Há evidências que sugerem que os partidos políticos enfrentam dificuldades crescentes em debater e comunicar os princípios fundamentais de sua ideologia, optando frequentemente por dispersar-se em múltiplas propostas políticas com fios condutores pouco percetíveis para os eleitores. Este fenómeno pode ser atribuído a vários fatores, incluindo a tentativa de atrair uma base eleitoral mais ampla e a resposta a questões emergentes que podem não se alinhar perfeitamente com a ideologia tradicional do partido. ​

Esta falta de coerência ideológica pode afetar negativamente o desempenho eleitoral dos partidos mainstream. Estudos indicam que, quando os partidos se desviam das suas posições ideológicas tradicionais ou adotam posturas mais moderadas, podem perder apoio entre os seus eleitores habituais sem necessariamente ganhar novos adeptos. Por exemplo, uma análise de Adam Bonica, cientista político de Stanford, sugere que a moderação excessiva dos candidatos democratas nos EUA não proporciona vantagens eleitorais significativas e pode, de facto, reduzir a participação dos eleitores da sua base tradicional. ​

Para construir programas políticos alinhados com os seus valores e de fácil perceção pelo eleitorado, os partidos podem considerar algumas medidas:

Clareza na comunicação: definir e articular claramente os princípios fundamentais e as posições políticas do partido, evitando mensagens ambíguas ou contraditórias. ​
Envolvimento com a comunidade: estabelecer canais de comunicação eficazes com os eleitores para compreender as suas preocupações e prioridades, garantindo que as propostas políticas refletem genuinamente as necessidades da população. ​
Consistência ideológica: manter uma coerência entre as políticas propostas e a ideologia central do partido, reforçando a identidade partidária e a confiança dos eleitores. ​
Educação política: investir em iniciativas que promovam a literacia política, ajudando os eleitores a compreenderem melhor as diferenças ideológicas e programáticas entre os partidos. ​
A dificuldade em comunicar princípios e valores interfere, sem dúvida, na capacidade de construir uma visão clara da sociedade que cada partido deseja. Quando os eleitores não conseguem identificar ou compreender os valores fundamentais de um partido, torna-se mais difícil para o partido mobilizar apoio e diferenciar-se dos concorrentes. ​

No contexto contemporâneo, embora a política seja frequentemente dominada por debates sobre medidas específicas e questões imediatas, os princípios fundadores dos partidos continuam a ser relevantes. Eles servem como a base sobre a qual as políticas são desenvolvidas e oferecem uma bússola moral e ideológica que orienta as decisões e propostas do partido. Negligenciar esses princípios em favor de uma abordagem puramente pragmática pode levar à perda de identidade partidária e à alienação dos eleitores que se identificam com esses valores fundamentais. ​

A comunicação eficaz dos princípios e valores fundamentais é essencial para a coerência ideológica, o desempenho eleitoral e a construção de uma visão clara e atrativa da sociedade que o partido aspira a promover.

Este artigo procura trazer a debate a necessidade de uma reflexão apriorística e primária sobre algo que é intransponível às sociedades e que impacta toda e qualquer política, seja ambiental, de saúde, de justiça, educativa ou de segurança. O corpo.

Hoje, vivemos uma era de avanços extraordinários, em que a tecnologia molda a forma como nos comunicamos, trabalhamos, nos deslocamos e até mesmo… amamos. Mas, neste cenário de inovação constante, estamos a deixar para trás algo essencial: o nosso corpo. Não o corpo idealizado das redes sociais, nem o corpo fragmentado da ciência, mas o corpo vivido, sentido, experimentado. A nossa presença física no mundo tem sido, cada vez mais, relegada a segundo plano.

Esta secundarização do corpo humano não é apenas uma questão filosófica ou estética; é uma questão urgente de saúde pública, de educação, de relações humanas e de sentido existencial. Quando esquecemos o corpo, esquecemos também parte da nossa humanidade. Importa analisarmos como esta marginalização do corpo se instalou na sociedade atual, que efeitos tem gerado e o que podemos fazer para recuperar a sua centralidade.

Historicamente, o corpo humano sempre ocupou um lugar ambivalente. Desde a Antiguidade, temos registos da tensão entre corpo e alma, matéria e espírito, instinto e razão. A tradição judaico-cristã, por exemplo, enfatizou frequentemente o domínio da alma sobre o corpo, associando este último à tentação e ao pecado (Le Breton, 2007). Com o advento do Iluminismo e do racionalismo moderno, o corpo passou a ser compreendido como uma máquina — um objeto a ser analisado, medido, aperfeiçoado.

No século XX, com o crescimento da urbanização, da medicina moderna e da produção em massa, o corpo foi-se tornando, aos poucos, um instrumento de performance e produtividade. O corpo útil, o corpo belo, o corpo que “funciona” dentro da lógica do sistema. Com a ascensão da cultura digital e do trabalho remoto, muitos de nós passámos a viver mais intensamente no plano virtual do que no físico, contribuindo para um afastamento crescente da experiência corporal direta.

David Le Breton (2007), sociólogo francês que tem dedicado boa parte da sua obra ao tema do corpo, afirma que vivemos uma “era da invisibilidade do corpo”. Não o corpo estético — esse está em todo lugar —, mas o corpo como sujeito, como lugar da presença e da existência. Esse corpo, diz ele, está a ser silenciosamente apagado.

A promessa inicial da tecnologia era libertadora: ampliar capacidades, vencer limites, democratizar acessos. No entanto, o que deveria ser uma extensão do corpo tornou-se, em muitos aspetos, a sua substituição. O teletrabalho, os encontros virtuais, a gamificação do lazer e até as apps de meditação colocam-nos num paradoxo: vivemos cada vez mais no plano mental e digital, e menos na experiência física e sensorial do corpo.

Um estudo realizado pela Universidade de Stanford (2021) com 2.000 voluntários em cinco países concluiu que 67% dos participantes sentiam maior cansaço, irritabilidade e sensação de desconexão após longos períodos em videoconferências. A chamada “Zoom fatigue” é, na verdade, um sintoma do corpo que pede passagem, mas não encontra espaço na rotina mediada por ecrãs.

Além disso, a popularização dos wearables, aplicativos de fitness e rastreadores de saúde, apesar de positivos em termos de autocuidado, reforça uma objetificação do corpo: ele é visto como dado, métrica, performance. Deixamos de escutar o corpo para apenas monitorizá-lo. Como alerta Sherry Turkle (2015), estamos cada vez mais “sozinhos juntos”, hiperconectados digitalmente e, ao mesmo tempo, desconectados fisicamente e emocionalmente de nós mesmos.

A cultura de consumo também desempenha um papel central na secundarização do corpo. Nas redes sociais, o corpo tornou-se montra, avatar, commodity. Há um imperativo de exposição, um corpo fabricado, moldado para likes e validações, mas que muitas vezes esconde vulnerabilidade, dor, doença e diferença.

Obviamente que esta dinâmica tem uma relação de influência recíproca com o mercado de produtos destinados à melhoria da performance física, psíquica e estética, que tem registado um crescimento significativo nos últimos anos.

Por exemplo, o segmento de produtos de beleza e cuidados pessoais, que inclui cosméticos, produtos para cuidados com a pele, cabelo e higiene pessoal foi avaliado, para 2025, em aproximadamente 581,6 mil milhões de dólares, com projeções de crescimento para 977,3 mil milhões de dólares até 2032, refletindo uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 7,7% durante este período.

O segmento de suplementos de beleza, que engloba as vitaminas e suplementos alimentares formulados para melhorar a aparência física, foi avaliado em 2,9 mil milhões de dólares, com uma projeção de crescimento para 7,5 mil milhões de dólares até 2030, correspondendo a um CAGR de 14,3%. ​

As tecnologias de vestir (Wearable Technology), como smartwatches e monitores de fitness, que monitorizam atividades físicas e parâmetros de saúde, foi estimado, em 2024, em 84,2 mil milhões de dólares, com uma previsão de crescimento a um CAGR de 13,6% de 2025 a 2030. ​

Já as tecnologias de melhoria humana, que incluem dispositivos e tecnologias destinadas a aprimorar capacidades humanas, como exoesqueletos e interfaces cérebro-computador, tiveram o seu mercado avaliado, em 2024, em 18,46 mil milhões de dólares, com projeções de 35 mil milhões de dólares até 2035, a um CAGR de 5,99%. ​

O corpo fora do padrão — seja por idade, deficiência, peso ou cor — é silenciado ou invisibilizado. A diversidade corporal é muitas vezes tolerada apenas enquanto marketing. Num estudo da Universidade de Leeds (2020), com 1.200 jovens britânicos, 74% afirmaram sentir pressão estética constante nas redes sociais, e 42% relataram que evitam atividades sociais por vergonha do próprio corpo.

O corpo, nesta lógica, deixa de ser lugar de experiência e passa a ser uma imagem a ser gerida. Como consequência, vemos o aumento dos transtornos alimentares, da ansiedade corporal e das fobias sociais, principalmente entre adolescentes.

As representações sociais do corpo impactam diretamente os papéis atribuídos a homens e mulheres na sociedade. A hipersexualização do corpo feminino, por exemplo, ainda é um entrave para a equidade de género. Ao mesmo tempo, o corpo masculino é, muitas vezes, pressionado à performance, à força e ao silenciamento das emoções.

Na esfera familiar, estas pressões corporais refletem-se nos modos de cuidado, de afeto e de identidade parental. Um estudo conduzido pela Universidade de Lisboa (2019), com 800 pais e mães, mostrou que 63% das mães sentiam-se culpadas por não “recuperarem o corpo” após a maternidade, enquanto 49% dos pais relataram dificuldade em expressar afeto físico aos filhos por receio de parecerem frágeis.

A estrutura familiar contemporânea exige novas formas de presença corporal: o toque, o abraço, o brincar, o cuidar físico. A secundarização do corpo ameaça essa dimensão, transformando pais em “provedores emocionais à distância”, presentes mais pela voz ou ecrã do que pela pele.

A distinção entre “corpo que se é” e “corpo que se tem” é um ponto central na filosofia contemporânea. Maurice Merleau-Ponty (1945) já apontava para o corpo como sujeito da experiência, não mero objeto. No entanto, a lógica atual de consumo e autoimagem reforça a ideia de que o corpo é uma posse, uma propriedade que pode (e deve) ser modificada, moldada, melhorada.

Esta lógica tem consequências profundas: abre-se espaço para uma indústria bilionária de intervenções estéticas, para a medicalização da aparência e para a ansiedade da comparação. O “corpo que se tem” nunca é suficiente. Isto compromete a construção da identidade e da autoaceitação.

As crianças, mais do que nunca, estão imersas num mundo hiperestimulado digitalmente e fisicamente restrito. A pandemia da COVID-19 agravou esse cenário, com o encerramento das escolas e a limitação do brincar ao ar livre. Um relatório da UNICEF (2021) alerta que o tempo médio de atividade física entre crianças dos 6 aos 12 anos caiu 47% entre 2019 e 2021.

O desenvolvimento psicomotor, a regulação emocional e a formação da autoimagem corporal dependem diretamente da experiência física e sensorial. Crianças que crescem desconectadas do próprio corpo podem desenvolver dificuldades emocionais, sociais e cognitivas.

Diversos estudos têm investigado os impactos da secundarização do corpo. Um projeto da Universidade de Tóquio (2022) com 1.500 estudantes mostrou que alunos que praticam atividades físicas regulares têm maior autoestima e desempenho académico. Na Suécia, um estudo longitudinal com 2.000 adolescentes indicou que o excesso de exposição a redes sociais está correlacionado com baixa imagem corporal e aumento de sintomas depressivos (Karlsson et al., 2021).

Estes dados evidenciam a importância de estratégias educacionais e políticas públicas que valorizem o corpo como experiência e presença.

Para reverter esta tendência de apagamento, é necessário um esforço coletivo. Precisamos recuperar o corpo na educação — com mais espaço para o movimento, o toque, a expressão artística e sensorial. No campo da saúde, valorizar as terapias corporais, práticas integrativas e o cuidado empático. Na cultura, promover narrativas que representem corpos reais, diversos, humanos.

O corpo precisa de voltar a ser reconhecido não apenas como meio, mas como fim: lugar de experiência, linguagem de afeto, território de existência.

A secundarização do corpo humano é um fenómeno silencioso, mas de impacto profundo. Ela fragmenta a nossa presença no mundo, enfraquece laços, limita o cuidado e empobrece a experiência humana. Precisamos, urgentemente, de resgatar o corpo como parte fundamental do que somos — e não apenas como algo que temos ou mostramos.

Dito isto, lendo os programas políticos dos partidos que se apresentam a eleições no próximo dia 18 de maio, de que forma entende, cada um deles, a centralidade do nosso corpo?

Como escreveu Le Breton (2014), “é preciso reaprender a estar no corpo como quem habita uma casa”. Que este artigo possa contribuir para esse despertar: o corpo não é secundário — é essencial. Saibamos pensar sobre ele e construir políticas que o respeitem na sua essência.