Os desafios dos media são enormes, são super atuais, são de fácil exposição e difícil resolução, são editoriais e de gestão, são preocupantes mas ao mesmo tempo fascinantes. Não há soluções mágicas mas julgo que há premissas essenciais, para começo de conversa: as sociedades abertas e as democracias liberais requerem medias fortes e independentes; a autonomia editorial e a diversidade nas políticas de conteúdos andam de braços dados com a sustentabilidade económica; os cidadãos conseguem valer sempre as suas escolhas individuais sobre as opções ditadas pelos políticos.

E depois há o ritmo de mudança no setor, no mundo inteiro e em Portugal, que é alucinante e só vai acelerar, no sentido da disrupção: primazia do digital, modelos de negócio rompedores, entrada incessante de novos agentes, aumento do leque de opções e novos hábitos de consumo. Por outro lado, vivemos num ecossistema de media tão global e no qual as redes sociais já desempenham um papel tão vasto que as soluções puramente nacionais e dirigidas aos operadores tradicionais têm necessariamente um impacto limitado. É neste contexto volátil que devem ser equacionadas as possibilidades de incentivo ao consumo de media e fomento à comunicação social, esse meio que é de facto um dos garantes da plena democracia.

Eis o desafio setorial, que deve convocar-nos a todos, para que continuemos a viver num espaço comum que seja aberto, multifacetado e saudável. Parece bastante óbvio que a valorização do jornalismo e da indústria dos conteúdos deve ocorrer através de soluções que não distorçam o ambiente natural e livre dos media. Nada disto é fácil, isento de riscos e muito menos definitivo. Mas seria incompreensível que não fosse experimentado.

E que contributo pode a RTP dar, enquanto operador público? Julgo que o ponto de partida deve ser o reconhecimento de que sua existência não é um dado absoluto, não é um dogma indiscutível, ou seja, a RTP só se justifica se de facto acrescentar ao panorama audiovisual, se tiver um carácter específico e um tom próprio. E isto deve acontecer em várias dimensões.

Em primeiro lugar, a RTP tem de continuar a apostar em conteúdos que marquem a diferença, como os documentários, onde somos responsáveis por 90% da produção nacional; e as séries de ficção, uma tendência internacional e que em Portugal só o canal público realiza com regularidade; e os telefilmes, um formato pouco usual; e os programas de divulgação científica, transmitidos diariamente na rádio. E ainda fomentando a produção independente e apoiando o cinema nacional, algo que temos vindo a fazer de forma crescente e para além das obrigações estatutárias. É toda esta diversidade e este papel de curadoria que contribuem para uma política de conteúdos relevante.

Em segundo lugar, a RTP deve continuar a jogar cada vez mais no universo multiplataforma, aproximando a televisão e a rádio do digital, valorizando o streaming e a oferta não linear. A RTP Play é provavelmente a melhor aplicação digital do mercado neste momento e temos de prosseguir na linha da frente nestes domínios. O tempo da separação dos meios como se fossem silos terminou e há que explorar graus adicionais de convergência entre tv, rádio e online.

Em terceiro lugar, a RTP deve manter bem presente a sua tripla dimensão: nacional, regional e internacional. Por isso são tão relevantes os centros regionais no Norte, Açores e Madeira, a cobertura do território como um todo, sem deixar ninguém para trás. Fatores específicos do serviço público – e raros até comparando a nível europeu – são a RTP África, esse instrumento poderoso de cooperação e aproximação aos países africanos de língua portuguesa e a RTP Internacional, com a sua capacidade para chegar às comunidades emigrantes.

Em quarto lugar, a RTP deve prosseguir o seu compromisso com divulgação da cultura, das artes e do património. Temos assumido nos últimos anos com particular empenho este propósito de promoção dos talentos nacionais, realizando inúmeras associações com museus, fundações, autarquias, fomentando as indústrias criativas. Esta postura é uma marca nossa incontornável.

Em quinto lugar, a RTP deve apostar em novas áreas e multiplicar a sua esfera de atuação: veja-se o lançamento dos arquivos históricos online, que teve um impacto enorme; e a publicação recorrente de livros, em boa hora retomada; e a realização de festivais de música portuguesa; e a entrada na área dos Esports, ou gaming, indo ao encontro das novas gerações. Este espírito empreendedor, esta energia de start-up são decisivos para projetar uma RTP vibrante e atualizada.

Em sexto lugar, queremos ser uma instituição sustentável e temos feito muito por isso: vamos para o quinto ano consecutivo de resultados económicos positivos e total controlo da dívida, demonstrando que a RTP deixou de ser uma empresa problemática, que pode e deve viver com os recursos que lhe são afetos. Aliás, o principal tema de gestão da RTP não se prende com o seu financiamento, hoje estável, mas sim em assegurar que a empresa, mesmo enquadrada no setor empresarial do Estado, dispõe da agilidade, flexibilidade e mobilidade que permitam novos patamares de produtividade e desempenho.

Em suma, defendemos que o serviço público faz falta, e em particular no momento atual, pois medias fortes, independentes, com qualidade e diversidade são a marca das sociedades civilizadas. Por outro lado, a legitimidade da RTP assenta não num direito absoluto mas sim numa estratégia de diferenciação, apostando naquilo que o mercado não faz, divulgando a cultura e os talentos nacionais, e afirmando a presença portuguesa no mundo. E para ser forte num contexto de acelerada mudança, a RTP deve funcionar cada vez mais num ambiente de convergência para as plataformas digitais e deve dispor de políticas de gestão de talento que incentivem o mérito e os resultados.

Serviço público sim, mas numa lógica de sustentabilidade, para fazer aquilo que vale a pena, para apostar na diferença e para fomentar a inovação no audiovisual.