A eleição de Dom Virgílio Antunes para a presidência da Conferência Episcopal Portuguesa dificilmente pode ser lida como uma surpresa ou como sinal de renovação. Pelo contrário, é um sinal claro de que, no interior da CEP, subsiste uma lógica fortemente organizada , dir-se-ia até partidarizada, onde a escolha do novo líder reflete a continuidade de um grupo de prelados herdeiros de uma linha interna associada a um passado recente ou à influência do grupo maioritário dos bispos do já chamado centro-norte liberal.
Mais do que um ponto de viragem, esta eleição parece confirmar a manutenção de equilíbrios já estabelecidos, num contexto em que a Igreja portuguesa continua a debater-se com a necessidade de se redefinir internamente, de se “auto apaziguar” e de se reafirmar enquanto voz perante a sociedade.
As mais recentes entrevistas de Dom Virgílio mostram um homem consciente dos desafios e que procura responder-lhes com um discurso claro, estruturado e, em muitos momentos, ponderado. Ainda assim, permanece a dúvida sobre até que ponto essa clareza corresponde a uma verdadeira continuidade com o estilo do seu antecessor. Dom Virgílio afirma-o repetidamente, se calhar por cortesia, mas o tom que adota, mais direto, mais ordenado, menos exposto à ambiguidade, sugere antes uma mudança de enfoque: não tanto gerir tensões, mas organizar respostas e reposicionar-se internamente na Igreja de Leão XIV. Há como que um caderno de encargos, assente em três eixos claros: encerrar o passado, estabilizar o interior da Igreja e afirmar a sua presença no espaço público.
O primeiro eixo é talvez o mais sensível: o dos abusos sexuais. Dom Virgílio assume como prioridade consolidar os mecanismos de reparação, dar continuidade às indemnizações e, sobretudo, encerrar este capítulo. Há aqui um ponto forte: a Igreja portuguesa passou de uma postura defensiva para uma atitude mais ativa, reconhecendo vítimas e criando respostas concretas. O apelo a que a sociedade aprenda com este processo não é, em si, ilegítimo. Mas levanta questões inevitáveis: pode uma instituição que falhou durante décadas apresentar-se como exemplo? Podem os prelados que deixaram um sistema com uma metodologia dúbia de denuncia apresentá-lo como método a usar? Entre o encerramento necessário e a reivindicação de exemplaridade, permanece uma tensão que não desaparece por decisão institucional.
Em síntese, parece assumir continuidade formal com a liderança anterior, introduzindo, contudo, um discurso mais estruturado, direto e menos ambíguo. Reforça a ideia de ordem e coerência institucional e reduz a exposição a polémicas mediáticas desnecessárias.
O segundo eixo é o da unidade. Dom Virgílio formula-o de forma explícita: uma Igreja unida, capaz de acolher todas as sensibilidades eclesiais. Esta formulação merece ser levada a sério, porque reconhece implicitamente a diversidade interna que hoje caracteriza a Igreja. No entanto, a questão decisiva está na forma como essa unidade será concretizada. Será uma unidade construída a partir da integração real das diferenças ou um equilíbrio delicado que evita conflitos visíveis, mas limita o carisma?
Neste tema, a tentação para transpor o estilo do Papa Leão XIV é inevitável: uma liderança que tem dado espaço ao confronto de ideias como parte do caminho eclesial. Resta perceber se, em Portugal, essa abertura será assumida ou se a unidade tenderá a traduzir-se sobretudo em estabilidade e manutenção de tensões. Quem conhece a personalidade e o estilo eclesial de Dom Virgílio, sabe, do pouco que conseguimos saber, que não se compromete, que tem bastante dificuldade em relacionar-se com o mundo mais tradicional da Igreja, e que na sua realidade de igreja local tem dificuldades em gerir as várias sensibilidades do clero e dos leigos. Não diz sim nem não e quando diz raramente gera consenso. Contudo, não posso negar que o bispo que falou como presidente da CEP tem características bastante mais ousadas e interessantes do que o bispo que conhecemos como prelado conimbricense. Ainda assim, creio que Dom Virgílio tudo fará para evitar ruturas internas e polarizações visíveis.
O terceiro eixo é o da afirmação pública. Aqui, numa das entrevistas torna-se particularmente claro e até mais combativo. O aplauso à revisão da legislação sobre identidade de género e a exigência de reabertura do processo dos colégios católicos mostram uma Igreja que não abdica de intervir no espaço político e cultural. Esta clareza pode ser vista como uma virtude: define posições e assume responsabilidade. Mas também expõe a Igreja a um terreno altamente polarizado, onde a linha entre intervenção legítima e alinhamento ideológico se torna mais difícil de gerir.
Assim, a “nova” CEP tem pela frente neste âmbito a necessidade de defender uma posição antropológica alinhada com a doutrina da Igreja, assumindo de uma vez por todas o pensamento cristão sobre a antropologia, não abdicando de uma intervenção clara no debate público.
Sobre os colégios católicos aplaudo Dom Vigílio por dar espaço à exigência da reabertura do processo de financiamento dos contratos de associação, de defender o papel da Igreja no sistema educativo e de reivindicar igualdade de tratamento face a outras entidades.
A tudo isto que fomos referindo soma-se uma dimensão menos explícita, mas igualmente importante: o reposicionamento institucional da Igreja. A entrevista sugere uma preocupação com a coerência do discurso, com a organização interna e com a recuperação de autoridade. Mas essa intenção esbarra num dado concreto: a fragilidade da presença pública. Não me foram alheias as imagens das cerimónias do 25 de Abril, na Assembleia da Républica, em que estas mostram uma realidade difícil de ignorar entre as autoridades do Estado. A representação eclesial na pessoa de Dom Virgílio Antunes surge com pouca visibilidade. Não se trata apenas de protocolo, trata-se de relevância, não é um Patriarca de Lisboa, ou um Cardeal Américo Aguiar, Virgílio Antunes, não tem nem a função histórica nem a estratégia comunicativa hodierna dos anteriormente referidos e o titulo de bispo-conde que dispensa usar também não lhe vale de muito.
Neste ponto surgem também questões simbólicas mais específicas. Estará Dom Virgílio disponível para rever o equilíbrio institucional e devolver ao Patriarca de Lisboa o lugar que historicamente sempre lhe coube no protocolo de Estado? Não tenho dúvidas que este foi um erro crasso da anterior CEP. A figura do Patriarca de Lisboa poderia contribuir para uma presença pública mais edificante da Igreja, à semelhança do que representava, por exemplo, Dom José Policarpo, ou Dom Manuel Clemente, responsável pela cedência protocolar, cuja visibilidade e afirmação institucional eram amplamente reconhecidas. São perguntas que não dizem apenas respeito a formas externas, porque até dessas Dom Virgílio abdica quando se apresenta, mas à própria forma como a Igreja se apresenta e é reconhecida no espaço público. Neste ponto Dom Virgílio precisará da suficiente humildade para repor a ordem histórica e ceder alguns espaços. É preciso retomar à anterior clarificação do papel do presidente da CEP vs. Patriarca de Lisboa, ter a humildade de reavaliar o reposicionamento no protocolo de Estado, reforçando a legibilidade institucional da liderança eclesial.
No conjunto, as várias entrevistas revelam um líder com intenções claras, sentido de responsabilidade e preocupação em dar coerência à ação da Igreja. Não há sinais de improviso nem de ligeireza. Mas também deixa evidente que o caminho que propõe encerrar o passado, garantir unidade e afirmar presença está longe de ser simples. Entre essas três frentes acumulam-se tensões que exigirão mais do que coerência: exigirão capacidade de integrar, dialogar e adaptar.
A questão decisiva não é, por isso, se Dom Virgílio Antunes tem um plano. É se esse plano conseguirá responder à complexidade real da Igreja e da sociedade, ou se ficará limitado a uma ordem que, sendo clara no discurso, poderá revelar-se mais difícil de concretizar na prática. A isto soma-se a pergunta que mais poderá doer a alguns bispos católicos: será a CEP um órgão assim tão importante para a vida da Igreja Portuguesa ou está vetada à insignificância administrativa num país onde parece ser cada vez mais difícil a unidade nacional dos prelados com um único objetivo: a salvação das almas e o bem da Igreja.