Já se percebeu que há quatro, no limite cinco, candidatos com possibilidade de ascenderem à Presidência da República.
E que não deixando a candidatura presidencial de ser de natureza individual, dos cinco candidatos quatro obtiveram um apoio formal declarado do seu partido de origem, mesmo que num ou noutro caso com menor unidade interna, que estarão a dar apoio no terreno.
Também já se percebeu que nenhum desses candidatos consegue, junto da maioria dos cidadãos, obter, à partida, uma preferência clara para se distanciar significativamente dos outros.
Ou seja, nenhum dos candidatos tem conseguido entusiasmar e convencer um número suficiente de cidadãos de que tem o perfil e as condições para desempenhar cabalmente o cargo.
Não é assim expectável que um candidato venha a vencer o cargo presidencial na primeira volta ou mesmo que nesta volta se possa destacar com uma diferença superior a 10% face ao segundo apurado, e sem uma taxa de rejeição excessiva.
E assim se justifica alguma apreensão dos cidadãos quanto a virmos a ter um PR que esteja à altura dos desafios futuros, sem que se deva excluir a hipótese de o novo PR, posteriormente, poder vir a surpreender pela positiva.
A importância da eleição do PR
Certo é que, apesar de tudo, o resultado de uma eleição presidencial é importante para o país, não sendo assim indiferente quem acabará por ser eleito, até porque a probabilidade de perdurar no cargo por dez anos é elevada.
Quando elencamos os cargos institucionais que podem ter mais responsabilidades e impacto na evolução do país concluímos que os de Presidente da República e de Primeiro-Ministro estarão entre os de topo.
De notar que tivemos, pós Constituição, cinco PRs, acumulando cada um 10 anos na função, e seis PMs que cumpriram um período de pelo menos 4 anos, sendo que dois deles foram também PRs (no total nove principais responsáveis).
O que não quer dizer que os ocupantes destes cargos por si só determinem o futuro da nossa sociedade.
Muito longe disso. Este será maioritariamente determinado por todo o legado da nossa história, pelas ações dos próprios cidadãos em sociedade, e por múltiplas outras variáveis nacionais e internacionais.
E por isso o mínimo a esperar é que quem ocupe esses cargos não estrague o que poderá ser uma evolução virtuosa e natural do país.
E o máximo a esperar será que cada detentor desses cargos, pela sua influência e desempenho, contribua para aumentar, com alguma expressão, a probabilidade de o país vir a ter uma evolução o mais virtuosa e rápida possível e, fundamentalmente, de forma sustentável.
Não deixando a grande maioria dos que desempenharam até hoje os cargos referidos de merecer o nosso respeito, e de terem dado contributos relevantes, haverá uma perceção geral dos portugueses de que, no seu conjunto, terão ficado demasiado aquém do máximo referido, sem prejuízo de poderem existir algumas exceções e em particular durante alguns períodos.
E será também por isso que o país estará hoje bastante mais longe do que poderia estar relativamente à qualidade e vida boa disponibilizada aos cidadãos, ao contrário das loas e perspetivas otimistas que vão sendo proclamadas por quem vai estando no governo, incluindo na atualidade.
De facto o país real e atual apresenta fragilidades e riscos muito assinaláveis, estruturais e graves para o nosso futuro, desde os relacionados com a identidade nacional, insuficiência das instituições/administrações (desde logo da justiça) e envelhecimento da população até ao modelo social, serviços públicos e respetivo financiamento, novas desigualdades, empobrecimento da classe média, habitação, passando pela incapacidade de ser competitivo e criar riqueza e emprego de qualidade, ao mesmo tempo que se obriga os cidadãos a suportar um esforço fiscal abusivo.
E continua demasiado dependente de fundos externos e também de certas atividades de menor valor acrescentado.
Adicionalmente o país começa a ter de enfrentar alterações várias e profundas na ordem mundial, com sérias implicações, políticas, económicas e na sua segurança, e que poderão resultar em crises internacionais agudas, relativamente às quais o país terá de se posicionar.
Com todo este cenário e não estando o país, desde há muito, numa situação estrutural saudável, nem estando consolidada uma sustentável tendência de mudança, o perfil e papel do PR torna-se mais relevante.
Os parâmetros para a avaliação dos candidatos
Terá sempre um grande peso na escolha dos eleitores uma componente emocional e intuitiva pesando ainda, se bem que menos do que no passado, a existência de uma maior ou menor identificação ideológica com cada candidato (nomeadamente quanto á tradicional divisão esquerda/direita), o que também poderá levar alguns a vir a justificar um voto útil.
A decisão de cada eleitor será também influenciada pela sua própria situação concreta e pelos seus interesses particulares, decorrentes da sua idade, ocupação, empregador, até aos presentes privilégios e vantagens que usufrui ou desfavorecimentos que sente.
E principalmente no seu julgamento o eleitor não deixará, de forma mais ou menos explicita, de comparar os perfis/características dos candidatos com determinados parâmetros relacionados com os requisitos que considera que o próximo PR deverá possuir.
Listamos de seguida sete dos parâmetros que se encontrarão entre aqueles que os eleitores considerarão mais relevantes:
- Nível de responsabilidades e de afastamento face ao regime e sistema político-partidário até ao momento vigente, incluindo excessiva ligação aos partidos do mesmo constitutivos, no qual, na sua aplicação prática, uma grande parte dos Portugueses já não se revê totalmente.
- Nível de independência face a interesses corporativos e empresariais específicos e de afastamento das redes e teias de interesses e de promiscuidades prevalecentes ou face a apoios e patrocinadores pouco virtuosos.
- Nível de primazia dado ao interesse e serviço público, em detrimento de interesses, agenda e carreira pessoais.
- Apresentação clara, convicta e consistente, de uma visão geral e princípios base para o país, e não necessariamente do detalhe das políticas, relativamente às principais questões estruturais, conforme atrás referidas e que vão desde a identidade nacional e ao papel do estado até ao posicionamento de Portugal na Europa e no mundo.
- Nível de experiência demonstrado no passado, política, mas não só, principalmente medida pelo valor efetivamente criado para a sociedade longe dos favores privados ou do Estado e que vá para além da mera gestão; seja por contributos dados para a inovação, para a implementação dos melhores princípios ou práticas, para a concretização de projetos/tarefas com escala e complexidade, para a criação de organizações e de emprego, para a consolidação de instituições, para a dinamização da sociedade civil, etc..
- Liderança, carisma, personalidade forte, franca, direta, convicta, corajosa e assumida, que aposta na verdade e na coerência, não aprisionada ao politicamente correto; personalidade que acredita no exercício de uma presidência ativa mas focada no que é mais importante e nos interesses dos cidadãos, capaz de inspirar e de pôr as coisas “na ordem” sem atropelar a ordem democrática ou a separação de poderes.
- Maturidade, bom senso, seriedade, cultura, sentido de justiça, com nível para representar os portugueses, e para que estes se possam sentir bem representados, e sem que tal iniba a capacidade de provocar disrupções quando indispensáveis e de assumir riscos.
Utilizando estes ou outros parâmetros, atribuindo um peso relativo a cada um deles e classificando de 0 a 10 cada candidato face a cada um dos sete parâmetros, o eleitor mais analítico poderá assim chegar a um “ranking” indicativo para a sua escolha.
Pode ainda o eleitor estabelecer um nível mínimo de desempenho para um ou outro parâmetro que se não alcançado levará desde logo a desqualificar o candidato em questão.
Ou seja, um candidato poderá ter um bom desempenho em quase todos os parâmetros e ter uma boa notação final mas se for muito fraco num determinado parâmetro, abaixo do nível mínimo exigido, por exemplo no 7 (maturidade e bom senso) deixará de ser para o eleitor elegível .
De notar de que particularmente no caso do parâmetro 4 — visão geral e princípios base para o país, a avaliação feita pelo eleitor terá naturalmente em conta, para além do nível de clareza expressa pelo candidato, se o conteúdo das propostas deste se aproxima daquelas que defende.
A especificidade desta primeira volta. O candidato AV.
Nesta reflexão vale a perna mencionar as particularidades da primeira volta destas eleições presidenciais, o que justifica uma referência mais individual ao candidato André Ventura (AV), mas também sem o propósito, de o avaliar.
AV apresenta perspetivas de se revelar particularmente forte na percentagem de votação obtida na primeira volta, mas relativamente fraco na segunda (pelo maior índice de rejeição que terá).
A probabilidade significativa, se bem que não certa, de AV preencher um dos dois lugares disponíveis para a segunda volta torna obviamente nestas eleições mais complicada a luta entre os restantes para a obtenção de um lugar na final e ao mesmo tempo mais atrativa pois quem o alcançar ficará com uma muito elevada probabilidade de acabar como PR.
AV será o candidato que mais escapará a avaliações analíticas pelo seu posicionamento e estilo de atuação, o que o leva também a estar mais “imune” a críticas de menor consistência ou a “fact checks” negativos, e o mais livre para não seguir o politicamente correto.
É um candidato que de certa forma joga noutro campeonato, que terá como seu primeiro e principal objetivo deixar uma marca e um registo para futuras contendas; o que não quer dizer que se ganhar a primeira volta e com votação expressiva não venha a procurar avançar para voos mais altos.
AV atrairá na primeira volta não só os seus seguidores mais convictos (provavelmente será mesmo o candidato que terá um maior número de eleitores convictos), mas também aqueles menos convictos, e menos com ele em comunhão plena.
Alguns porque valorizarão particularmente uma ou outra das suas bandeiras, como a imigração ou a identidade nacional/nacionalidade , ou a luta contra a corrupção ou um agravamento das penas para certos crimes.
Mas outros porque pretendem agora expressar a sua grande desilusão pelo desempenho dos políticos e pelo presente status quo, e que no fundo pretendem abanar o “establishement” criado e fossilizado ao longo de anos, para choque do mesmo.
Se AV chegar à segunda volta e com uma votação expressiva, claramente acima das últimas sondagens efetuadas, será provavelmente porque para além dos eleitores convictos angariou outros menos convictos em número significativo e pelas razões aduzidas.
Em conclusão, a coisa não está fácil mas existirão sempre saídas
Estas eleições presidenciais não serão a única e última forma para, enquanto país, encontrarmos a nossa “salvação”.
Desde que a liberdade prevaleça e a sociedade não amoleça, teremos que continuar a acreditar que mais tarde ou mais cedo surgirão, na nossa sociedade, outras alternativas e oportunidades para desencadearmos as mudanças necessárias.
Mas devemos estar conscientes que pelos desafios referidos com que nos confrontamos estas eleições têm uma relevância acrescida.
A coisa não está fácil para nenhum candidato a estas eleições, pela dificuldade de se imporem e de encontrarem um lugar para uma segunda volta, mas também não está fácil para os eleitores que têm dificuldade em encontrar um candidato que lhes agrade.
Por isso muitos nesta primeira volta só irão tomar a decisão mais perto ou no próprio dia da votação. Alguns, mais do que o esperado, poderão mesmo vir a abster-se ou votar em branco.
Os cidadãos gostariam de estar mais certos das capacidades, competências e “fiabilidade” dos candidatos a PR.
Os cidadãos procurarão percecionar aqueles que serão mais independentes, que estarão menos próximos de redes mais perversas de interesses e de apoiantes mais cúmplices, que tenham a experiência que seja relevante para a função, e que poderão estar mais focados no interesse público.
Mais difícil será concluir sobre o carácter, capacidade de liderança em ambientes com complexos e com múltiplas variáveis ou quanto à necessária maturidade e bom senso dos candidatos, e quais deles saberão assumir riscos ponderados e inovar.
De facto não é evidente que se consiga encontrar um candidato que possa contribuir significativamente para projetar o País no rumo desejável e necessário, interagindo dinâmica, convicta, assertiva e construtivamente com os vários poderes vigentes, governos e instituições.
Que saiba inspirar e influenciar as mudanças necessárias pela sua e partilhada visão estratégica, princípios e valores, que não pactue com os “instalados” e privilegiados, existentes em todas as áreas, nem com abusos de posições dominantes, “desconstrutor” de mitos e tabus, desafiando a sociedade (em particular a sociedade civil) para participar e avançar para novos caminhos.
As cartas estão praticamente todas lançadas, sendo que revelações ou desistências de última hora talvez possam determinar outras escolhas.
Neste artigo não se pretendeu dar uma indicação de voto apenas contributos para uma escolha com mais critério.
Agora os cidadãos que se pronunciem.
Em qualquer caso a luta por um Portugal melhor continuará.