A crise da habitação continua a marcar o debate político em Portugal, e a resposta de muitos é sempre a mesma: mais controlo, mais limites, mais intervenção. A solução parece simples – travar os preços. Mas se há algo que a realidade nos mostra, dentro e fora do país, é que não se resolve a escassez de casas limitando o valor das que existem.

O verdadeiro problema não é quanto custam as casas. É quantas casas há.
Enquanto se impõem tetos, continuam a faltar tetos para viver.

A ilusão do controlo: quando o remédio agrava a doença

Vários países têm tentado combater a pressão habitacional com limites aos preços – e quase sempre com os mesmos efeitos:

  • menos oferta,
  • menos investimento,
  • mercado mais fechado,
  • e, ironicamente, preços ainda mais altos a médio prazo.

Vejamos alguns exemplos recentes:

Berlim, em 2020, congelou rendas por cinco anos. Parecia uma solução popular e rápida. Resultado?

  • Os senhorios retiraram milhares de imóveis do mercado.
  • A construção desacelerou.
  • O mercado informal cresceu.
  • E quando o Tribunal Constitucional alemão anulou a medida, os preços subiram ainda mais do que antes.

São Francisco, nos EUA, apostou no controlo de rendas há décadas. O resultado foi uma quebra generalizada na manutenção dos imóveis abrangidos, uma redução drástica da oferta e uma inflação acentuada das rendas no mercado não controlado – criando um sistema a duas velocidades, onde a acessibilidade piorou para quem mais precisava.

Mais recentemente, Espanha aprovou tetos às rendas em zonas consideradas de “pressão habitacional”. Em pouco tempo, o número de imóveis disponíveis para arrendamento caiu drasticamente. E os preços, em vez de estabilizarem, subiram.

Viena: o exemplo que funciona — mas não como muitos pensam

Viena é muitas vezes usada como exemplo de sucesso no controlo de rendas. E com razão — mas só quando se conta a história toda:

  • A cidade constrói milhares de casas públicas.
  • O setor público atua para complementar, não para bloquear o setor privado.
  • Há estabilidade regulatória, incentivos à construção e planeamento a longo prazo.

Copiar só o limite das rendas sem copiar o esforço de construção é como tentar fazer um bolo com a receita do recheio, mas sem massa, forno nem forma. No fim, não há bolo. E continuam todos com fome.

A escassez não se controla — resolve-se

O problema da habitação em Portugal não é só o preço — é a falta de casas. E isso não se resolve com limites, mas com:

  • Mais construção e reabilitação;
  • Licenciamentos mais rápidos e simples;
  • Custos de construção e transação mais baixos;
  • Estabilidade nas regras e confiança para quem investe;
  • Justiça mais célere e eficaz, garantindo rapidez na resolução de conflitos entre senhorios e inquilinos;
  • Fiscalidade mais equilibrada no arrendamento, com taxas ajustadas que incentivem contratos justos e duradouros.

A solução está em aumentar a oferta – e isso exige remover entraves e criar condições para construir e arrendar com segurança e previsibilidade.

Portugal não precisa de mais tetos impostos. Precisa de mais tetos reais.

Enquanto o discurso político girar em torno de controlo e contenção, estaremos apenas a empurrar o problema com a barriga – e a empurrar as pessoas para fora das cidades, dos centros e, em muitos casos, do próprio país.

Queremos proteger os cidadãos? Então que se criem condições para que tenham onde viver – com dignidade, com estabilidade e com escolha.

Estabelecem tetos para tudo. Mas continuam sem criar os tetos que realmente fazem falta.

É fácil impor limites. O difícil é construir alternativas.