1 2025 – Umas eleições com resultados estratégicos e importantes
À hora a que termino este artigo ainda não se apuraram os resultados finais destas eleições, nomeadamente quanto ao número exato de deputados com que cada força política vai ficar. De qualquer forma não me vou deter nas táticas dos arranjos políticos de curto ou mesmo de médio prazo, mas nas conclusões mais importantes, de natureza mais estratégica, que já se podem retirar.
Estas eleições indiciam que uma grande parte da população já começou a perceber que andámos 30 anos a promover um país errado, percecionando ainda como elevados os riscos com que nos defrontamos e adiante referidos. E que a maior responsabilidade política de nos termos tornado num país errado assenta no PS e nos partidos à sua esquerda, e respetivos dirigentes, pelas políticas e práticas adotadas.
Uma grande parte da população tem visto o PS a cristalizar em políticas do passado, numa deriva relativamente mais esquerdista e com poucas soluções, enquanto os serviços públicos se degradam e os impostos mesmo para os apenas remediados sobem.
Assim os portugueses agora castigaram ainda mais estes partidos do que o fizeram em 2024. O PS não chegou aos 25% e os partidos à esquerda deste, no total, só valeram cerca de 10%.
Mas a população também não isenta de responsabilidades os partidos à direita do PS, e seus dirigentes, nomeadamente o PSD, na medida em que não soube nos últimos anos afirmar-se como líder de uma alternativa suficientemente distintiva, nem denunciar cabalmente o país errado em que nos estávamos a tornar.
Por isso o PSD, mesmo vencendo com algum mérito, se bem que não muito, continua a ficar muito aquém de uma maioria absoluta, mesmo agregando os parceiros mais próximos como a IL, partido esse que ainda revela alguma dificuldade de crescimento.
Em consequência de tudo isto teremos de concluir que o crescimento do PSD nestas eleições foi curto para tanta responsabilidade e queda do PS.
O Chega, visto como tendo menos responsabilidades na governação dos últimos anos e mais vocal no protesto, nomeadamente em alguns dos temas particularmente críticos para a população, e apesar do repúdio que ainda suscita numa parte da população, afirmou-se como o partido que em pontos percentuais mais cresceu, ficando já a par com os maiores, devendo vir a alcançar a segunda posição em número de deputados, ultrapassando o PS.
Face a este desempenho, as linhas vermelhas antes aplicadas poderão eventualmente agora ter de ser reconsideradas e antes aplicadas onde sempre foi mais importante, ou seja nas políticas públicas concretas em que critérios de razoabilidade, consistência, decência e de interesse público não serão para ser ultrapassados.
No geral, a tradicionalmente designada direita, incluindo o PSD e partidos à sua direita, aumentou de forma inédita o seu peso no eleitorado passando a deter mais do que dois terços dos deputados (a maioria necessária para a revisão constitucional) e mais de 60% dos votos, uma subida de 10% face a 2024, expressão essa que começa a parecer resiliente pelo menos enquanto a deriva de aposta no país errado por parte da designada esquerda continuar a persistir.
A questão agora é saber se destas eleições vai sair um governo apoiado por uma maioria absoluta estável que, com o seu projeto e políticas claras, reverta estruturalmente as políticas do passado e rompa com todos os respetivos preconceitos perversos, sem prejuízo de se manter aberta aos contributos de todos.
Se tal não vier agora a acontecer, desde logo por incapacidade da AD e dos seus líderes ou dos seus potenciais aliados, vamos ter que esperar por tal nas próximas eleições, pois a dinâmica essa já está criada, mesmo que não deixe de se lamentar que assim estaremos apenas a adiar a recuperação e a consolidação necessárias do nosso país e da nossa sociedade.
2 Como nos caracterizamos como país errado
Claro que Portugal ao longo da sua história sempre teve problemas, desafios e preocupações, crises e ciclos, como qualquer outro. Mas mesmo em períodos de depressão, de ditadura, de PREC, ou de migrações significativas, por que passámos e até onde nos leva a memória, quase nunca nos faltou a esperança ou a expectativa de que o futuro acabaria por vir a ser melhor. E mesmo sujeitos a mudanças significativas, nunca deixámos de considerar o país como nosso.
A situação agora é diferente e mais dramática. Poucos acreditam que o futuro do nosso país será melhor do que o presente e a maioria questiona-se sobre o que virá a acontecer à nossa comunidade.
O balanço a fazer dos primeiros 20 anos a seguir ao 25 de Abril terá sempre que ser positivo, pois apesar de alguns desvios e erros significativos, fomos capazes de sair de uma ditadura e iniciar um processo democrático e de transformação social e económica. Mas nestes últimos 30 anos temos vindo a construir um país errado.
País errado no sentido dos seus princípios (desde logo na aplicação dos princípios da liberdade e igualdade), da sua estrutura, organização e funcionamento, das suas instituições, das suas “regras do jogo”, do seu modelo social e de criação de riqueza, um país de “rendas”, de muitas posições dominantes e lugares marcados, com dificuldades em manter uma dinâmica de reestruturação e renovação.
Errado porque não cria as condições de enquadramento mínimas para o bem-estar dos portugueses e para a sua realização pessoal e profissional, falhando no aproveitamento das suas capacidades e potencial e na promoção da sua autonomia e independência, induzindo ainda a emigração dos mais jovens e qualificados.
País errado também porque tem um Estado errado, excessivo, dominante, burocrático e deficientemente gerido, que não está verdadeiramente ao serviço dos portugueses mas mais ao serviço de determinadas corporações politicas, sindicais e outras, com pouca orientação para o cidadão antes complicando a sua vida e explorando-o com impostos avassaladores para o seu nível de rendimentos, ao mesmo tempo que falha na prestação dos serviços públicos e na sustentabilidade e eficácia do seu sistema de proteção e segurança social .
Sim, esta é uma análise propositadamente tremendista, mas é a necessária para irmos com clareza ao fundo das coisas e ganharmos a consciência, as convicções e a coragem para nos mobilizarmos para as mudanças necessárias.
Os partidos dominantes e a maioria dos dirigentes e responsáveis políticos parecem ter ficado, nos últimos anos, fechados na sua bolha, ainda mais acomodados à mediocridade dos resultados do país e ao facilitismo da entrada massiva de recursos e fundos europeus, e das receitas do turismo, focados que estão no curto prazo, na conquista ou manutenção do poder, na instrumentalização do Estado, nas suas carreiras, incluindo no el dorado europeu, ou mesmo nos seus negócios.
Ou seja, de facto e na prática pouco preocupados com o futuro do país e com a prioridade do interesse público.
Quando estão na oposição os políticos protestam e barafustam, tudo está ou passa a estar mal, e a todos tudo prometem, sem cuidar da consistência ou viabilidade das suas propostas.
Quando estão no governo os políticos distribuem, enquanto podem, benesses aos grupos que mais barulho podem fazer, proclamam que tudo já está a ficar bem, e que vai ficar ainda melhor, gerem apenas a situação e quase nada do que é necessário e fundamental mudam, abstraindo-se de que continuamos a ser dos países mais atrasados da Europa e dos que menos oportunidades damos aos cidadãos, no fundo de quanto estão a comprometer o nosso futuro.
Os principais responsáveis de termos construído um país errado nos últimos 30 anos foram estes partidos, que não se souberam reestruturar e requalificar, e uma parte dos nossos dirigentes, governantes e responsáveis políticos, muitos com insuficientes qualificações e falta de experiência do mundo real, e atuando numa certa coligação, e muitas vezes em promiscuidade, com as corporações prevalecentes também elas dominantes (sindicais, profissionais, empresariais, cliques familiares e outras), revelando-se assim incapazes de defrontar os nossos desafios estruturais.
Beneficiaram ainda estas forças de uma comunicação social, no geral, não só com fragilidade de recursos e reduzida solidez financeira, nomeadamente para investir, mas principalmente demasiado marcada ideologicamente, insuficientemente independente, qualificada, diversa e escrutinadora, incluindo a maioria do seu comentariado político, com as suas próprias agendas e recados.
3 A perceção e impacto de uma imigração descontrolada e de uma identidade desvalorizada na população
Será de salientar que a nossa situação como país errado foi particularmente agravada nos últimos anos.
Parece inacreditável como a partir de 2017 permitimos a existência de uma imigração descontrolada e galopante e assim começámos a desperdiçar e a corroer o que de mais único e diferenciador o país tem, ou seja, as raízes da nossa identidade, cultura e comunidade, e até alguma da nossa paz e tranquilidade.
Até 2017 o número oficial de residentes estrangeiros parecia ter estabilizado no patamar dos 400 mil, menos do que 5% da população. Mas a partir daí esse número oficial cresceu exponencialmente até aos 1,6 milhões no final de 2024. Estima-se agora que o número real atual de estrangeiros com permanência em Portugal (incluindo os ilegais, os em via de legalização e os designados nómadas digitais não considerados residentes) já andará próximo dos 2 milhões.
Assim os estrangeiros representarão agora cerca de 20% do total dos portugueses, ou seja, da comunidade portuguesa cá residente.
Portugal é um país aberto e que valoriza a diversidade, com uma cultura que inclui um histórico de emigração, e, portanto, sem preconceitos nem aversão a uma imigração equilibrada, reconhecendo aliás tradicionalmente os respetivos benefícios.
Teria sido natural e desejável para o país, que a partir de 2017, de uma forma gradual e durante um número alargado de anos, se tivesse registado um crescimento significativo do número de imigrantes, assegurando-se o seu perfil adaptabilidade e compatibilidade com a nossa cultura e não potencialmente geradores de guetos ou de marginalidade.
E claro que nada temos pessoalmente contra os que veem de boa fé para cá trabalhar, alguns deles aliás com a iniciativa e a energia suficientes para desenvolverem os seus próprios projetos.
O que nunca deveria ter acontecido era o quase quintuplicar, num tão curto espaço de tempo de apenas 7 anos, da percentagem de imigrantes estrangeiros face à população portuguesa.
Especialmente quando quase tudo foi feito sem o necessário planeamento, controle e escrutínio, sem a definição do perfil pretendido de imigração e o assegurar da sua integração na nossa sociedade, resultando em elevados riscos para o nosso país e comunidade.
Ao mesmo tempo permitiram-se condições de vida desumanas para grande parte dos imigrantes inseridos em novas bolsas de pobreza e a viver em condições verdadeiramente indignas.
Caracteriza-se ainda esta imigração dos últimos anos por ter uma natureza dupla, com o efeito de como que “entalar” a comunidade portuguesa cá residente e aumentado ainda mais o fosso existente entre os mais pobres e os mais ricos, dos que cá vivem.
A maioria dos imigrantes dispõe de baixa qualificação e de poucos recursos acabando por exercer trabalhos indiferenciados e de baixos salários.
Mas também se verificou, como nunca se viu e com impacto muito expressivo, uma imigração com mais recursos (estima-se em cerca de 150 mil a entrada de imigrantes bastante mais “endinheirados” do que a média dos portugueses e a quem foram atribuídos privilégios fiscais ou deles conseguem beneficiar) que acabou por impactar a nossa classe média ao encarecer o seu padrão habitual de consumo, que deixa de lhes ser acessível. Grande parte da nossa classe média passou assim, com mais este contributo, para médio baixa.
Agora a maioria da população portuguesa, e a todos níveis, começa a sentir grande desconforto face as estas grandes alterações sociológicas verificadas, desconforto esse que acresce ás perceções que já tinha de um turismo que já considerava excessivo por demasiado massificado.
Não sendo a maioria da população xenófoba não deixa de percecionar e sentir na sua vida diária os impactos negativos da torrente social verificada seja nas ruas, nas lojas, nos preços do que consomem e da habitação e seu acesso, nos centros de saúde, nas repartições públicas, nas maternidades, e no seu sentimento de segurança.
Há mesmo quem diga que por vezes, em certas situações, já não se sente como estando no seu próprio país.
Esta população já não acredita, e bem, nos oráculos ou demagogos, mais ou menos políticos que dizem que quanto mais imigração melhor ou que os imigrantes é que suportam a segurança social, ou que os mais endinheirados justificam privilégios fiscais porque veem para cá investir em atividades reprodutivas, ou que sem este nível de imigração a economia parava, tudo assente em análises simplistas, básicas e frequentemente distorcidas.
Análise e conclusões precipitadas que adicionalmente parecem esquecer que nem tudo se mede no curto prazo e do ponto de vista material sendo o médio longo prazo, os valores da ética e moral, da paz e tranquilidade e da valorização da comunidade portuguesa tão ou mais importantes e para serem considerados.
A maioria da população também não compreende a aparente e relativa facilidade com que se obtém a nacionalidade portuguesa, nomeadamente sem grandes requisitos de gerações anteriores portuguesas, sem se falar a nossa língua ou sem que seja necessário também abraçar a história e a cultura nacional, no fundo sem se sentir também uma alma portuguesa.
4 A agora
Até a um certo ponto é surpreendente como até agora os portugueses, na sua generalidade, conseguiram andar dezenas de anos a condescender com as políticas e opções erradas, muitas só possíveis de manter com o guarda-chuva europeu, presos a narrativas, preconceitos, mitos e tabus, que não exorcizaram, propagados pelas corporações do regime e pelos mais diversos figurões. A dependência de muitos e a falta de informação explicará uma parte mas não podemos assim também nos eximir à nossa quota de responsabilidades.
Mas agora as coisas estão a mudar.
Foi a maior consciência da população de que nos tornámos num país errado e sem grandes perspetivas de futuro, situação agravada pelas alterações sociológicas e de identidade provocadas por uma imigração excessiva e descontrolada, que determinaram este momento de mudança e o resultado destas eleições.
Este despertar será tendencialmente gradual e transversal a todos que não estejam ligados às corporações de interesses do sistema atual, estendendo-se não só para os mais à direita, mas também a muitos que se consideram da esquerda, menos populista e mais moderada, ou para aqueles que não se sentem de lado nenhum.
A população apercebe-se que as receitas do passado já não funcionam, mesmo nos casos em que não saiba quais as que podem funcionar, e que é possível e necessário estruturalmente mudar a situação num projeto que seja do interesse da maioria da comunidade assente na democracia, liberdade e na valorização e iniciativa dos portugueses.
Um projeto que repudie o racismo, a xenofobia e a misoginia, mas também o estatismo, a colonização política do Estado, a exploração do cidadão por este, as corporações perversas de interesses, os abusos de posição dominante, a imposição da identidade extremada e radical de género, a desproteção das crianças, dos mais velhos e incapacitados, as desigualdades que beneficiam os grupos já privilegiados, o justicialismo e a intolerância.
As forças políticas que não saibam ler estas tendências e aspirações da população e da sociedade civil e que não as consigam protagonizar vão acabar por ser ultrapassadas pelas restantes já existentes ou por outras que surgirão. E isto pode incluir mesmo aquelas que agora estejam a ser mais bem sucedidas.
Esta é mais uma lição destas eleições. E motivo para uma maior confiança e otimismo para o futuro.