Acredito que, na essência do ser humano, reside uma força que o impele para o bem. Apesar do véu que oculta o horizonte da história, a tendência original da humanidade é para a bondade, para a fraternidade e para a construção de pontes. A esta convicção chamo-lhe Esperança.
Contudo, a Esperança de que falo não é a espera passiva e inconsequente, mas a atitude de “ir atrás, construir, não desistir, […] levar adiante, juntar-se com outros para fazer de outro modo”. Ou seja, “Esperançar” (Paulo Freire – “Pedagogia da Esperança”).
Mas este Esperançar tem que ser despertado, cultivado e guiado. E, para isso, são necessários líderes que não apenas falem sobre dele, mas que o encarnem, que façam da sua vida um testemunho disso mesmo.
O Papa Francisco é um desses líderes. Desde o primeiro instante do seu pontificado, optou por liderar pelo exemplo: recusou símbolos de poder, escolheu a simplicidade, aproximou-se dos pobres, dos invisíveis e dos marginalizados. As suas ações — tão simples quanto (r)evolucionárias — tocaram corações além das fronteiras da Igreja Católica, inspirando crentes e não crentes a redescobrirem a força transformadora da ternura e da humildade.
Quem pode esquecer lava-pés aos reclusos? Ou a sua primeira viagem – urgente! – a Lampedusa? Ou os abraços e beijos calorosos aos doentes, às pessoas com deficiência, às pessoas sem abrigo e a tantas outras vítimas de exclusão? Ou a afirmação de fraternidade com as outras religiões? Ou ainda as suas palavras incansáveis a favor da paz, da justiça social e do cuidado com a casa comum?
Através de pequenos e grandes gestos, Francisco recordou-nos que a liderança verdadeira é aquela que serve e que cuida.
Os grandes líderes distinguem-se, precisamente, pela capacidade de, assim, tornarem visíveis os invisíveis. Com a sua atitude de serviço e cuidado, fazem emergir à luz aqueles que a sociedade tende a esquecer (e a esconder). E é nesse gesto de reconhecimento e de amor que mobilizam o melhor da humanidade. Não são precisas estratégias complicadas, mas apenas gestos simples — ao alcance de todos — que carregam uma força transformadora imensa. A simplicidade, quando nascida do amor, tem o poder de mudar o mundo.
À semelhança de Nelson Mandela, Madre Teresa de Calcutá ou Mahatma Gandhi, o Papa Francisco mostra como uma só pessoa, com coragem, autenticidade e empatia, pode dar Esperança à humanidade. Nunca pela força das armas ou pela imposição do medo, mas pela força do exemplo.
Vivemos um tempo marcado pela complexidade, pela fragmentação e pelo desencanto. Por isso, mais do que nunca, o mundo precisa de líderes servidores e inspiradores — líderes capazes de agir a partir do seu contexto e dos próprios sistemas a que pertencem.
O futuro da humanidade depende da coragem de quem, como o Papa Francisco, escolhe todos os dias caminhar na direção do bem comum, confiando que, mesmo nas noites mais sombrias, a luz da Esperança jamais se apaga.
A notícia é que, ser líder assim, não é privilégio de poucos, mas está ao alcance de todos, quando a medida da liderança é a capacidade de servir.
Os grandes líderes, como Francisco, lembram-nos que mudar o mundo não começa com grandiosos e bem intencionados planos, mas com pequenos gestos de serviço e cuidado.
E cada um de nós é dotado dessa capacidade.
(*) Ubuntu , é uma palavra que encontra expressão em variadas línguas africanas, condensa uma filosofia de vida humanista, transversal e independente de qualquer país, cultura, religião ou afiliação política. Ubuntu significa “Eu sou porque tu és”, ou seja,