Existe um escrito apócrifo atribuído a Lenine segundo o qual o revolucionário Russo teria dito que “há décadas em que nada acontece e há semanas nas quais acontecem décadas”. Este dictum assenta como uma luva à presidência de Donald Trump. Nas últimas três semanas, seguindo a preceito o plano estabelecido pelo Projecto 2025, que havia renegado durante a campanha, Trump e a sua administração, desta vez altamente profissionalizada e preparada, têm-se dedicado a desmantelar o mundo que a América criou no pós-guerra. Em apenas três semanas, aconteceram décadas.

O mundo de ontem, nascido das cinzas da destruição física e moral da Europa Central e do Leste, assentava numa lógica transacional. Os Estados Unidos forneciam um conjunto de bens públicos de organização do sistema internacional e, em contrapartida, os países aliados aceitavam a sua liderança e faziam de Washington a capital de um império mais poderoso do que algum outro na história. Ao contrário do que Trump afirma, este contrato foi altamente benéfico para todas as partes, especialmente para os Estados Unidos. O capitalismo, a globalização, o comércio livre e a troca de ideias trouxeram um nível de progresso e de riqueza ao mundo com o qual os nossos antepassados apenas poderiam sonhar.

Nas últimas semanas, Trump e os seus aliados têm-se dedicado a desmantelar o mundo de ontem e a fazer um conjunto de acções que custarão muito caro aos Estados Unidos e ao Ocidente. Sei que muitos leitores pensarão que estou a exagerar, no entanto, creio que os exemplos que vou dar abaixo provam isto à saciedade. Espero enganar-me e que, daqui a uns anos, posso escrever aqui no Observador um mea culpa.

Em primeiro lugar, mal chegou à Casa Branca, Trump fez uma acção executiva na qual proibia a utilização de fundos federais em programas de diversidade e inclusão. Independentemente daquilo que achemos dos programas de DEI, há uma regra sagrada nos sistemas presidenciais: o ramo legislativo tem o poder exclusivo de definir os impostos que devem ser cobrados e, ao mesmo tempo, definir como o dinheiro deve ser gasto. Os gastos em políticas que Trump cortou só podem ser cortados pelo Congresso. O que Donald Trump fez é evidente: está a tentar recriar a Presidência Imperial, que caiu no Nixon, e submeter o ramo legislativo ao poder do executivo. Se quer terminar com o financiamento do DEI, e é perfeitamente legítimo que o faça, tem uma solução simples: pedir ao Congresso para cortar o financiamento a este tipo de programas.

Em segundo lugar, Trump deu acesso a Musk e a uma equipa informática ao Departamento do Tesouro, onde são guardadas não só as informações mais íntimas de todos os cidadãos, nomeadamente, os rendimentos pessoais e as suas interacções com o Estado, mas também todas as transações que o Estado faz com empresas e toda a sorte de entidades. Faz arrepiar os cabelos de qualquer liberal genuíno, que exige que o Estado esteja fora da sua vida, que um empresário, com todos os conflitos de interesses inerentes, tenha acesso à informação total de todo o dinheiro que entra e sai do Estado. O que fará Musk com esta informação? Vendê-la-á? Utilizá-la-á para obter benefícios próprios? Não sabemos. O que sabemos é que pessoal não autorizado e sem credenciais de segurança teve acesso de forma aberrante a informação privilegiada.

Em terceiro lugar, Trump decidiu terminar o USAID. Para quem não sabe, o USAID foi um programa criado no auge da Guerra Fria por JFK para financiar ajuda humanitária em todo o mundo. Obviamente que, apesar dos seus fins beneméritos, o USAID tinha como principal objectivo alavancar o soft power Americano, patrocinando o estilo de vida Americano, o capitalismo e as ideias liberais. Por exemplo, USAID patrocinava inúmeros meios de comunicação social que eram a única oposição livre a regimes sanguinários em todo o mundo. Para percebermos até que ponto esta acção de Trump é nefasta para os interesses do Ocidente, basta vermos a lista de quem celebrou o fim deste programa, elencada pelo FT. Dimitri Medveded, vice-director do Conselho de Segurança Russo, disse que “tinha sido uma acção muito inteligente”. Órban, primeiro-ministro Húngaro, afirmou que o fim do USAID era “refrescante”. Maduro, presidente da Venezuela, saudou a decisão, dizendo que o USAID tinha patrocinado a oposição Venezuela que tentou liquidar o seu regime. Por último, Petro, um ex-guerrilheiro de extrema-esquerda que ascendeu a presidente da Colômbia, disse que o USAID era “veneno” que promovia ideias democráticas e capitalistas na América Latina. Com esta pletora de dirigentes mundiais a saudar o fim de programa e a decisão de Trump, penso que estamos esclarecidos sobre quem fica contente com as decisões do Presidente dos Estados Unidos.

Em quarto lugar, na última semana, Trump decidiu cortar, sob sugestão de Musk, um financiamento na ordem dos quatro mil milhões de dólares anuais ao National Institutes of Health (NIH). Estes programas são responsáveis pelo desenvolvimento médico de ponta e fazem trabalho fundamental na investigação contra o cancro, doenças raras, doenças neurológicas degenerativas. A interrupção desta investigação tem custos devastadores para toda a humanidade pois é nas grandes universidades Americanas que muitas descobertas são feitas para, anos mais tarde, estarem a ser aplicadas, por exemplo, nos serviços de saúde em todo o mundo, incluindo em Portugal. A maioria das pessoas nem sequer tem noção das implicações que isto terá, a longo prazo, nas suas vidas.

Em quinto lugar, para mitigar estas decisões de Trump, várias instituições da sociedade civil utilizaram o único meio disponível para ser de freio e contrapeso ao poder do presidente: os tribunais. Vários tribunais decidiram que as acções de Trump são ilegais, por exemplo, cortar o financiamento da USAID. O que fez Trump? Simplesmente ignorou os tribunais e seguiu as suas acções como se o mandato maioritário que lhe foi conferido nas urnas não tivesse que responder perante nenhum poder. A gravidade disto é inenarrável e deveria fazer corar qualquer democrata.

Voltando a Lenine e aos seus escritos apócrifos. É atribuído (falsamente) ao líder Russo o cunho da expressão ‘idiotas úteis’ para denominar aqueles que podem ser instrumentalmente utilizados para fins políticos pensando que estão a contribuir para uma causa importante. Os idiotas úteis de tudo isto são fáceis de identificar: Trump diz-lhes que está muito preocupado com o wokismo, que a utilização de casas de banho por homens e mulheres ao mesmo tempo vai causar o fim do mundo ou mesmo que a existência de atletas olímpicos transgénero põe em causa a democracia. Todas estas questões são absolutamente menores e a sua importância empalidece quando pensamos em tudo o que está a acontecer no mundo e os danos que Trump está a causar aos Estados Unidos. Enquanto utiliza estes temas para mobilizar uma bela parte da população, Trump consegue um apoio político para aquele que é o seu verdadeiro projecto: juntamente com uma oligarquia altamente bem organizada e sofisticada, conseguir benefícios pessoais e económicos. Os idiotas úteis sempre foram indispensáveis em quase todos os regimes políticos. É o seu papel funcional. Na actual versão distópica da América, continuam a sê-lo.