Existe uma distinção entre “inovação em política” e “política da inovação”.
Uma refere-se à forma como as novidades partidárias e propostas disruptivas transformam o ecossistema democrático. A outra, como as políticas públicas voltadas para a inovação têm contribuído para o desenvolvimento económico e social.
Olhando para as eleições legislativas marcadas para o próximo maio, vejamos como os partidos políticos podem articular estas duas dimensões para responder aos desafios democráticos atuais, aumentar a participação cívica e melhorar as condições de vida dos cidadãos.
A Urgência da Inovação em Contexto Democrático
As democracias contemporâneas enfrentam uma crise de legitimidade e de representação. O aumento da abstenção, o crescimento do populismo e a fragmentação partidária são sintomas de um mal-estar cívico generalizado. Portugal não é exceção: nas eleições legislativas de 2022, a abstenção ultrapassou os 45%, revelando um distanciamento preocupante entre eleitores e instituições.
É neste contexto que a inovação em política e a política da inovação ganham especial relevo. A primeira diz respeito à emergência de novas formas de representação, de partidos e lideranças que propõem alternativas aos modelos tradicionais. A segunda refere-se às políticas públicas que fomentam a inovação enquanto motor de desenvolvimento económico e coesão social. Ambas têm potencial transformador, mas também enfrentam riscos e limites.
Inovação em Política: Emergência de Partidos e Propostas Disruptivas
A inovação em política manifesta-se sobretudo na criação de novos partidos ou movimentos que rompem com as lógicas tradicionais. Em França, Emmanuel Macron fundou o La République En Marche em 2016, posicionando-se ao centro e prometendo uma nova forma de fazer política. Nas legislativas seguintes, o movimento venceu com maioria absoluta. Em Itália, o Movimento 5 Stelle surgiu como força antiestablishment, explorando as redes sociais como canal principal de mobilização.
Na Península Ibérica, surgiram iniciativas como Ciudadanos e Podemos em Espanha e, em Portugal, o Partido Livre, a Iniciativa Liberal, o PAN e o CHEGA. Estas formações captaram segmentos do eleitorado cansado da bipolarização PS/PSD, e apresentaram propostas consideradas disruptivas em matérias como economia, direitos civis e ambiente.
O impacto inicial destes movimentos foi significativo. O eleitorado respondeu com entusiasmo, especialmente os mais jovens e os indecisos. No entanto, o desafio da continuidade revelou-se complexo: a institucionalização exigiu compromissos, moderação e, por vezes, perda da identidade original. O Podemos, por exemplo, após integrar o governo espanhol, viu a sua base eleitoral encolher.
A Evolução da Inovação Partidária: Da Margem ao Mainstream
A história recente mostra que os partidos inovadores que se tornam relevantes no sistema político enfrentam o paradoxo da institucionalização: para influenciar, é necessário fazer parte do sistema; mas ao integrar-se, corre-se o risco de perder a autenticidade que mobilizou os primeiros apoiantes.
O caso de La République En Marche é ilustrativo. Com uma agenda reformista e pró-europeia, o partido conquistou o centro político francês. Contudo, o exercício do poder expôs as dificuldades de gestão de expectativas e a resistência do aparelho estatal. Resultado: desgaste acelerado e perda de popularidade.
Este fenómeno repete-se noutros contextos: partidos emergentes oscilam entre manter a pureza ideológica ou adaptar-se para sobreviver no mainstream. A evolução política da Iniciativa Liberal ou do CHEGA em Portugal, que passaram de força programática para força parlamentar com maior exposição mediática, levantaram o mesmo dilema.
Política da Inovação: Políticas Públicas para o Desenvolvimento Económico e Social
Enquanto a inovação em política lida com formas de representação, a política da inovação refere-se à promoção de políticas públicas que fomentem a criação de valor, conhecimento e soluções para desafios sociais.
Nos países da OCDE, a inovação tornou-se central nas estratégias de crescimento sustentável. A Finlândia criou a TEKES (atualmente Business Finland), uma agência dedicada à inovação e I&D. Entre 2010 e 2020, mais de 60% das empresas finlandesas que receberam apoio lançaram novos produtos ou serviços.
Na Estónia, a digitalização do Estado transformou radicalmente a administração pública. O sistema de e-Government permite desde 2005 votar, assinar contratos, aceder a serviços de saúde e até abrir empresas online. Segundo o World Bank (2022), a Estónia poupou o equivalente a 2% do PIB por ano em custos administrativos.
A Coreia do Sul, com forte investimento estatal em I&D desde os anos 1990, tornou-se uma potência tecnológica global. O apoio a conglomerados como a Samsung e a LG foi estratégico e orientado por políticas industriais claras.
No Canadá, a Estratégia Nacional de Inteligência Artificial, lançada em 2017 e coordenada pelo CIFAR, tornou o país líder em investigação em IA, com polos em Montreal, Toronto e Edmonton. O investimento público gerou retorno científico, empresarial e reputação internacional.
Obstáculos à Política de Inovação
Implementar políticas de inovação é um processo complexo. Enfrenta resistência institucional, falta de consenso político e uma tendência dos ciclos eleitorais curtos, que favorecem medidas de impacto imediato em detrimento de estratégias de longo prazo.
Além disso, a inovação gera desconforto: desafia modelos de negócio, reestrutura setores e obriga à reconversão de competências. Políticas bem-sucedidas requerem liderança política persistente, escuta ativa da sociedade e capacidade de mobilização interinstitucional.
O Caso de Portugal: Limites e Potencialidades
Portugal tem feito progressos na política da inovação, sobretudo com a aplicação de fundos europeus. O Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) contempla investimentos em transição digital, reindustrialização verde e capacitação científica. Programas como o “Indústria 4.0”, “Portugal INCoDe.2030” e o “Plano de Ação para a Transição Digital” marcam essa orientação.
Contudo, os desafios persistem: dispersão de políticas, fraca articulação entre academia e indústria e burocracia excessiva. A nível político, poucas forças têm uma proposta consistente e transversal de política de inovação. O foco muitas vezes está em medidas setoriais e não em estratégias integradas.
Eleições Legislativas 2025: Oportunidade para Recolocar a Inovação no Centro da Agenda
As eleições legislativas marcadas para maio de 2025 representam uma oportunidade para recentrar a discussão política. A inovação deve ser tratada como um tema transversal, presente nas áreas da saúde, educação, ambiente, economia e administração pública.
É também uma oportunidade para os partidos testarem formas novas de comunicação, como debates participativos online, plataformas de deliberação cidadã e campanhas baseadas em transparência de dados e compromissos verificáveis.
Combater a abstenção exige que os eleitores sintam que os partidos não prometem apenas, mas que também escutam e inovam no relacionamento democrático. A juventude, altamente conectada e crítica, poderá ser mobilizada com propostas concretas de futuro — desde políticas de ciência até modelos de empreendedorismo social.
Um Apelo à Inovação Estruturada e Participada
Para que os partidos políticos tenham sucesso eleitoral e combatam a abstenção, devem cultivar a inovação em dois sentidos complementares: por um lado, inovar na sua forma de fazer política, nas propostas, nos rostos e na relação com os cidadãos; por outro, apresentar políticas sérias, sustentadas e viáveis para promover a inovação tecnológica, económica e social.
A história mostra que a inovação política tem impacto quando vem acompanhada de propostas realizáveis. E que a política de inovação é bem-sucedida quando é acompanhada de visão, continuidade e envolvimento cidadão.
Inovação em política e política da inovação devem caminhar lado a lado. Numa era em que o descrédito e a apatia ameaçam as democracias, inovar é mais do que uma escolha: é uma necessidade democrática vital.