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26 de junho de 2014. A seleção portuguesa acabara de ser eliminada do Mundial de futebol e as réplicas de um terramoto previsível e anunciado faziam-se notar: uma equipa desagregada, às turras, conflituosa e sem rumo, com dificuldade em encontrar um horizonte amplo e definido, as vitórias estavam a tornar-se cada vez mais escassas, tal como o aparecimento de uma geração consistente de jogadores (jovens e não só) e os estreitos alicerces de uma seleção que outrora tinha feito um excelente campeonato da Europa, em 2012, haviam sido quebrados. Se em 2012 houve um milagre meritório de Paulo Bento, da sua equipa técnica e dos seus jogadores (Portugal dominou a poderosa Espanha apesar da derrota), em 2014, as condições para que novo acontecimento histórico se realizasse não estavam reunidas. O resultado foi este – uma seleção em cacos, com mais um treinador demitido, sem líder, sem esperança e com pouca matéria prima.

Até que, no dia 23 de setembro tudo mudou. E melhorou muito. E continua a melhorar.

Fernando Santos foi anunciado como novo selecionador nacional e foi escolhido para ser o rosto de um novo projeto que precisava de uma verdadeira revolução. Não foi a única mudança, é certo. A construção da Cidade do Futebol coincidiu com o seu aparecimento e as gerações de miúdos talentosos começaram a sofisticar-se, oriundas de um trabalho sério realizado nas camadas jovens. É também verdade que a Federação Portuguesa de Futebol repensou a sua estratégia, reforçou-se financeiramente, estruturalmente, e tornou-se numa base sólida para um futuro mais risonho. Mas como em tudo na vida, ter os ovos mais caros, da melhor marca, não é condição suficiente para se fazer omeletes. Eu que o diga – há anos que tenho ovos no frigorífico e, por mais que tente, as omeletes que faço desfazem-se, ficam salgadas, sensaboronas, queimam-se, enfim, nem os utensílios do último grito da moda me safam de estragar uma obra de arte culinária.

E, ao contrário de mim, Fernando Santos olhou para aquilo que tinha e com isso concebeu e idealizou um exemplar excelente daquilo a que se pode chamar de equipa de futebol. Desabrochou oriundo de epopeias helénicas e, ora sorridente, ora carrancudo, fez o papel de Ulisses numa mais recente epopeia ao estilo bem português de Camões.

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Para aqueles que a cada derrota dramatizam sem razão e lançam farpas imensamente injustas; para aqueles que a cada derrota dizem que o engenheiro é o pior treinador que Portugal poderia ter escolhido para o cargo; para aqueles que a cada derrota reclamam, dizendo que o treinador não tem mãos para uma geração tão talentosa; para aqueles que por cada jogo menos bem conseguido referem que Portugal só sabe defender; para aqueles que criticam o conservadorismo do selecionador nacional; e para aqueles que a cada vitória prosam nos jornais e nas redes sociais sobre a sorte que o treinador tem, gostaria de, poupando as pessoas aos meus parcos argumentos, apresentar alguns factos, visto que é a única coisa na qual se acredita hoje em dia:

  • Fernando Santos é o único treinador da história da seleção portuguesa que conquistou títulos. O único.
  • É o treinador com mais vitórias de sempre na seleção.
  • É dos treinadores com maior média de golos marcados na história de Portugal (2,08).
  • Converteu uma seleção “outsider” numa seleção sempre favorita para vencer todos os jogos.
  • Foi um dos responsáveis por unir um grupo outrora pejado de conflitos (Ricardo Carvalho, Bosingwa, Ronaldo, etc…), mostrando toda a sua capacidade de liderança. Não se conhecem casos de atrito entre jogadores desde que assumiu o comando da equipa.
  • Está a nascer durante a sua vigência uma das melhores seleções nacionais de sempre e talvez a mais equilibrada a nível quantitativo e qualitativo. Além disso, tem sabido aproveitá-la.
  • É dos treinadores que mais jogadores estreou e utilizou na equipa A (são tantos, que não vale a pena nomear).
  • Após conquistar o Euro 2016, tem trabalhado para mudar o estilo de jogo da seleção, tornando-a mais ofensiva e adaptando-se a um naipe de jogadores capaz de interpretar as suas ideias. Atualmente, Portugal tem mais posse de bola, oportunidades de golo, presença no meio campo adversário e pressiona os adversários em zonas mais adiantadas do campo. Por essa razão é temido por todos.

Este não é um texto de endeusamento do Fernando Santos, pessoa que, como se percebe, muito admiro, mas que, como é evidente, tem defeitos. É um texto para tentar contrapor com a mínima justiça e verdade aquilo que se disse e tem dito acerca de um treinador que não merece que se minta ou se dramatize, apenas porque se deseja criticar ao mínimo desaire. A crítica é legítima e eu próprio já a fiz em sede própria, quando considerei que merecia ser feita. A injustiça, essa, é enganadora, deselegante, ingrata e não reflete a realidade. É que, para dramas, já basta a Covid, não precisamos de um discurso catastrofista, incentivado por muitos, em relação a uma seleção e a um treinador que raramente perdem um jogo.

P.S.: O valor de uma equipa ou de uma pessoa não se reflete apenas nos resultados. Se assim fosse, não teria sido necessário escrever este texto, visto que Portugal quase só sabe ganhar.