Quando morre um fundador, não desaparece apenas um homem. É uma visão que nos interpela, uma herança que nos pede contas. Francisco Carvalho Guerra não fundou apenas a Universidade Católica Portuguesa no Porto. Fundou uma forma de entender a Universidade: uma comunidade de pessoas, um lugar de procura da verdade e uma escola de serviço ao bem comum. É por isso que a sua partida nos convoca, antes de mais, para um exercício de memória, de responsabilidade e não de mera nostalgia.

Muito se escreverá, e justamente, sobre o Professor Catedrático da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, sobre o cientista que marcou a bioquímica portuguesa, sobre o primeiro Bastonário da Ordem dos Farmacêuticos, sobre o homem que fundou a Universidade Católica Portuguesa no Porto, que ajudou a erguer a FAP e sobre as inúmeras distinções nacionais e internacionais que recebeu ao longo de uma vida de exceção.

Eu gostaria, porém, de recordar o homem que conheci na Católica do Porto. O Professor que encontrávamos pelos corredores, que fazia questão de conversar com os estudantes, que aceitava sempre mais uma pergunta e que parecia encontrar nesses diálogos uma das razões de ser da própria Universidade.

Ao procurar as palavras certas para esta homenagem, voltei também a uma entrevista que concedeu, em 2020, ao Diurna, o jornal académico da Escola de Direito da Universidade Católica Portuguesa. Nessa conversa com estudantes deixou, talvez sem o saber, um verdadeiro testamento intelectual. Muitas das suas palavras acompanham este texto, porque ninguém poderia explicar melhor o seu pensamento do que ele próprio.  Mas, enquanto relia essa entrevista, uma memória insistia em sobrepor-se a todas as outras.

Nunca esquecerei um pequeno-almoço que tomei com o Professor Carvalho Guerra, no Bar Central da Católica. Tinha acabado de sair de uma reunião particularmente difícil. Sentou-se sem conseguir esconder a inquietação que trazia consigo. Não era só a decisão tomada que o entristecia, era o receio de que a Universidade pudesse, pouco a pouco, perder a alma que lhe dera origem.

Na altura talvez não tenha compreendido inteiramente o alcance daquelas palavras. Hoje compreendo. Porque ele não falava de uma decisão administrativa. Falava de identidade. Daquilo que faz uma instituição ser verdadeiramente ela própria. Daquilo que não se encontra nos estatutos, nem nos regulamentos, nem nos organogramas.

Para ele, a Universidade nunca foi apenas um conjunto de edifícios, uma sucessão de órgãos de governo ou uma estrutura de ensino superior. Era uma comunidade de pessoas. Um projeto humano. Uma missão. Foi essa a Universidade que sonhou quando regressou dos Estados Unidos, impressionado pela liberdade intelectual que ali encontrara. Na entrevista ao Diurna, recordava o estado do ensino superior português e confessava que quis criar “qualquer coisa que não fosse igual” ao que conhecera entre nós, descrevendo a universidade de então como “um liceu avançado a cair de podre”.  Carvalho Guerra acreditava que a Universidade existia para responder aos grandes problemas do seu tempo. Por isso dizia, com a simplicidade de quem transformara essa ideia numa vida inteira, que “no ensino superior somos obrigados a procurar respostas para problemas graves do país ou do local onde estamos”. Era esta a sua ideia de Universidade: uma Universidade voltada para o país, comprometida com a sociedade e inteiramente centrada na formação da pessoa humana e talvez seja precisamente aqui que encontramos a raiz do seu humanismo cristão e da clara convivência que fazia entre fé e razão.

Quando contou que quis criar uma Faculdade de Direito para formar “homens cristãos”, não estava a falar de pertença religiosa nem de identidade confessional. Estava a falar de consciência. De homens e mulheres capazes de decidir segundo princípios, de compreender que nenhuma competência técnica substitui a integridade moral e que o conhecimento encontra a sua plenitude quando se coloca ao serviço do bem comum. Essa era, para ele, a missão de uma universidade católica. Foi talvez por isso que nunca o ouvi falar da Universidade como quem fala de uma organização. Falava dela como quem fala de uma família. Na entrevista ao Diurna, facilmente se percebe que, antes de ser fundador, cientista ou professor, Carvalho Guerra era marido e pai. A forma como falava da esposa dizia muito sobre o homem. A forma como falava dos filhos dizia ainda mais. Não havia exibição, nem sentimentalismo. Uma ternura discreta, mas guerreira, que lhe fazia jus ao nome.

Dizia: “Éramos uma família (…)” sem subserviência (…) Diziam-me de caras o que estava mal.” Em Carvalho Guerra há toda uma filosofia de liderança. Nunca confundiu autoridade com obediência cega, unidade com uniformidade, identidade com centralização. Talvez seja por isso que impressiona tanto ouvi-lo reconhecer, que essa proximidade “já se perdeu um bocadinho”. Não havia ressentimento nas suas palavras. Havia lucidez.

Os fundadores sabem que as instituições mudam. Sabem que nenhuma obra lhes pertence para sempre. Mas sabem também que há algo que não pode perder-se sem que a própria instituição deixe de reconhecer-se. Foi precisamente disso que falámos naquele pequeno-almoço.

No fim dessa conversa, quase sem darmos por isso, fizemos-lhe uma promessa: “Esses não passarão.” Não era preciso acrescentar mais nada. Hoje, olhando para trás, compreendo que a promessa nunca foi apenas sobre um momento ou sobre uma decisão concreta. Era uma promessa de fidelidade ao espírito da Universidade que ajudou a fundar. Levantou-se então, como tantas vezes fazia, estendeu-nos a mão num cumprimento firme, daqueles que, pela força do gesto e pela imponência da figura, quase nos desequilibravam, sorriu discretamente e seguiu, a passo apressado, em direção ao que viria a ser o seu último gabinete no campus da Foz.

Ainda naqueles anos, por ocasião de uma iniciativa académica, tive o privilégio de jantar na sua companhia, juntamente com o Professor Adriano Moreira e a jornalista Madalena Balça. O jantar antecedia uma conversa pública que teria a responsabilidade de moderar e deveria servir para preparar esse momento. Rapidamente percebemos que isso seria impossível. Adriano Moreira e Carvalho Guerra conversaram como só dois homens da sua estatura intelectual sabiam conversar. Falaram de Portugal, da Universidade, da Igreja, da política, da cultura e das pessoas. Não havia necessidade de impressionar ninguém. Havia apenas dois espíritos excecionais a pensar em voz alta. Os restantes presentes, entre os quais me encontrava, limitávamo-nos ao privilégio raro de escutar.

De facto, a sua grandeza não residia apenas naquilo que sabia, mas na extraordinária amplitude do seu pensamento. Era cientista, mas nunca se deixou aprisionar pela ciência. Era profundamente católico, mas nunca confundiu a fé com fideísmo. Interessava-se pela política, pela cultura sem elitismos, pela educação sem dogmas. Pertencia àquela geração rara de homens para quem o conhecimento era um todo indivisível, porque acreditavam que a verdade não cabe numa única disciplina.

A última imagem que guardo do Professor Guerra na Universidade é, hoje, inevitavelmente simbólica. Vejo-o a sair do gabinete que lhe tinham destinado no edifício do Restauro, caminhando, a passo firme, em direção ao edifício Américo Amorim para almoçar. Era um percurso curto entre dois edifícios. Hoje, porém, não consigo deixar de o ler como a imagem de um discreto exílio. Não do homem, porque a sua grandeza nunca dependeria do lugar onde lhe atribuíssem um gabinete. Mas de uma certa ideia de Universidade que, aos poucos, parecia e teima em parecer afastar-se do centro da vida da instituição.

Os fundadores acabam sempre por ceder o lugar às gerações que lhes sucedem. Assim deve ser. As instituições vivem dessa renovação. Mas há uma diferença profunda entre a sucessão e o esquecimento, entre a mudança e o lento afastamento da memória que lhes deu origem. Francisco Carvalho Guerra compreendia-o melhor do que ninguém. Sabia que uma universidade pode conservar intactos os seus edifícios, os seus estatutos e a sua organização e, ainda assim, correr o risco de perder aquilo que verdadeiramente a sustenta: a sua identidade, a sua cultura e a sua missão.