Imagine que as eleições funcionavam como uma boa e velha reunião de condomínio. Daquelas onde ninguém está interessado em discursos inspiradores, mas sim em saber quem andou a gastar o fundo de reserva em vasos de cerâmica ou quem contratou a empresa de limpeza mais cara da cidade sem perguntar a ninguém.

Parece absurdo? Talvez. Mas também é absurdo o modo como escolhemos, eleição após eleição, quem vai gerir milhões de euros, o nosso dinheiro, com menos cuidado do que aquele com que decidimos quem trata da embalagem das lâmpadas no prédio.

Calma, ninguém está a dizer que o Estado é um condomínio. O Estado tem funções muito mais complexas: justiça, saúde, segurança, educação. Já o condomínio, no máximo, tem um regulamento interno e um vizinho chato que quer proibir varandas com estendais. São mundos diferentes. Mas há um ponto onde tudo se cruza: dinheiro que é de todos, pago por todos, e gerido por alguns em nome de todos.

Numa reunião de condomínio, ninguém quer saber se o administrador é simpático, se tem projetos ambiciosos ou se fala bem na televisão. Querem saber quanto é que a prestação vai aumentar, por culpa de quê, e quem aprovou aquela obra que ficou o dobro do previsto. É um modelo quase liberal em estado puro: cada euro do orçamento dói no bolso.

Há cautela. Há desconfiança. Há perguntas. E, sobretudo, há noção de que o dinheiro é nosso.

Agora mude-se o cenário. Em vez de trinta vizinhos, temos milhares ou milhões de eleitores. Em vez do prédio, temos o município, o país. E de repente, o dinheiro deixa de ter dono. Passa a ser “dinheiro público”, o que quer que isso signifique. Ninguém pergunta de onde vem, para onde vai ou quanto custa. O que importa é que pareça útil, bonito, e que permita esgrimir a palavra favorita dos gastadores: “estratégico”.

No condomínio, a proposta de colocar uma escultura de 20 mil euros no átrio morre antes de chegar à ata. No Estado, aprova-se com pompa, fotografia, placa comemorativa e talvez um discurso sobre a identidade do território. A diferença? No prédio, sabemos que somos nós a pagar. No Estado, fingimos que não.

Isto não é um argumento por zero gastos. Ninguém quer viver num prédio com paredes a cair ou sem elevador. E ninguém defende um Estado sem serviços. A questão é outra: a consciência do custo. A noção de que cada decisão tem impacto. Que os recursos são finitos. Que quando se gasta em A, não se gasta em B, ou então, todos pagam mais.

O curioso é que, no condomínio, todos percebem isso sem precisarem de aulas de economia. “Mais despesas = mais prestação” é uma equação que ninguém contesta. Já no Estado, esse raciocínio básico dissolve-se. E vota-se como quem escolhe qual novela vai ver no fim do noticiário das oito. O que tiver mais coisas giras ganha, mesmo que o orçamento rebente.

E depois há a figura clássica: o administrador generoso. Aquele que quer instalar uma fonte luminosa no hall, contratar um porteiro 24 horas e plantar buganvílias no telhado, porque “valoriza o imóvel”. No prédio, não dura seis meses. No Estado, é reeleito. Porque distribui. Dá. Investe. Numa assembleia de condóminos, esse perfil seria despachado com uma frase curta: “Muito bem, mas quem paga?”, e o silêncio seguinte tratava do resto.

No fundo, se há coisa que as reuniões de condomínio ensinam, entre gritos, cafés frios e debates sobre infiltrações, é isto: quando é o nosso dinheiro, levamos as contas a sério. E tomamos decisões com os pés bem assentes no chão.

Se aplicássemos um bocadinho dessa atitude no voto democrático, talvez tivéssemos menos obras inúteis, menos promessas ocas e menos buracos orçamentais.

Por isso, da próxima vez que entrar na cabine de voto, experimente este exercício: “Este candidato, se aparecesse na reunião do meu prédio, eu votava nele?” Se a resposta for não, talvez seja melhor repensar.

Porque viver em democracia não é muito diferente de viver em condomínio. A diferença é só esta: quando a administração corre mal… não dá para vender o apartamento e mudar de prédio.Pagamos TODOS. Por TUDO.