O início desta semana foi particularmente agitado, na sequência de uma entrevista concedida por Rui Moreira a um podcast. Ainda nessa tarde, as minhas redes sociais — e até as caixas de mensagens — ficaram inundadas com publicações a denunciar declarações polémicas feitas durante essa conversa. O burburinho foi imediato, e o tema espalhou-se à velocidade típica dos dias que correm: rápida, fragmentada e muitas vezes sem contexto.
Confesso que, num primeiro momento, achei que se tratava de mais uma declaração infeliz — daquelas que geram barulho, mas pouco conteúdo. Afinal, todos nós temos direito a comentários menos felizes ou até mal interpretados. E não nos esqueçamos de que estamos a entrar em Agosto, a clássica silly season da política portuguesa, onde qualquer frase mais escorregadia serve de manchete, de indignação passageira ou de combustível para as redes sociais e jornais.
Contudo, a frase “Portugal foi o último país a abolir a Inquisição e, portanto, vamos seguramente ser o último país a abolir as redes sociais” seria uma afirmação muito mais que infeliz — sobretudo vinda de quem lidera uma cidade que sempre foi símbolo de liberdade, resistência e pensamento crítico.
Por isso mesmo — e porque a coerência exige que não se critique sem ouvir, sobretudo tratando-se de alguém que sempre vi como um defensor dos direitos e das liberdades — fiz questão de escutar a entrevista completa, em vez de me deixar levar pelo ruído dos soundbites que hoje contaminam o debate público. E, verdade seja dita, percebe-se que a intenção não era atacar as liberdades digitais, mas alertar para os riscos reais dos julgamentos sumários que se multiplicam nas praças públicas digitais — tantas vezes dominadas por linchamentos morais e indignações coreografadas.
Também a mim, o ruído das redes sociais levanta sérias preocupações. Não sou ingénuo. Sei o impacto que a desinformação pode ter, a velocidade com que se espalha e os danos que provoca. Mas, ao contrário de alguns, não creio que a resposta esteja em silenciar, restringir ou abolir. O problema não está nas plataformas — está no uso que fazemos delas, nas bolhas que alimentamos e na abdicação da responsabilidade individual.
Como venho dizendo há muito tempo, a única forma de combater a falta de democracia é com mais democracia. E o mesmo se aplica às redes sociais: o caminho não é censurar — é reforçar a literacia digital, estimular o pensamento crítico e promover uma cidadania mais consciente, activa e exigente
O caminho não pode ser o do medo. Tem de ser o do debate — da escuta, da responsabilização, da construção de soluções colectivas. O que está ausente do espaço público é precisamente isso: um verdadeiro diálogo sobre como enfrentar a desinformação sem cair nas tentações autoritárias que, ironicamente, só servem para fortalecer os populismos que fingem combater.
Ortega y Gasset sublinhou isso com uma lucidez desconcertante ao assinalar: “O homem-massa não quer ter razão nem dar razões, quer simplesmente impor as suas opiniões.” E é essa lógica que define boa parte da nossa realidade actual — a ditadura do “eu acho”, onde a verdade se torna irrelevante e tudo se resume a narrativas amplificadas por algoritmos. O digital trouxe-nos muitas conquistas, mas também a perigosa ilusão de que todas as opiniões têm o mesmo valor — mesmo quando assentam no vazio. Isso não é liberdade de expressão. É o nivelamento por baixo da nossa capacidade de pensar.
A verdade é que, nos últimos anos, os partidos retiraram-se — de forma quase cobarde — do espaço público da discussão. Fizeram-no por medo, por cálculo ou simplesmente por comodismo. E em muitos casos, capitularam perante uma política de cancelamento que se foi infiltrando na vida pública, onde qualquer opinião que ouse desafiar o politicamente correcto é automaticamente punida com rótulos, ataques pessoais e tentativas de silenciamento. O resultado é este: uma sociedade paralisada pelo medo de falar, onde quase tudo se tornou tabu e o pensamento divergente passou a ser tratado como ameaça.
Mas esta demissão tem um custo — e não é baixo. A política não tolera o vazio. E o vazio que deixaram foi imediatamente preenchido por discursos radicais, certezas fáceis e lideranças que prosperam no ressentimento. Os populismos não crescem por acaso — crescem porque foram deixados sozinhos no centro do palco. Crescem porque quem devia falar, calou-se. E porque quem devia liderar, refugiou-se em frases feitas e promessas recicladas.
Não é, por isso, de estranhar que o Relatório da Democracia de 2025, publicado pela V-Dem (Varieties of Democracy), aponte para uma erosão crescente dos modelos democráticos face ao avanço dos regimes autocráticos. A democracia liberal está em retracção — não apenas por ataques externos, mas pela sua própria incapacidade de se renovar e responder ao tempo presente.
O mundo está em constante mutação — e essa mutação não pede licença. As transformações sociais, culturais e tecnológicas avançam a um ritmo avassalador, e quem continua agarrado às fórmulas do século passado corre o sério risco de se tornar politicamente irrelevante. É nesta desconexão entre o mundo real e as estruturas políticas digitais que se alimentam o cinismo, o desencanto e os extremos.
Talvez, no meio de todo o ruído gerado pelas declarações do Dr. Rui Moreira, haja algo de útil a resgatar. Talvez este episódio nos possa servir para recentrar o essencial: a urgência de voltarmos a criar espaços de diálogo genuíno — não apenas para trocarmos opiniões, mas para pensarmos juntos que tipo de sociedade queremos ser, e que democracia queremos construir num mundo cada vez mais moldado por inteligência artificial, automatismos e algoritmos que decidem o que vemos, o que lemos — e, cada vez mais, o que pensamos.
Numa era em que o debate público é cada vez mais moldado pela lógica dos likes e dos algoritmos, importa lembrar que a democracia exige mais do que eficiência. Exige humanidade. Exige consciência crítica. Exige coragem para pensar e debater — mesmo quando isso incomoda.