Escrevo esta crónica na condição de aluna universitária que se vai licenciar no final do ano letivo mais estranho da história da minha curta vida.

Sou aluna de design, área peculiar e muito vasta, que tem como pressuposto uma aprendizagem teórica e prática que não parte apenas dos nossos professores, mas também de nós (alunos, designers, criativos).

Não pretendo falar em nome dos meus colegas deste nosso Portugal. Sou apenas uma voz no meio da tempestade.

Quero, primeiro que tudo, agradecer o esforço que vejo ser feito por parte dos meus professores, que têm famílias com quem se preocupam, milhares de emails por responder, que tentam dar o máximo de apoio aos seus alunos e, que pelo meio, têm direito a ler o seu livro ou a ver um episódio da sua série preferida, mas escolhem não o fazer muitas vezes para dar uma ajuda adicional aos seus alunos. Agradeço-lhes o esforço, a sensibilidade e o humanismo, de que tanto precisamos nos dias que correm. Sinto que os meus professores não desistiram de nós, que nos querem formar e ver licenciados no final do ano, com as bases certas para enfrentarmos um mercado de trabalho que vai estar virado do avesso quando nele entrarmos como fetos da sociedade.

Posto isto, quero salientar que, no meio de tudo o que tenho lido, ouvido e discutido durante a pandemia, os alunos universitários (os próximos portugueses a ingressar no mercado de trabalho) têm sido esquecidos ou empurrados para um canto. Ninguém parece falar sobre o assunto, numa realidade que é comandada pelas direções das universidades, as quais, por claras razões, são neste momento de crise quem nos guia. Estas direções (e não falo de todas) parecem estar a exigir aos nossos professores que nos preparem através das mesmas metodologias e avaliações, mesmo sabendo que eles não nos podem dar o apoio ideal que as aulas presenciais providenciam.

Como tantos alunos de outras áreas, temos projetos de maior envergadura de que as nossas notas, portfólio e currículo dependem em grande parte. Ora, as metodologias que anteriormente nos pareciam normais têm de ser ajustadas às novas circunstâncias. Mas não são. E não apenas os professores não são super-homens e mulheres elásticas como os alunos estão com os nervos em franja em relação ao seu futuro, o qual, pelo menos no imediato, depende destes projetos, trabalhos de grupo, testes e frequências. Um alívio é aqui exigido. Um alívio que pode nascer de um apoio maior por parte das direcções e que vá para além dos emails gerais a aplaudir a persistência e a perseverança de docentes e alunos.

Não descuro a rapidez com que as universidades se adaptaram a esta nova realidade ditada pela pandemia do Covid-19 – mas há que passar à fase seguinte. Nós, que nos preparamos para entrar no mercado de trabalho e iniciar as nossas vidas, sentimo-nos a caminhar em direção ao abismo, dada a crise económica mundial que é, já hoje, uma realidade. E ainda carregamos as mazelas da crise de 2008/2010. Vivemo-lo na altura em segundo plano, é certo, mas muitos de nós observaram os pais em constante medo e viram a sua qualidade de vida mudar drasticamente, ainda que pudessem não entender o que se passava na totalidade.

Desde que a pandemia assaltou o nosso quotidiano, a carga de trabalho académico aumentou exponencialmente, o método de ensino e avaliação não é apropriado e arriscamo-nos a ter uma aprendizagem francamente deficiente. A solução é simples: alterem, o quanto antes, a forma como nos querem passar o conhecimento e as práticas sem que isso prejudique a qualidade de ensino que nos foi proposta, e, pelo meio, poupem-nos a ansiedade desnecessária, dando-nos respostas claras quanto ao nosso futuro próximo. Vamos antecipar notas injustas e conhecimento falhado. Vivemos tempos estranhos, cuja dificuldade irá aumentar quando a epidemia estiver contida, portanto o pedido é que se façam alterações, que nos possam ser úteis a longo prazo, minimizando os já grandes riscos que o futuro nos trará.

Muitos de nós vemos os nossos planos destruídos pela pandemia. Não esquecer que, à semelhança do que aconteceu na anterior crise, espera-nos uma vez mais um investimento educacional falhado, pago pelo Estado, porque irá, com certeza, existir uma fuga de cérebros para o estrangeiro. Isto é, Portugal está a pagar pela educação de uma enorme porção de alunos universitários, e não terá retorno desse investimento ao assistir-se a uma emigração de jovens profissionais em massa.

E é lá fora que eu e os meus colegas começamos a imaginar a nossa vida, ainda que seja aqui, na nossa pátria, que muitos sonhavam ficar, até há uns meses, mesmo sabendo que a porta para o estrangeiro se vá manter fechada durante algum tempo.

Peçam a nossa opinião, peçam-nos ajuda para encontrarmos soluções. Mas não se encostem, de braços cruzados, a ver a próxima geração de trabalhadores ingressarem no mercado de trabalho com baixo conhecimento e poucas capacidades.

“Somos todos iguais, mas alguns são mais iguais do que outros” Não deixemos que George Orwell tenha razão. Não nos ponham a todos no mesmo saco, deixando os nossos futuros para o fim das decisões a serem tomadas.