Portugal encontra-se mais uma vez numa encruzilhada política. Embora as transições políticas sejam inerentes à democracia, criam imprevisibilidade, especialmente para sectores que dependem da estabilidade política, como as organizações de impacto social e as iniciativas filantrópicas.
A filantropia não existe isolada. Reage e é moldada pelas realidades políticas e económicas. Mudanças governamentais podem afetar o financiamento público de projetos sociais, alterar incentivos fiscais para doações e modificar regulamentações que impactam as ONGs. Quando os governos mudam, o mesmo acontece com as políticas, os fluxos de financiamento e as prioridades estratégicas, obrigando os actores filantrópicos a repensar as suas abordagens.
Reavaliar a filantropia estratégica em tempos de mudança
A filantropia não funciona num vácuo, responde a cenários políticos e económicos em mudança. A filantropia estratégica, em que os doadores alinham os recursos para a mudança sistémica, torna-se ainda mais crítica durante as transições. Não se trata apenas de preencher lacunas a curto prazo, mas de garantir um impacto duradouro, sejam quais forem as prioridades governamentais. Em tempos de incerteza, a filantropia estratégica torna-se essencial, não apenas como um meio de alívio a curto prazo, mas como uma forma de sustentar o impacto a longo prazo, apesar da mudança de cenários políticos. O desafio é assegurar que a filantropia se mantenha proactiva e não reactiva.
Como diz Inês Sequeira, Co-Founder e CEO da Rede Capital Social, “Portugal precisa de mais filantropos, mas sobretudo de uma filantropia mais estratégica, capaz de fazer realmente a diferença na vida das pessoas e das comunidades.” Isto significa ultrapassar modelos antiquados e adotar uma filantropia que seja simultaneamente dinâmica, adaptável e sensível às necessidades da sociedade. Também requer um esforço maior na captação de recursos alternativos, para reduzir a dependência de apoios públicos que podem ser afetados por mudanças políticas.
Colaboração transetorial, Uma proteção contra a instabilidade
As mudanças políticas significam frequentemente incertezas de financiamento e alterações de políticas. Em resposta, a colaboração entre os sectores privado, filantrópico e da sociedade civil torna-se essencial. As empresas trazem recursos e conhecimentos, enquanto as ONGs e as iniciativas de proximidade asseguram que o impacto social se mantém centrado na comunidade. Quando a filantropia se alinha com iniciativas mais alargadas, aumenta a resistência contra as flutuações políticas. Como refere Henry Alt-Haaker, da Robert Bosch Stiftung, “as vozes da sociedade civil devem ser ouvidas nos debates políticos, mas muitas vezes não dispõem de recursos suficientes. As fundações privadas têm o capital financeiro e social para apoiar essas vozes e tornar a democracia mais inclusiva”.
Olhar para o futuro, Resiliência para além dos ciclos políticos
Um dos desafios para a filantropia é ir além dos ciclos políticos de curto prazo. Em vez de reagir às mudanças governamentais, os actores filantrópicos devem estabelecer estruturas para a sustentabilidade. Isso significa diversificar o financiamento, estabelecer parcerias de longo prazo e construir redes que permitam a adaptabilidade. As transições políticas são inevitáveis, mas a instabilidade não tem de significar uma estagnação. Ao fortalecer a filantropia estratégica e a colaboração intersectorial, o sector social português pode não só resistir a este período de incerteza, mas também emergir mais forte, mais inovador e melhor preparado para o futuro.
O Observadorassocia-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.