As desigualdades socioeconómicas, o insucesso escolar e a deterioração da saúde mental das gerações mais novas surgem como os principais obstáculos à afirmação do sistema de Ensino Superior enquanto realidade transversal à sociedade portuguesa. Estes três fatores, sem atuação necessariamente simultânea, continuam a determinar o acesso ao ensino superior, o abandono ou permanência neste, bem como o ingresso no mercado de trabalho.

O estudo Estudantes Nacionais e Internacionais no Acesso ao Ensino Superior (realizado pelo Edulog, iniciativa da Fundação Belmiro de Azevedo) revela como ilação central que o contexto económico é o proeminente dos três fatores “irmãos”. A massificação do ensino superior português não terá sido sinónimo da eliminação de desigualdades que se perpetuam durante as várias fases que um estudante enfrenta ao longo de um ciclo de estudos superior: o acesso, a permanência e a transição para o mercado de trabalho.

Vários estudos têm revelado que esta massificação não terá sido acompanhada de uma distribuição de vagas mais igual entre estudantes nascidos e criados em contextos mais ou menos desfavorecidos, continuando o ensino superior com tendências elitistas que beneficiam os indivíduos provenientes de contextos familiares mais favorecidos (Denny e Flannery, 2017).

No acesso ao ensino superior, um estudante que pertença à primeira geração da família a frequentar o ensino superior estará, à partida, em posição de desvantagem – possivelmente condicionado por um desempenho no ensino secundário mal conseguido. Algo que caracteriza muitos dos estudantes de contextos mais pobres (Chowdry et al.,2013).

Como as desigualdades no ensino superior não se esgotam no acesso, o mesmo estudo supramencionado revela que “quanto menos favorecido é o contexto socioeconómico dos estudantes, maior é a taxa de abandono”. Em Portugal, as contribuições das famílias têm um peso no orçamento dos estudantes altamente superior à média europeia, segundo revela o Eurostudent – caso tenhamos em conta as condições socioeconómicas menos boas dos portugueses, mais alarmante se torna esta situação.

Mesmo que um estudante atravesse todas as fases do seu percurso no ensino superior com sucesso, “os estudantes de contextos desfavorecidos enfrentam maior risco de desemprego, sugerindo que o ensino superior pode nem sempre cumprir o seu papel de promotor da mobilidade social”.

Este panorama prolongado de desigualdades no acesso, na permanência e no sucesso no mercado de trabalho deve continuar a merecer a atenção do governo central e das instituições de ensino superior, que devem ser chamadas a mapear dinâmicas ou medidas institucionais de combate às desigualdades no ensino superior, atuando direta e indiretamente junto dos estudantes e das suas famílias.

Se queremos atingir a meta proposta pela União Europeia de 40% de indivíduos com formação superior, é fulcral a definição de uma estratégia integrada que permita efetivar o ensino superior como elevador social para todos.

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