A vida humana é feita de paradoxos. Talvez até o mundo, em geral, seja feito de paradoxos, mas pouco me importa o mundo em geral sem analisar primeiro a vida humana, já que é a partir dela que observo o resto. Quantas vezes (por dia, acrescentaria) as paixões mais intensas não roçam o ódio, ou quantas vezes os cientistas mais brilhantes aos olhos de todos não se envergonham da sua profunda ignorância?

Atenção, que o paradoxo se constitui exatamente pelo facto de não ser uma alternância. Os dois amantes não se odeiam “às vezes”, nem o cientista tem quebras de confiança “às vezes”. Não. São simultâneos. É exatamente pelo excesso de paixão que o ódio arde, como é por saber tanto, que a ignorância é descoberta. Atenção, também, que o paradoxo não é uma incoerência. Não. É exatamente a tentativa coerente de viver a paixão que gera ódio, tal como é pela coerência intelectual que se chega a ignorância própria. Para o caso, é inútil discutir se é bom ou mau, basta saber que é assim.

Pois bem, o mesmo acontece com a Razão. A Razão, o debate livre de ideias, o melhor mecanismo que a Humanidade inventou para fugir ao dogmatismo cego é, paradoxalmente, fundado em verdades consideradas dogmáticas. O pensamento científico, por exemplo, assume dogmaticamente que o mundo existe, se rege por leis constantes no tempo, que essas leis estão ao alcance da nossa inteligência e que vamos aperfeiçoando o seu entendimento pelo confronto entre visões diferentes.

Por tudo isto, a Democracia, sendo parte da vida humana, e, em especial, a Democracia Liberal, nascida dos valores iluministas que privilegiam o debate de ideias, herda a necessidade de, paradoxalmente, ter as suas raízes em dogmas, ou princípios absolutos, que o mundo ocidental pós Segunda Guerra Mundial fixou na Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). Quer isto dizer, que o povo, pelo processo democrático, pode decidir o que quiser enquanto mantiver um certo nível de respeito pelo indivíduo. É nesse paradigma que eles foram escritos: o do indivíduo.

Não sendo eu um especialista em História nem em Direito, penso poder afirmar que todo o processo que culminou na DUDH, desde a Antiguidade Clássica à Magna Carta e às revoluções francesa e americana, constituiu uma evolução no entendimento de que cada ser humano tem valor em si mesmo, ou seja, que a vida humana deve ser valorizada independentemente do contexto de nascimento (seja ele temporal, étnico, social ou económico) e das decisões tomadas (sejam elas religiosas, sexuais ou políticas).

Cada sociedade há-de ter dado o seu contributo à História e o da Civilização Moderna Ocidental foi, sem dúvida, o Indivíduo. Questionar o valor intrínseco de cada ser humano, seja sob a forma da sobrevalorização da classe, como fazem os comunistas, da etnia, como fazem os racistas, ou pela subvalorização da espécie, como fazem os animalistas, é pôr em causa a Civilização Ocidental em si mesma. Porventura, poder-se-á pensar que exagero ao juntar os últimos três grupos, já que os dois primeiros foram responsáveis pelas maiores atrocidades do século XX e o último quer, apenas, “o bem dos animais”. Mas trata-se de uma questão de coerência de argumentação e de avaliar a consequência prática (política) das ideias de cada um, todas opostas às do Humanismo.

A teoria animalista, sob a qual, no panorama político português, se inscreve o PAN, é aquela que diz que os humanos, sendo apenas mais uma espécie animal, não têm mais valor do que as restantes. Inofensivo? E quando isso levar a que o Estado gaste recursos em benefícios fiscais para quem tem animais domésticos ou num qualquer tipo de SNS animal (ambas medidas que ficaram famosas no programa eleitoral do PAN para as últimas legislativas), continua inofensivo? Talvez não tanto, dado que, num país de recursos limitados, ter um partido com as propostas anteriores é, simultaneamente, ter um partido que escolheu não alocar esses recursos em benefícios fiscais para famílias com mais filhos (humanos, para as mentes pró-PAN) ou num reforço do SNS (humano).

O que está a acontecer é uma revolução cultural e uma mudança de paradigma. Há cada vez mais pessoas que salvariam o seu cão em vez de um vizinho (des)conhecido de se afogar. O Humanismo está em falência não por ser errado, mas porque não tem sabido reconhecer no Animalismo um inimigo fatal. Cabe a cada um decidir que mundo prefere.

Equidistantemente, é possível, ainda, encontrar uma mentalidade híbrida, típica de tempos de transição entre paradigmas, de quem se diz humanista, mas que já abraça alguns temas animalistas. São aqueles que defendem que o Estado deve estar focado em cada pessoa e, ao mesmo tempo, veem nas touradas e/ou no consumo de carne um ato de crueldade para com os animais. Não é possível, no meu entender, manter tal posição, como que tentando ter o melhor das duas perspetivas. E porquê?

Em primeiro lugar, porque estes híbridos são puramente arbitrários. Sendo possível ter uma alimentação vegan (mesmo que há base de suplementos), comer carne é, hoje em dia, um mero luxo, pelo que não há razão nenhuma para alguém comer carne se se opõe ao sofrimento animal das touradas, do hipismo ou da caça. Da mesma forma, é puramente arbitrário, quase esquizofrénico, defender, em simultâneo, que não há razão para considerar os seres humanos superiores às restantes espécies e que o Estado deve dar prioridade às pessoas, quando gere os seus recursos.

Em segundo lugar, porque “o melhor das duas perspetivas” está, de facto, no Humanismo, que, ao reconhecer o ser humano como único pelo seu valor intrínseco, decide o valor de tudo pela sua relação com o ser humano. Assim, as árvores da Amazónia não têm valor absolutamente nenhum em si mesmas: é o seu papel na vida das gerações futuras que lhes confere valor e torna necessária a sua preservação. Evidentemente, o mesmo raciocínio confere valor aos oceanos, à atmosfera, à vida animal e etc.… Um Humanismo maduro é, necessariamente, responsável do ponto de vista ecológico e ambientalista. Só não o faz pela sacralidade da irmã-árvore ou do irmão-cão, mas porque reconhece a crucialidade do cuidado do meio ambiente e a preservação dos complexos ecossistemas para as vidas humanas futuras.

Evidentemente, o mundo em que vivemos tem falhas, pelo que o diálogo sobre paradigmas novos é sempre útil. A minha única preocupação é que, querendo tapar alguns buracos, nos vejamos a mãos com um queijo suíço. Repare-se que entre dizer que os humanos têm tanto valor como qualquer outra espécie e concluir que os humanos são a causa de maior destruição na Terra e, portanto, a bem das outras espécies, se devem extinguir, vai apenas o passinho muito lógico de perder a vergonha. Ainda que não sejam amplamente discutidos em Portugal, estes são temas com adeptos no mundo anglo-saxónico e com projeção em movimentos como o Voluntary Human Extinction Movement.

Como deve, então, o pensamento civilizado ocidental posicionar-se sobre a violência animal? Bem, enfatizando a sua essência humanista, como mencionei anteriormente, pela sua relação com os humanos. Se, por absurdo, os animais não tivessem qualquer tipo de relação ou impacto na vida humana (fosse ele alimentar, afetivo…) a violência animal seria uma não questão, tal como é a violência contra garrafas de vidro. Não é, no entanto, tão simples. A nossa relação com o mundo animal é tão antiga como a nossa própria espécie e, muitas vezes, marca-nos a nível emocional, sendo capaz de nos curar e traumatizar, de nos sustentar e de nos matar. A resposta não pode, consequentemente, ser taxativa, correndo todos os problemas com a mesma solução. Se assim fosse e escolhêssemos a solução de que não é lícito provocar sofrimento animal em qualquer situação, seríamos imediatamente paralisados, morrendo cada um no lugar em que se encontrasse, não de idade, mas de inércia, já que cada passo que damos afeta uma infinidade de seres. Nesse caso, mais uma vez, não poderíamos desenhar linhas arbitrárias que mostrassem misericórdia por uma vaca, um cão ou um gato, mas fossem cegas a germes, aranhas e ratos.

Este critério da relação com os humanos é o que me faz dizer que os habitats naturais devem ser preservados e que a caça furtiva de espécies em vias de extinção deve ser criminalizada, mas também que leis que definem tamanhos mínimos para gaiolas transportadoras de pecuária a longas distâncias são absurdas, na medida em que isso não contribui para a qualidade da dita pecuária enquanto alimento humano. Isto é, se for possível levar mais galinhas num camião sem afetar a sua qualidade enquanto fonte de alimento, então que não o deixemos de fazer a pensar no conforto das ditas galinhas, aumentando o custo da alimentação das populações humanas. Da mesma forma, lutas de cães ou de galos são altamente repreensíveis enquanto criadoras de ambientes humanos violentos, mas caçar raposas à boa moda britânica não levanta objeções por ter sido sempre uma atividade vivida enquanto desporto civilizado.

É aqui que reside o verdadeiro cerne da questão: por que razão, nós, humanos, o fazemos e qual o seu impacto nos futuros humanos? O pensamento humanista nunca poderá permitir a questão daninha animalista da compaixão pelos animais por todas as razões que tentei expor acima, relacionadas com a arbitrariedade e com as consequências nefastas para a civilização ocidental moderna.

Todo este enquadramento foi necessário para poder, agora, discutir a legitimidade de corridas de touros. Importa começar por dizer que as corridas de touros cumprem com o critério do impacto nos humanos: não há qualquer razão estatística (ideológica há sempre) para acreditar que assistir a uma tourada desde criança seja um fator preditor determinante de qualquer tipo de violência. Pelo contrário, pergunte-se a qualquer espetador e ouvir-se-á respostas mais próximas dos valores humanistas do companheirismo, entre-ajuda, coragem e enfrentamento de adversidades do que de qualquer noção bárbara de sadismo.

Por outro lado, mais uma vez, o ponto de vista humanista confere ao touro e ao cavalo valor pela sua relação com o ser humano. Ora, sendo assim, é concebível que este valor resida em serem usados para entretenimento em espetáculos, cujo merecimento não pretendo discutir, pois é onde começa o tema exposto pelo Dr. Joaquim Grave. É, aliás, exatamente isso que se tem defendido até à exaustão sobre o touro bravo: o seu valor está na bravura que demonstra nas corridas de touros, tal como o valor das galinhas na qualidade da carne ou dos ovos, o valor das árvores da Amazónia no papel enquanto pulmão do mundo e o valor do meu cão enquanto companhia incondicional.

Defender os direitos humanos traduz-se em defender a sociedade de visões que diminuam o valor de cada pessoa, o que, nos dias de hoje, significa, entre outros, combater o animalismo. Um humanista pode ser vegan pela sua saúde, mas nunca pela saúde dos animais, tal como pode não ir a corridas de touros por não concordar com os riscos de morte que correm toureiros e forcados, mas nunca pelo risco de morte que corre o touro ou o cavalo. Chego, assim, à conclusão de que é perfeitamente legítimo (sugiro até que desejável, num aparte estético pessoal) e humanista assistir a uma corrida de touros. Mais: que aqueles que mais gostam de touros, aqueles que mais reconhecem o seu valor, são aqueles que lhe permitem expressar a sua relação de confronto com o ser humano, exatamente os mesmos que o sujeitam à morte.

Não deixa de ser interessante que este texto acabe como começou: a vida humana é feita de paradoxos.