Está em cena a ópera-rock “Fátima”, mais uma excelente produção de Filipe La Féria, no Teatro Politeama, em Lisboa. Um muito interessante musical que não só evoca as aparições marianas de 1917, na Cova da Iria, como recria o ambiente daquela conturbada época da nossa história, em que a recente República tentou desacreditar esse acontecimento sobrenatural.
No texto do Programa deste musical, lê-se: “FÁTIMA – Ópera-Rock, não é apenas um espectáculo, é uma reflexão profunda sobre Portugal, a sua história, e a dimensão cultural, espiritual e humana que projetam o nosso país no mundo, tocando pessoas de todos os continentes e religiões. Inspirado nos acontecimentos de 1917, na Cova da Iria, onde três crianças foram o centro de um fenómeno que ecoou universalmente. O espectáculo não se limita a uma reconstituição ficcional das aparições de Fátima. Trata-se de uma visão do ser humano, do encontro e da encruzilhada das gentes, da hierofania que manifesta o sagrado no profano. O real e a investigação sobre este fenómeno extraordinário são apenas o ponto de partida para uma narrativa onde o lirismo espiritualiza cada momento sem cair no dilema maniqueísta da verdade e da mentira. Nossa Senhora, mãe de todas as mães, surge como símbolo da esperança universal, da protecção e do amor incondicional, resgatando as dores do mundo e oferecendo aos peregrinos a essência da Fé.”
É talvez excessivo atribuir a um mero espectáculo a consistência de uma “reflexão profunda sobre Portugal, a sua história, e a dimensão cultural, espiritual e humana que projetam o nosso país no mundo, tocando pessoas de todos os continentes e religiões”, mas não há dúvida de que o que aconteceu em Fátima, em 1917, foi o facto mais importante do século XX português. Graças a essas aparições, quatro Papas – S. Paulo VI, S. João Paulo II, Bento XVI e Francisco – peregrinaram à Cova da Iria, assim como milhões de fiéis de todo o mundo.
Para La Féria, “Lúcia, a menina que vê o que se oculta, carrega o peso das dores humanas e a força das visões que se tornariam o centro de um dos maiores mistérios da Fé católica.” Fátima não é “um dos maiores mistérios da Fé católica”, porque estas revelações não fazem parte do depósito da fé. Mas é verdade que estas aparições são de uma riqueza teológica ímpar, porque evocam quase todos os principais mistérios da fé cristã: a Santíssima Trindade, a Eucaristia, a devoção ao Imaculado Coração de Maria, a união com o Santo Padre, a necessidade da oração e do sacrifício, o Céu, o inferno e o purgatório, a urgência da conversão pessoal para alcançar a paz no mundo, etc.
Para além dos videntes, outras personagens cativaram Filipe La Féria, como ele próprio testemunha: “Na descoberta da história de Fátima, encantei-me com personagens de uma profundidade avassaladora: Maria Rosa, Maria da Capela, Olímpia, Manuel Marto, António, o Abóbora – figuras que representam os vencidos e humilhados pelas dores do mundo, mas também a resistência dos pobres camponeses que lutam pela sobrevivência na terra madrasta e seca”. Maria Rosa e António dos Santos, o Abóbora, eram os pais da Lúcia, enquanto Olímpia e Manuel Marto eram os pais dos outros dois videntes, os já canonizados São Francisco e Santa Jacinta. Maria da Capela, mãe de um deficiente que se supõe miraculado da Senhora de Fátima, foi a grande impulsionadora da construção do primeiro memorial das aparições – um simples arco de madeira – a que se seguiu a primitiva capelinha, pela qual esta primeira devota foi popularmente conhecida, e que seria depois dinamitada pela Carbonária.
Filipe La Féria menciona também “o administrador de Ourém, Artur de Oliveira Santos, o republicano idealista e figura controversa, militante da Carbonária e membro da Loja Maçónica Acácia, de Lisboa.” Na sua apreciação do administrador de Ourém, cognominado o Latoeiro, Filipe La Féria, talvez por ser sobrinho-neto de Ramon La Féria, conhecido republicano da velha guarda e “grande oficial das relações litúrgicas” da Maçonaria, não esconde uma certa simpatia pelo grande inimigo de Fátima.
Com efeito, é com exagerada benevolência que assim retrata o prepotente Oliveira Santos: “Herói e vítima, injustamente remetido ao papel de algoz da narrativa de Fátima. Se o seu radicalismo o fez levar a perigosas consequências, o seu amor à Liberdade e à transformação do Homem Novo permaneceram puros e coerentes na aventura de uma vida intensa e fiel aos mais nobres valores do progresso.” Na verdade, o Latoeiro não foi um herói, nem muito menos vítima, e o seu radicalismo, fanático no seu brutal anticlericalismo, fez dele o principal adversário das aparições. Os seus ‘ideais’ foram o pretexto para a impiedosa perseguição que moveu contra as três crianças que, apesar da sua pouca idade, foram vítimas da sua prepotência, a que até a mulher dele, Idalina, se opôs, por uma questão da mais elementar humanidade. O iníquo administrador emigrou depois para Espanha, onde combateu do lado dos republicanos, terminando a sua medíocre existência em Madrid, como vendedor ambulante de gravatas. Embora no Programa esta triste personagem apareça relativamente reabilitada, na peça surge de forma mais fidedigna, como a expressão da intolerância anticlerical da Maçonaria de então e de agora.
Outra imprecisão histórica é a que respeita ao Bispo de Leiria, pois diz-se, no Programa, que é uma “personagem principal”, por ser quem “inicia o processo canónico que levará Fátima a ser o altar do Mundo.” Na realidade, em 1917, nem sequer existia a diocese de Leiria, que só foi restaurada a 17-1-1918, pelo que as primeiras averiguações couberam ao patriarcado de Lisboa, a que na altura pertencia canonicamente a paróquia em que ocorreram as aparições. Também não é verdade que os pastorinhos foram interrogados pelo Bispo de Leiria, que não existia, nem pelo Patriarca de Lisboa, que era então o seu Bispo. No entanto, é muito oportuna a forma como se manifesta a atitude de inicial reserva das autoridades eclesiais pois, como muito bem sentenciou, anos mais tarde, o Cardeal Cerejeira, “não foi a Igreja que impôs Fátima, mas foi Fátima que se impôs à Igreja.”
Na impossibilidade de ressaltar a magnífica prestação de todos os actores, refiram-se apenas as excelentes actuações de Paula Sá, como mãe da Lúcia; de Pedro Bargado, no papel de administrador; e de duas personagens fictícias: João Frizza, o Bazófia, e o jovem Martim Costa, aliás Paneirinho. Foi acertada a opção pela não representação de Nossa Senhora, que dificilmente seria feita com a necessária dignidade, mas menos conseguida a actuação do Anjo da Paz, de gosto discutível, bem como a do Bispo de Leiria e a dos Padres Ferreira, pároco de Fátima em 1917, e Formigão que, sob o pseudónimo de Visconde de Montelo, foi o primeiro clérigo a defender publicamente a autenticidade sobrenatural do acontecimento, pois parecem muito arrogantes e usam, indevidamente, um adereço episcopal: a cruz peitoral. Também peca por uma ridícula artificialidade a Baronesa de Alvaiázere, numa malograda tentativa, decerto muito republicana, de caricaturar a velha nobreza titular.
A ópera-rock “Fátima” não é, decerto, uma reconstrução histórica das aparições da Cova da Iria, nem, em sentido próprio, uma catequese, mas um excelente musical que, como muito bem escreveu Filipe La Féria, na primeira página do respectivo Programa, prova que “A nossa força, a nossa fé ninguém pode destruir.”