Foi-me pedido que partilhasse a minha visão para o Portugal dentro de uma década. Não tenho exactamente uma visão para o país. Mas tenho, pelo menos, dois sonhos.
O primeiro é que o sistema educativo se liberte de vez das amarras ideológicas que o asfixiam e possa assumir-se, finalmente, como o ascensor social de que Portugal tanto necessita. O segundo é que a investigação científica possa assumir-se também como motor da inovação tecnológica e tenha impacto significativo no tecido produtivo.
Começando pela Educação. Será necessário fazer alguma história. No virar do século XX para o XXI, os estudos internacionais TIMSS e PISA puseram a nu as enormes deficiências do nosso sistema educativo. A partir do virar do século houve um verdadeiro pacto de regime não-escrito para a Educação, atravessando governos de diferentes cores políticas, no sentido de tornar o sistema mais exigente, rigoroso e mensurável.
Assim, desde 2001 foram reformados os curricula escolares tornando-os mais exigentes e centrando-os nos conteúdos, estabelecidas metas de aprendizagem por ciclo, introduzidos exames nacionais de final de ciclo (4º, 6º e 9º anos) e instituída a acreditação de manuais escolares. O resultado foi espectacular: os resultados nos testes internacionais foram crescendo de forma sustentada, até que em 2015 Portugal se situou no topo da tabela dos países da OCDE, ultrapassando por exemplo a sempre tão citada Finlândia – e sendo apontado internacionalmente como um caso de sucesso a estudar.
Como recentemente foi tornado público, nove anos depois os resultados dos testes internacionais foram desastrosos e revelaram um retrocesso tremendo, colocando Portugal praticamente nos níveis de há um quarto de século.
Este facto só pode surpreender quem não tenha acompanhado o processo. De facto, desde 2015 o sistema laboriosamente instalado para estabelecer rigor e exigência foi rapidamente desmantelado pelo Ministério da Educação. Logo em 2015, por mero comércio político e sem qualquer fundamentação pedagógica, foram eliminados os exames do 4.º e 6.º anos. As metas de aprendizagem foram substituídas em 2016-17 por umas mal definidas “aprendizagens essenciais”, diminuindo na prática os conteúdos lectivos em cerca de 25%. Finalmente (e aqui me refiro especificamente à Matemática) os programas sólidos e consistentes foram efectivamente substituídos por algo a que Elon Lages Lima chamava a “sopa rala da Educação”. Sempre em nome da “modernidade”, claro.
Em Educação os resultados não são imediatos: demoram anos ou décadas a fazer-se notar. Uma década depois deste processo de desconstrução, o que verificamos? Temos uma escola que ensina menos, que ensina pior e que não tem forma real de medir os resultados. As consequências, essas, são indisfarçáveis, pois felizmente temos o mecanismo de controlo externo dos testes internacionais.
Este é então o meu primeiro sonho para a próxima década: que o nosso país saiba inverter este processo dissolvente que teve como efeito o retrocesso de um quarto de século na eficiência do nosso sistema educativo. O que há a fazer é, num certo sentido, muito simples: reintroduzir a exigência, reintroduzir a avaliação, recusar o facilitismo. Como dizia Tony Blair, “it’s back to basics”. Não há bala mágica, não há segredo nenhum.
Mas não há tempo a perder. Os alunos de hoje acabam o 4.º ano com pior preparação do que os de há uma década e, se nada fizermos, chegarão à Universidade mais mal preparados do que os que hoje chegam. Temos de começar a reformar a Educação hoje para ter resultados daqui a dez anos. Só uma Educação exigente, rigorosa e mensurável pode cumprir o seu desígnio de funcionar como ascensor social e proporcionar um futuro melhor aos nossos jovens – e a toda a sociedade.
O segundo sonho diz respeito ao papel que a Ciência e a investigação científica podem desempenhar em Portugal. A evolução do papel da investigação científica, sobretudo em áreas ditas das ciências básicas (Matemática, Física, Química…) tem sido extraordinária ao longo das últimas décadas. Especificamente, na minha área (Matemática) temos verificado uma espécie de lei de Moore: o número de artigos de investigação publicados por matemáticos portugueses tem aproximadamente duplicado em cada década. Isto significa uma evolução exponencial (termo utilizado aqui com toda a propriedade!): em 2024 os matemáticos portugueses (ou em universidades portuguesas) publicam trinta a quarenta vezes mais do que há cinquenta anos. Embora não disponha de dados concretos, noutros domínios científicos esta evolução explosiva foi semelhante.
No entanto, é um pouco surpreendente verificar como esta explosão na actividade de investigação científica ficou longe de ter um impacto proporcional nos domínios da inovação tecnológica e da ligação com o tecido produtivo. É certo que há algumas explicações que concorrem para este cenário: por exemplo, a nossa indústria de base é sobretudo reprodutora e não inovadora; e não existem muitas grandes empresas de base científica e tecnológica nas quais o processo de investigação aplicada possa ser transformativo e, portanto, que estejam dispostas a nele investir.
Sejam quais forem as razões, o facto é que Portugal continua a ter um atraso grande entre a quantidade de cientistas de qualidade que forma e aqueles que o tecido empresarial está disponível para fixar na qualidade de investigadores. Muitos destes cientistas, alguns de grande qualidade, acabam por emigrar para pastagens mais verdes ou por se fixarem em actividades não relacionadas com a formação avançada e especializada que tiveram. Em qualquer dos casos é uma perda para o país.
Este é um desafio e, simultaneamente, uma oportunidade, pois o cenário pode estar a mudar de forma decisiva. Para dar um exemplo concreto, começou a dinamizar-se no nosso país uma área de interface entre a Matemática e a indústria, conhecida precisamente por Matemática Industrial, cujo objectivo é colaborar em problemas de investigação aplicada, fazendo hoje parte da rede europeia de Matemática Industrial.
Por outro lado, os desafios globais que se vão colocar ao longo da próxima década têm uma base científica e tecnológica muito intensiva. Questões como as alterações climáticas, a transição energética, a indústria 4.0 ou a inteligência artificial, que estarão no topo da agenda global, conduzem inevitavelmente a problemas knowledge-intensive, onde a experiência e a prática de investigação científica são a chave para o sucesso.
Este é um segundo sonho para Portugal na próxima década. Numa altura em que vamos enfrentar grandes desafios, temos de estar preparados para apanhar este comboio que já está em andamento. A ciência e a investigação científica têm de funcionar como um pilar para o desenvolvimento.
Há muito a fazer: o investimento em ciência tem de ser aumentado e, sobretudo, sustentado; é necessário reduzir a burocracia, simplificando processos de financiamento e gestão de projectos (também necessário a nível europeu); e é necessário melhorar as condições de trabalho e carreira para investigadores.
Este é o meu segundo sonho: que, nos próximos dez anos, Portugal saiba consolidar a Ciência como um dos pilares do desenvolvimento, reforçando o seu papel na construção de uma sociedade mais próspera, sustentável e inovadora.
Jorge Buescu é professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Vice-presidente da Sociedade Europeia de Matemática, foi presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática e recebeu, no final do ano passado, o Grande Prémio Ciência Viva 2024. É membro do Clube dos 52, uma iniciativa no âmbito do décimo aniversário do Observador, na qual desafiamos 52 personalidades da sociedade portuguesa a refletir sobre o futuro de Portugal e o país que podemos ambicionar na próxima década.