Está tudo igual. Mas pior. A frase e o pensamento subjacente não são só meus, descobri que os partilho com Houellebecq. Está tudo igual. Mas pior. Os níveis de CO2 crescem e aproximam-se dos valores pré-pandemia. A poluição regressou ao Douro: acabaram-se os banhos. Os números do desemprego aumentam e prevê-se uma crise histórica que escolhemos ignorar enquanto for possível.

Esta emergência que nos forçou a parar, e necessariamente a empobrecer, poderia ter sido também um período de planeamento estratégico – pelo menos de reflexão e discussão onde se perspectivasse outro futuro. Não foi. As alterações que surgirem, surgirão organicamente: se uma empresa pode ter trinta por cento dos funcionários em tele-trabalho sem perda de rendimentos e com redução de custos, terá. Não se contempla a possibilidade de, com esta experiência, reanimar o interior do país, em articulação com o poder central e poderes locais, através de medidas e incentivos que a médio e a longo prazo nos permitiriam desenhar o rosto que queremos dar a Portugal, livre da subserviência ao turismo lowcost. Por exemplo.

Está tudo igual. Mas pior. Rasteiro. Superficial. Esgotaram-se as bicicletas nas lojas para voltarmos a andar de carro. E da morte violenta de George Floyd tudo se aproveita com total permutabilidade de valores. Quando o valor da vida se permuta com o de uma embalagem de amendoins cobertos de chocolate, e com a retirada da palavra “branqueamento” do vocabulário de uma marca de cosméticos, percebemos que ainda estamos no simulacro da mudança. Está tudo igual. Mas pior.

Abro a página de um jornal nacional e aparecem num pop up as fotografia de dez homens e duas mulheres: “Valorizamos diferentes opiniões. Distintos olhares sobre a atualidade”. Distintos?! Oitenta e quatro por cento de soberania residual de séculos de masculinidade. Dezasseis por cento a representar metade da população portuguesa, as mulheres. Enquanto não houver paridade, não pode haver olhares distintos. E a paridade, nestes contextos, vem com o verbo quotizar, conceito horrendo que dá azo ao comentário sobre o mérito. Como se o mérito então exigido aos homens, fosse outro que não o genital. Durante séculos, à mulher, por ser mulher, esteve vedado o acesso a lugares de formação e decisão – universidade, parlamento, forças armadas, conselhos de administração. Por exemplo.

Na televisão pública, paga pelos contribuintes, satisfazem-se os anseios ultraconservadores. A vida da feminista Thérèse Clerc, defensora de direitos que a nossa Constituição prevê, é considerada ofensiva e censurável. Como explicamos isto a uma geração que desejamos plural e inclusiva?

Um dia teremos também de explicar como perdemos tantas oportunidades. Como fomos capazes de criar um futuro penhorado. Está tudo igual. Mas pior.