Todos temos amigos que saíram do país, ou cujos filhos saíram do país, à procura de trabalho. Portugal pode ter sido sempre um país de emigração. Mas desde que esta crise começou e causou o mais recente êxodo, muitos sentem que é injusto que no século XXI, numa altura em que Portugal é um país tão moderno como qualquer outro país da União Europeia, haja gente a ter de emigrar à procura de trabalho.

unnamed

É muito provável que as pessoas tenham de continuar a sair daqui durante muitos anos. Esperemos que voltem e tragam as suas experiências e conhecimentos. Esperemos que possam voltar, se quiserem voltar.

Eu gostava que pudéssemos deixá-las sair sem as obrigar a carregar a terrível bagagem do “é uma coisa abominável o que me está a acontecer”.

Ver os filhos partir para longe é, de facto, uma coisa horrível. Sentimos a falta deles. Preocupamo-nos muito com eles. Eles passaram as suas vidas inteiras connosco e, subitamente, já não estão ao pé de nós. Receio o momento em que irei levar a minha filha mais velha ao comboio ou ao avião para sair daqui. Ainda me lembro do dia em que os meus pais me acompanharam à estação, tinha eu 18 anos (era a idade normal para sair de casa na Grã-Bretanha, naquela época). As minhas lágrimas e soluços eram insuportáveis. Ver as lágrimas da minha mãe quando o comboio saiu da estação foi ainda pior.

Quando somos nós a sair do país, a experiência pode ser emocionante, mas é também assustadora, porque estamos prestes a tornar-nos num estrangeiro, um estrangeiro de verdade, provavelmente pela primeira vez na nossa vida.

Já todos passámos pela experiência de nos sentirmos estrangeiros, nem é preciso sair do nosso país para nos sentirmos assim. Quem já saiu da sua zona de conforto, já se sentiu temporariamente estrangeiro. Uma pessoa que cresceu no Sul da Inglaterra e se muda para o Norte, sente-se estrangeiro. Uma pessoa que vai ao estrangeiro de férias, sente-se estrangeira enquanto está no estrangeiro (a não ser que essa pessoa seja uma amiba).

Mas uma visita a Manchester ou quinze dias em Maiorca não têm os mesmos efeitos que sair do nosso país para ir viver noutro.

Sentirmo-nos mesmo estrangeiros é o que acontece quando vivemos num sítio e percebemos que não lhe pertencemos. Tudo é diferente, desde a formiga mais microscópica até ao monumento mais gigantesco. Não percebemos a razão por que as pessoas dizem certas coisas, mesmo quando já aprendemos a língua razoavelmente. Até podemos conseguir comunicar um conceito bem complexo na nova língua, mas naquela pequena cavaqueira engraçada à mesa do café há muita coisa que nos escapa. Sentimo-nos desesperadamente sozinhos quando ficamos excluídos do tipo de conversas que começam com “lembras-te quando…?”. Carregamos uma vida inteira de história não-partilhadas. Não é assim surpreendente que os estrangeiros tendam a reunir-se, quando estão no país que não é deles. Podem comungar no facto das suas histórias não-partilhadas.

Passados uns tempos, começamos a habituar-nos às coisas novas, mas elas nunca serão nossas. Estaremos sempre de fora. Nunca faremos parte deste sítio, e ninguém nos vai deixar fazer parte.

E depois, quando voltamos à nossa terra, mesmo que seja apenas um ano mais tarde, tudo de repente parece mudado. As pessoas, as ruas, o céu, as formigas e os monumentos. Umas coisas mudaram enquanto estávamos fora, sem nos pedir licença; outras coisas não mudaram nada, mas nós vemo-las de maneira diferente; e há outras coisas ainda em que nunca tínhamos reparado antes, coisas estranhas e aleatórias, como a maneira das pessoas reagirem quando nós contamos uma anedota, ou o modo como os passeios são pavimentados. A história que partilhamos com as pessoas no nosso país — a TV, as festas, os acontecimentos nas notícias — tem um buraco do tamanho de um ano. Não estávamos lá.

E de repente, percebemos esta coisa tremenda: tornámo-nos um estrangeiro também no nosso país, vamos ser sempre estrangeiros, pelo resto da nossa vida, seja onde for no mundo. Não só pelo que perdemos devido à ausência do nosso país natal, mas também pelo que adquirimos durante a estadia no novo país em que agora vivemos. A combinação dessas perdas e desses ganhos faz de nós uma pessoa diferente das outras — um estrangeiro em toda a parte.

Ao princípio, doí. Sentimo-nos isolados, separados de tudo e de todos. Até percebermos que já podemos ir a qualquer sítio e fazer qualquer coisa sem nos sentirmos assustados ou esquisitos. Sentir-nos-emos apenas estrangeiros, nada mais. Uma vez que ser estrangeiro é a nossa nova condição para toda a vida, também é a nossa normalidade.

Sair do país não é uma tragédia. É difícil, pode ser doloroso, mas não é uma tragédia. Sei que é assim, porque já passei por isso. Houve sempre emigração e haverá sempre. Temos de aprender a viver bem com isso.

(traduzido do original inglês pela autora)

 

A foreigner everywhere 

We all have friends who have left the country, or whose children have left the country, to find work. Portugal may always have been a country of emigration, but this time, since this crisis began and caused the latest large outward flow of people, it feels to many as if it’s unjust for these times we live in, for the twenty first century, for a time when Portugal is as modern a country as any other in the European Union, for people to have to leave to find work.

People will probably continue to have to leave for many years to come. Let’s hope they come back and bring their experience and knowledge back with them. Let’s hope they can come back, if they want to.

I wish we could let them go without giving obliging them to carry that terrible baggage that this is a bad thing that his happening to them.

Putting your kids out there in the world is a horrible thing to have to do. You miss them. You worry about them. You have lived with them their whole lives, and suddenly, they aren’t there. I dread the moment I will stick my eldest on a train out of here. I still remember the day my parents put me on a train when I was 18 (18 is the norm in Britain, at least, it was then). My own sobbing, gasping tears were unbearable. The sight of my mother’s tears as the train pulled out was even worse.

If it is you doing the leaving, it can be exciting but it is daunting, terrifying, because you are about to become a foreigner, properly a foreigner, probably for the first time in your life.

Feeling foreign is something we’ve all been through, it doesn’t require leaving your own country to feel like that. If you’ve ever left your comfort zone for a day, you have felt temporarily foreign. If you grow up in the south of England you feel like a foreigner if you travel to the north. If you go abroad on holiday, you feel foreign while you are there (unless you are an amoeba).

But a day’s sojourn to Manchester or a fortnight in Mallorca don’t have the same lasting effects as leaving your own country to live in another.

Feeling properly foreign is what happens when you live in a different place and realise that you don’t belong. Everything is different, from the tiniest ant to the tallest monument. You don’t understand why people say certain things, even if you have learned the language. You might be able to explain a complicated concept in the new language, but those little bits of funny small talk you might make to a stranger in a café, they fail you. You feel desperately lonely when you can’t join in with the  “remember when…?” conversations. You have a whole lifetime full of unshared history. It is no wonder that foreigners tend to find each other. They can share the fact of their unshared history.

After a while, you start to get used to things, but they will never be yours. You will always be an outsider in that place. You will never be from there, and no one will ever allow you to be.

Then, when you return to your homeland, it might just be a year later,  everything looks different. The people, the streets, the sky, the ants and the monuments. Some things have changed while you were away, without asking your permission first, some things haven’t changed at all, but you see them differently, and there are some things you never even noticed before, odd, random things like how people respond as you tell them a joke or how pavements are made. Your shared history with people at home, the TV, the parties, the goings on in the news to react to, has a year sized hole in it. You weren’t there.

And all of a sudden, the terrible realisation hits you square between the eyes. You are now a foreigner at home, that you will always be a foreigner, for the rest of your life, wherever you go. Not only have you missed things happening in your homeland, you have gained other things from your new home. It makes you a different person, a foreigner everywhere.

At first it hurts, you feel detached from everywhere and everything, until it dawns on you that you can go anywhere and do anything and it won’t be scary or weird. It will just feel foreign, and as that is now your lifelong condition, it’s your normality.

Leaving the country is not a tragedy. It’s difficult, it can be very painful, but it’s not a tragedy. I know, because I’ve been through it. Emigration has always happened and it always will. Can’t we embrace it?