O episódio recente de hantavírus a bordo do navio de cruzeiro MVHondius não é o princípio de uma nova pandemia, e convém dizê-lo desde a primeira linha, antes que a inércia do alarme tome conta da conversa pública. Seria, ainda assim, igualmente míope tratá-lo como mero incidente epidemiológico, porque o caso é interessante precisamente por ser pequeno, mostrando, em escala reduzida, como funciona hoje a maquinaria social da crise global, ou seja, a velocidade com que um acontecimento localizado é convertido em sinal de ameaça transnacional, e a facilidade com que sociedades já cansadas de emergências se preparam para mais uma.

Recordemos brevemente os factos. No início de maio, o Reino Unido notificou a Organização Mundial da Saúde sobre um surto de doença respiratória aguda grave a bordo de um navio de cruzeiro de bandeira neerlandesa, identificando-se posteriormente o agente como o vírus Andes, uma estirpe sul-americana de hantavírus com transmissão pessoa-a-pessoa documentada. O navio, com 147 passageiros e tripulantes de mais de 15 países, foi acolhido em Tenerife depois de uma escala em Cabo Verde, contando-se, à data, oito casos confirmados e três mortes, ou seja, uma letalidade aparente que, embora estatisticamente frágil pela pequena dimensão do cluster, é comunicacionalmente devastadora.

Perante este quadro, o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças classificou o caso como gestão específica de exposição, e não como uma ameaça generalizada à população europeia, ao passo que a Direção-Geral da Saúde mantém o risco nacional como “muito baixo” e a própria OMS sublinhou que o risco para a população em geral é igualmente reduzido. Não estamos, portanto, perante uma crise sanitária global em sentido substantivo, mas antes perante um episódio que revela a rapidez com que passamos da ocorrência circunscrita à perceção de uma catástrofe iminente, sendo essa passagem nunca apenas epidemiológica, mas também política, mediática e cultural.

Esta é, de resto, uma das marcas distintivas da ordem internacional do século XXI, em que pandemias, alterações climáticas, guerras e ciberameaças partilham a mesma gramática, porquanto ultrapassam fronteiras e expõem a interdependência estrutural do mundo em que vivemos. Por essa razão, um navio ou um aeroporto podem tornar-se pontos de condensação de vulnerabilidades globais, e o caso do MVHondius é exemplar, dado que um passageiro que terá adquirido a infeção em terra, antes mesmo de embarcar, gera, semanas depois, contactos a monitorizar em mais de 20 países e internamentos em hospitais de vários continentes.

A soberania estatal continua relevante, mas é insuficiente para riscos que circulam por redes transnacionais, e daí que a resposta articule autoridades nacionais, organismos internacionais, operador do navio e hospitais militares, sendo a própria escolha do porto de desembarque uma decisão política negociada. A cooperação internacional não é, contudo, uma máquina automática, e a herança da COVID-19 é ambivalente porque, se consolidou a ideia de que a saúde pública é uma questão internacional, expôs também os limites do multilateralismo, a politização da informação científica e a fragilidade da confiança pública, inscrevendo-se o hantavírus, embora muito mais limitado, na mesma gramática.

Convém, aliás, exigir rigor no próprio conceito de crise global, pois nem todo evento transnacional o é. Esta não corresponde apenas à escala do dano, mas também à capacidade de um acontecimento ativar sistemas de alerta e gerar efeitos políticos para além do seu ponto de origem, sendo essa a razão pela qual um punhado de casos confirmados basta para mobilizar ministérios da saúde em vários continentes, mesmo quando o Regulamento Sanitário Internacional depende, em última análise, da cooperação dos Estados e da credibilidade das instituições.

Importa, ainda assim, pensar a dimensão securitária com prudência, porque, embora as doenças infecciosas afetem a mobilidade, o turismo e a estabilidade económica, transformar todos os surtos em ameaças securitárias legitima respostas desproporcionadas, alimenta suspeições e reforça práticas de exceção. Veja-se, a este propósito, como as imagens dos passageiros transferidos por equipas em equipamento integral de proteção, e embarcados em aviões militares para hospitais de isolamento, têm uma carga política que ultrapassa a sua eficácia sanitária.

É aqui que a sociologia do risco oferece um contributo decisivo, dado que as sociedades contemporâneas se organizam em torno da antecipação de danos futuros, e o risco deixa de ser apenas probabilidade técnica para se tornar uma categoria social que orienta políticas e discursos. É por essa razão que o hantavírus se torna relevante sobretudo pela sua capacidade de reativar memórias recentes de pandemia e incerteza, enquanto o navio de cruzeiro concentra imagens de lazer, circulação internacional, confinamento e contágio, sendo, semioticamente, um cenário perfeito para a deslocalização rápida do medo entre o vírus, o passageiro, o aeroporto e a própria mobilidade global.

E há, claro está, o papel dos media, já que as crises globais contemporâneas são inseparáveis da sua mediatização, ainda que os media não inventem propriamente o risco, antes selecionando, hierarquizando e dramatizando alguns dos seus elementos. Como sugeriu Niklas Luhmann, produzem uma realidade socialmente observável através de critérios de noticiabilidade, e uma doença rara, com nome inquietante, associada a um navio internacional, com mortes a bordo e quarentenas em vários continentes, reúne todos os ingredientes de uma narrativa de crise. A dificuldade está justamente em distinguir informação pública de dramatização da insegurança, já que omitir que o risco para a população em geral é baixo equivale a contribuir para ansiedade desproporcionada, e a diferença entre falar de “surto a bordo de um navio” e falar de “ameaça à Europa” não é, por isso mesmo, semântica, mas política.

É neste quadro que as instituições modernas operam, aliás, através de sistemas abstratos de confiança, e quando essa confiança enfraquece, qualquer evento se torna terreno fértil para suspeita e teorias da conspiração, pelo que gerir crises globais depende tanto da capacidade técnica como da capacidade de preservar a confiança pública. Talvez seja por aqui que se deva concluir, porque o caso do hantavírus é politicamente relevante precisamente por não constituir uma grande crise global, mostrando, ainda assim, a facilidade com que a infraestrutura social da crise se ativa, bastando um agente patogénico raro, vítimas mortais e cobertura mediática intensa para formar um ambiente de insegurança transnacional. Vivemos, em suma, em permanente disponibilidade para a emergência, lendo cada novo episódio à luz da COVID-19 ou da guerra na Ucrânia, e daí resulta tanto uma fadiga social como, paradoxalmente, uma predisposição a ler qualquer evento como sinal de colapso iminente.

Importa, por isso mesmo, recusar dois erros simétricos: o primeiro, a minimização irresponsável, que confunde prudência com indiferença; e o segundo, o alarmismo performativo, que confunde rigor com dramatização. A saúde pública exige, evidentemente, vigilância e cooperação, mas também exige proporcionalidade, literacia em risco e contenção discursiva, de modo que a comunicação de crise informe sem produzir pânico e reconheça a incerteza sem transformá-la em espetáculo. Afinal, num mundo interdependente, a segurança coletiva depende tanto da capacidade de responder às crises como da capacidade de não as fabricar discursivamente antes do tempo, e o hantavírus do MV Hondius, embora mereça atenção, ainda não merece o estatuto que já lhe quisemos atribuir.