“Nem tudo o que reluz é ouro”
(Provérbio popular)
É comum ouvirmos que a cobertura mediática dos incêndios atua como um rastilho invisível. Com efeito, do balcão do café aos relatórios oficiais, não falta a alegação de que a exibição repetida de imagens de fogo acaba por criar um efeito de contágio que atrai novas ignições por parte de incendiários – os culpados de tudo isto para a perceção pública.
Será mesmo assim? Mesmo que involuntariamente, a comunicação social acaba por contribuir para mais incêndios?
Para responder preto no branco a esta questão, decidi fazer um pequeno exercício que aqui partilho convosco, acompanhado por um gráfico simples: cruzar os dados diários de notícias nacionais publicadas desde dia 1 – foram 124 notícias em cinco jornais de referência (Correio da Manhã, Público, JN, DN e… o Observador) – com os 830 incêndios registados pelo ICNF entre os dias 1 e 27 de maio.
A estatística ajuda-nos a medir a força desta ligação através do Coeficiente de Correlação de Pearson, cujos valores variam entre zero (relação nula) e um (relação perfeita). Para os leitores não familiarizados com estes termos, se as notícias provocassem o aparecimento de fogos, tal como pisarmos no acelerador aumenta a velocidade do carro, o valor seria muito alto…
Todavia, a correlação matemática apurada no próprio dia fixou-se em escassos 0,27. Ora este número revela que as duas realidades se movem de forma muito independente, deitando por terra a ideia de uma ligação direta de causa-efeito.
Mas vamos testar este mito de contágio a fundo. Para tal, calculei a correlação introduzindo um desfasamento temporal de 24 horas. E o coeficiente até subiu, mas apenas ligeiramente para um valor de 0,31, o que continua a ser considerado um valor francamente… fraco. Se o mediatismo desafiasse mentes criminosas ou comportamentos desviantes em massa nas horas seguintes, este número teria de ser robusto. Não é. Conclusão óbvia: o fluxo jornalístico diário não funciona, portanto, como um gatilho comportamental no terreno.
O próprio comportamento das curvas no gráfico ilustra perfeitamente esta independência na primeira metade do mês. O dia 14 de Maio registou o pico máximo de atenção jornalística na imprensa escrita, ultrapassando as 20 notícias publicadas (foi o dia da saída de Tiago Oliveira, do caso do cunhado de Leitão Amaro e ainda de alertas da Proteção Civil). Se a teoria do “piro-jornalismo” estivesse correta, o número de incêndios teria de explodir verticalmente nos dias subsequentes. Pelo contrário, a linha de ocorrências reais continuou a sua subida gradual e perfeitamente estável para a época primaveril.
E, já agora, o que acontece se analisarmos o cenário inverso? Será que mais incêndios num dia dão origem a mais notícias no dia seguinte?
Curiosamente, a correlação neste cenário caiu para uns residuais 0,15, indicando uma ausência quase total de relação. Isto prova de forma categórica que a imprensa nacional não reage cegamente à quantidade bruta de… fumo? Também não, porque nesta altura do ano, com ainda bastante humidade no solo e na vegetação em consequência de um dos mais chuvosos invernos já registados, a esmagadora maioria dos incêndios foi de pequena dimensão e sem gravidade de maior, falhando por isso na captação de interesse noticioso.
A análise visual do mês revela, contudo, uma mudança interessante a meio do percurso. A partir do dia 15 de maio, as duas linhas alteram o seu comportamento e passam a caminhar lado a lado de forma notória: os “picos” e “vales” do volume de notícias e do número de incêndios tornam-se quase simétricas. Numa leitura menos atenta, este paralelismo perfeito, que se prolonga até ao final do período em análise, poderia sugerir uma influência mútua e dar alguma força ao mito. Não obstante, a explicação terá outras razões.
Com efeito, este alinhamento sincronizado na segunda quinzena acontece simplesmente porque as duas variáveis respondem, de forma autónoma, ao mesmo fator externo e dominante: a meteorologia. Quando os dias ficaram subitamente mais quentes, o risco de ignição naturalmente cresceu. Em simultâneo, os jornais também aumentaram de imediato o espaço dedicado ao tema, cumprindo o seu dever de informação e utilidade pública, ao divulgar os avisos prévios de risco meteorológico que a proteção civil emite.
Este exercício simples permite, assim, desmistificar o preconceito do “piro-jornalismo”. A imprensa não é o rastilho dos fogos. O jornalismo limita-se a atuar, afinal, como um espelho preventivo e informativo, alertando a população quando o perigo aperta, e não como responsável pelo que arde.