Depois de termos acertado nas projecções da trajectória de contágios (contra as afirmações da DGS) e de termos publicado que a melhor solução é a imunidade de grupo com três recomendações de políticas de saúde, vários dias antes da Comissão Europeia as ter publicado, achamos que devíamos trazer a público as nossas recomendações para ajudar o debate e resolver esta pandemia mais eficaz e eficientemente.

O contexto actual é o seguinte:

  1. O contágio não parou, só abrandou. Ainda bem que abrandou, mas não evitou os actualmente mais de 20 mil casos activos de Covid;
  2. A economia parou para abrandar o contágio, o que gerou restrições no dia-a-dia das nossas vidas e vai gerar mais desemprego e falências a cada dia que está parada;
  3. O Estado está a emitir dívida para injectar na economia, mas dado que a economia está parada, não se está a reactivar o ciclo económico. Este aumento do endividamento das empresas e do Estado compromete o longo prazo;
  4. O custo humano de isolamento está a começar a demonstrar-se: depois de quase mês e meio de isolamento, há cada vez mais quem prefira arriscar ser contagiado a continuar em isolamento, especialmente depois da controvérsia do 25 de Abril, em que o governo saiu descredibilizado.

Portanto, se ganhámos a primeira batalha com o “fique em casa”, mantendo-o, vamos perder a guerra. O relógio está a contar. Temos de ser cautelosos e precisamos de ações e medidas acertadas e rápidas. Se houver uma jogada política que ao mesmo tempo minimiza as fatalidades desta pandemia e relança a economia, devia ser tomada. Claro que ninguém contradiz isto, mas como estes dois vectores são sempre ilustrados como antagónicos, a pergunta é: como é que se faz isso? E a resposta é: usando a fragilidade do nosso adversário contra ele. Criar imunidade de grupo a partir das pessoas que, sendo infectadas, têm menores taxas de mortalidade. As boas notícias são que, felizmente, há uma hipótese.

Usar o forte para proteger o frágil

A solução não pode passar por evitar contágios (já passámos há muito essa fase), mas sim em minimizar mortes. A imunidade de uma pessoa não é importante só para si, é importante para aqueles à sua volta, porque quebra cadeias de transmissão. Como os estudos demonstram com clareza, a taxa de fatalidade é superior nas faixas etárias mais elevadas, e, por norma, em doentes com co-morbilidades (várias doenças) e quadros clínicos mais complexos. Assim sendo, como a vacina não vai chegar em tempo útil (e será apenas preventiva e não de tratamento), a exposição da população de faixas etárias mais baixas e menos susceptíveis, permite criar uma população resistente e que não transmite, evitando mortes da população com maiores taxas de fatalidade.

Quando a luftwaffe bombardeava Londres na Segunda Guerra Mundial, os ingleses fizeram algo semelhante: enviaram as crianças para famílias de acolhimento no campo. Mudando o contexto e aplicando o bom princípio, devemos isolar os frágeis, defendendo-os através dos fortes, só que agora os frágeis são os mais velhos e imunodeprimidos. Há uma dificuldade técnica desta estratégia: “Então quem vive com pessoas que são grupos de risco?” E também há uma solução de primeira linha: “utilizar as famílias e redes próximas”. Ou seja, deixar essas pessoas isoladas por poucos mais meses e, expor quem pode.

Por exemplo: Um rapaz de 16 anos e a sua irmã de 14, que vivem com os pais de 53 e 60. Passam uma temporada em casas de primos mais velhos ou de tios mais novos ou de amigos. E “quem não tem família nem redes próximas?”. Aqui é que entra o papel e ajuda do Estado coordenando e disponibilizando recursos e soluções para agilizar estes isolamentos. Combinando o património imobiliário do Estado com fundos para o efeito, podem-se encontrar soluções para permitir alojamento de curto prazo. Os sectores de hotelaria e turismo, que estão parados, poderão também suportar o Estado na criação de soluções conjuntas. É perfeito? Não. É necessário? Sem dúvida.

E depois como sabemos quando podemos voltar? Testes serológicos: direcionar recursos do Estado para preparar certificação imunológica. Não é cedo de mais. É exatamente o momento certo. É altura de mobilizar recursos e parcerias públicas e privadas para garantir o acesso a estes testes. Estes são tempos novos. É altura de alterar a estratégia para adquirir imunidade de grupo combinar tácticas diferentes. Não existem táticas perfeitas e requerem ajustes. Mas uma coisa é certa: uma táctica sem estratégia é mais de meio caminho andado para um completo falhanço.

Abrir um sector de cada vez nem resolve e nem salva vidas

O que o governo anunciou até à data, foram políticas para abrir um sector de cada vez e com muitas restrições (por exemplo, de lotação). Isso, na nossa opinião, apesar de parecer cauteloso, é um erro. Nem protege os mais frágeis nem relança a económica em tempo útil. O vírus irá infetar pessoas independentemente do sector onde trabalham. Tomando como exemplo o caso defendido pelo governo: cabeleireiros. Imaginemos uma cabeleireira de 62 anos. É uma faixa etária vulnerável. Vai ser exposta? Se se disser que sim, é um erro porque é de uma faixa etária frágil. Se se disser que não, chegou à conclusão a que nós chegámos: o que interessa é proteger a pessoa, não sector.

Portanto, o que é que vale a pena fazer? Abrir toda a economia (em vez de um sector de cada vez, porque a economia funciona como um todo), expondo quem resiste e isolando quem é frágil. E há mais uma boa notícia, é que em Portugal estão a ser desenvolvidos testes preditivos da reação imunitária para triagem válida mesmo para a população com baixas fatalidades que são Covid positivos. Empresas como a Biosurfit encontram-se a trabalhar neste tipo de testes. Apoiar iniciativas destas que criam soluções preditivas da doença em casos infetados devem fazer parte da agenda de abertura da economia por minimizarem ainda mais as fatalidades. Se se tomarem estas medidas, consegue-se o segundo pilar que é o relançamento real da economia. É para isto que o governo deveria estar a direcionar os recursos que tem.

Evitar o pior dos três mundos

Ainda no tópico “recursos do governo”, há um cenário que se quer evitar a todo o custo, quer se acredite que vamos ter austeridade quer não (apesar de parecer inevitável). É o cenário do “pior dos três mundos”: (1) Ter uma segunda vaga descontrolada que infecta a população frágil que morrerá dela, (2) ter uma paragem económica desnecessariamente prolongada que deprime a economia e (3) aumentar a dívida pública e das empresas numa economia deprimida, pondo em causa a sustentabilidade de financiamento do Estado a longo prazo. Isto foi o que causou a entrada da Troika, há uns anos. E não, o cenário de falência nacional não está fora da mesa, por muito que o Primeiro Ministro o diga irrefletidamente no Parlamento.

Não existem muitas outras alternativas para minimizar estes impactos. Precisamos de (1) reabrir a economia através da população mais resistente, tão depressa como possível, com base em critérios focados na população e não em setores e (2) controlar a segunda vaga de contágio para população resistente através do investimento continuo nos testes de diagnóstico, serológicos e preditivos, evitando assim o descontrolo do contágio e aumento das taxas de mortalidade.

“Se eu fosse o governo era isto que eu faria”… Mas para fazê-lo, é preciso abandonar o discurso de medo e inação (que, para além de falso, já nem resulta) e passar ao discurso da coragem e da acção. Há uma guerra para lutar e é para ganhar! Isso é que será o verdadeiro milagre português!