O problema de falar dos problemas através de conceitos ideológicos acaba sempre por resultar na ridicularização das afirmações peremptórias feitas por aqueles que não querem ser capazes de enfrentar a realidade.

No final do ano de 2024, a propósito de uma acção policial levada a cabo na zona do Martim Moniz, muitos foram os ataques, motivados pela batalha política entre os partidos, feitos à acção dos agentes policiais e tentando inclusivamente responsabilizar o governo por essa acção.

O debate nas televisões, nas redes sociais, na imprensa escrita e nos cafés de todo o país centrava-se na caracterização da dita acção como racista e desconectado da real necessidade de trazer segurança à zona em causa.

Toda esta polémica surgiu meses depois de um incidente grave que sucedeu noutra zona da cidade, num bairro em que a polícia é mal recebida sempre que por lá passa e que resultou numa situação dramática da morte de uma pessoa.

Ao mesmo tempo em que assistimos a toda esta polémica fomos relembrados regularmente que, num estudo publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, a percepção da maioria dos portugueses sobre a realidade da segurança vivida em Portugal tinha piorado com o aumento da imigração registada nos últimos anos.

Para justificar o erro desta percepção, a maioria dos que nos vêm constantemente provar que o povo português é racista, tentam encontrar nas estatísticas a prova de que não terá havido aumento de criminalidade relevante desde que aumentou o fenómeno da imigração.

Generalizando este defeito a todos os portugueses, que provavelmente poucos o terão, e que, seguramente, também existe, mesmo que em minoria, nas restantes raças, que em algum momento se sentiram discriminadas.

Não é fácil combater percepções com estatística, até porque a estatística funciona na globalidade e nunca no particular e a percepção resulta da experiência particular e não tem nada que ver com o global.

E a realidade da experiência da maioria dos portugueses foi, naturalmente, que se sentiram menos seguros. Umas vezes com razão e outras vezes sem ela.

Mas não se combate a percepção de insegurança atacando aqueles que a sentem. Pelo contrário, é a través de uma atitude de compreensão e levando a cabo demonstrações de que existe segurança que se vai alterando essa situação.

Não é deixando cada um invadir uma sociedade com os seus hábitos de vida particulares que se consegue uma integração, é através da integração dessas pessoas nos hábitos e costumes do país que se tornou a sua nova morada.

Foi por causa desses hábitos e costumes que existe, nesse país, a qualidade de vida que procuraram ao mudar-se.

Também não é com manifestações ideológicas que se faz qualquer mudança na convicção das pessoas quando o tema é a segurança.

Os portugueses são reconhecidos com sendo afáveis, tolerantes e, por vezes, mesmo permissivos. Acham que a cada um o que lhe diz respeito.

Contudo, quando toca à segurança, à sobrevivência da sua família e dos seus bens, poucos são os que manterão essa opinião e, por isso, pouco eco terá tido toda esta manifestação ideológica no ataque ao policiamento efectivo das zonas que têm vindo a ser foco de instabilidade e de maior criminalidade.

E eis senão quando, quase parecendo uma partida dos deuses, no mesmo local em que se verificou a acção policial e onde se realizou a manifestação contestatária, foi acontecer um desacato, com uma proporção já significativa. Esta situação veio reforçar a percepção de todos aqueles que já se tinham afirmado preocupados com a diminuição da segurança em Portugal, que assim reforçaram a sua convicção de que estão certos na sua análise.

Ninguém pode afirmar que o desacato em causa seja a prova de que essa percepção está correcta.

Provavelmente, assim como a acção policial em causa foi apenas mais uma de tantas que acontecem regularmente para assegurar o clima de segurança que temos em Portugal, também este desacato terá sido não mais do que mais um desacato que começou por um qualquer mal entendido.

Ainda assim, a projeção dada pelos que quiseram aproveitar politicamente um acto corrente da fiscalização da polícia, acabou por dar um muito maior impacto ao desacato e tornou-o no factor de ridicularização dos que querem governar o Mundo através da ideologia e nunca pela verdade.

Às vezes demora mais, mas desta vez a demagogia foi rapidamente ridicularizada.