No entanto, reconhecem também que existe um divórcio entre expectativas e práticas observadas, com tolerância seletiva em relação a determinados políticos.

Tajfel e Turner (1986) demonstraram na sua Teoria da Identidade Social e Polarização Moral que a identidade de grupo influencia a perceção do outro. Quando aplicada à política, esta teoria sugere que os eleitores tenderão a proteger e justificar os comportamentos de figuras do seu “in-group” político. Tal é reforçado em contextos de baixa literacia política, onde o julgamento moral é substituído pela lealdade partidária.

De acordo com um estudo publicado na revista “Interações”, grande parte do eleitorado português demonstra dificuldades em posicionar-se na escala esquerda-direita. Tal contribui para a ambiguidade das perceções sobre o que constitui comportamento “antiético” em cada campo ideológico.

Casos mediáticos como o de José Sócrates (PS) e Duarte Lima (PSD) geraram escândalos e processos judiciais. A reação pública variou significativamente, com setores da sociedade relativizando os comportamentos ou atribuindo motivações políticas às investigações. A retórica da “perseguição judicial” foi usada tanto à esquerda quanto à direita, demonstrando que a racionalização motivada não é monopólio de um dos lados.

Na tabela abaixo procuramos sistematizar a forma como entendemos a reação pública a alguns escândalos em Portugal.

O estudo da FFMS (2022) revelou que os portugueses associam o comportamento antiético a práticas de nepotismo, tráfico de influências e falta de transparência. No entanto, o grau de censura depende do político em questão, da gravidade da infração e da visibilidade mediática. Haverão indícios de que os eleitores estão mais dispostos a tolerar falhas éticas quando acreditam que o político “produz resultados” ou representa uma causa maior.

Este estudo também demonstrou que os cidadãos portugueses valorizam significativamente a honestidade e a integridade dos políticos. No entanto, há uma perceção de que os próprios políticos são mais tolerantes com situações de risco de corrupção do que os cidadãos, criando um fosso de expectativas. Esta perceção contribui para o crescimento da desconfiança e para a emergência de julgamentos morais seletivos com base na eficácia percebida ou afinidade ideológica.

A tabela abaixo procura sistematizar de que forma entendemos a avaliação pela esquerda e pela direita dos diferentes valores éticos que podem estar em jogo nos escândalos políticos.

A própria confiança nas instituições políticas em Portugal é baixa (Eurobarómetro, 2021) e isso contribui para a perceção de que “todos os políticos são corruptos” — uma generalização que reforça o ceticismo e pode levar à apatia moral seletiva. Aliás, certos partidos portugueses exploram, na sua praxis propagandística, esta generalização, tentando destacar-se de todos os outros como farol da moralidade e da integridade (embora a realidade não acompanhe esta construção identitária).

Há estudos exploratórios a indicarem que muitos eleitores, mesmo reconhecendo a gravidade de certas condutas, demonstram maior tolerância quando o político representa valores ou causas com os quais se identificam. Esta relativização é especialmente evidente quando o político é percebido como “eficaz” ou “pragmático”, mesmo que isso implique o incumprimento de normas éticas.

Durante as eleições legislativas de 2024 o MediaLab do ISCTE identificou tentativas de manipulação do debate político através de anúncios anónimos nas redes sociais que acusavam partidos de corrupção. Estes anúncios, de origem desconhecida, alcançaram milhares de eleitores e influenciaram o ambiente eleitoral. Além disso, o discurso político nas redes sociais tem sido dominado por uma retórica populista, com ênfase na dicotomia povo vs. elite, discurso antissistema e ataques diretos a figuras políticas. Por exemplo, a análise do discurso de André Ventura (Chega) durante as eleições presidenciais de 2021 revelou padrões de nacionalismo e autoritarismo associados à retórica populista, explorando temas como imigração e corrupção de forma emocional e polarizadora.

O nosso contexto português oferece uma base fértil para o estudo do duplo padrão moral, sobretudo em função da desconfiança generalizada nas instituições, da baixa literacia política e da dificuldade de posicionamento ideológico. A falta de clareza sobre o que é “esquerda” ou “direita” entre os eleitores comuns dilui as fronteiras morais e contribui para uma tolerância seletiva. A imprensa e as redes sociais desempenham um papel central na formação dessas perceções, amplificando ou minimizando escândalos conforme o enquadramento político. A retórica populista e as campanhas de desinformação online intensificam os processos de julgamento moral seletivo, tornando mais difícil a construção de um consenso ético-político nacional.

Embora não existam dados empíricos diretos que quantifiquem um duplo padrão moral estruturado entre a esquerda e a direita em Portugal, existem sinais de relativização ética condicionada por filiação partidária, fidelidade ideológica e perceções pessoais. A ausência de um debate público mais profundo sobre moralidade política e a falta de educação cívica consistente contribuem para este fenómeno. A monitorização crítica do discurso político online e o fortalecimento das instituições de integridade são passos fundamentais para promover um ambiente político mais ético e transparente.

Este é um desafio especialmente relevante para os candidatos a primeiro-ministro do próximo dia 18 de maio. Seria importante para o nosso ambiente político que a escolha fosse clara.