Os recentes números do Ministério da Saúde não enganam ninguém: as listas de espera para consultas hospitalares e cirurgias continuam a crescer, enquanto mais de 1,5 milhões de portugueses permanecem sem médico de família. Estes dados surgem precisamente quando Portugal apostou na maior expansão de sempre das Unidades Locais de Saúde, passando de 8 para 39 unidades entre 2022 e 2024.
A questão que todos devemos fazer é simples: se a integração de cuidados é a solução, porque continuamos a ver os problemas agravarem-se?
Como médico de família, tenho acompanhado de perto esta transformação e posso afirmar que criar uma ULS no papel não significa que os cuidados estejam efetivamente integrados. O projeto REAVALIA-ULS da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar foi claro: na perspetiva de grande parte dos profissionais, o objetivo central da criação das ULS – a integração efetiva de cuidados – não se concretizou.
Mas o que significa, afinal, integração de cuidados? Significa que quando um utente vai ao seu médico de família e depois precisa de uma consulta no hospital, toda a informação está partilhada, não há repetição de exames, as transições são suaves e existe um plano coordenado. Significa que os cuidados primários e hospitalares trabalham como uma equipa, não como dois mundos separados.
Internacionalmente, quando isto funciona, os resultados são notáveis: menos internamentos desnecessários, menos tempo de espera, doentes mais satisfeitos e melhor controlo de doenças crónicas. Em Portugal, algumas ULS conseguiram reduzir as readmissões hospitalares, especialmente em doentes com várias doenças. Mas são casos isolados. O potencial está longe de ser alcançado.
Os problemas são vários e bem conhecidos. O 1º Barómetro de Integração de Cuidados, realizado em 2024, revelou que os profissionais das ULS dão nota negativa à gestão financeira e à falta de transparência. Pior ainda: continuamos sem um processo clínico único partilhado entre o centro de saúde e o hospital. Como é possível coordenar cuidados quando o médico de família e o médico hospitalar não veem a mesma informação do doente?
Depois há o problema dos profissionais. Três em cada quatro médicos de família sentem que perderam autonomia após a integração nas ULS e manifestam baixos níveis de satisfação. Isto não é um pormenor – são estes profissionais que garantem o primeiro contacto com o sistema de saúde e que acompanham os utentes ao longo da vida.
O mesmo Barómetro identificou diferenças regionais enormes. As ULS mais antigas funcionam melhor que as recém-criadas, o que mostra que a integração exige tempo, investimento e aprendizagem. Não se faz de um dia para o outro com decretos-lei.
E é aqui que reside a grande frustração: uma verdadeira integração de cuidados poderia resolver os problemas de acesso que vemos nos números. Menos duplicações, menos esperas, mais eficiência, melhores resultados. Mas para isso acontecer, são necessárias medidas concretas.
Primeiro, investimento urgente em tecnologia que permita partilhar informação clínica entre todos os níveis de cuidados. Não é aceitável que em 2025 ainda não tenhamos um processo clínico eletrónico único.
Segundo, mudança no financiamento. Hoje, os incentivos estão desalinhados – pagamos por atividade, não por coordenação ou qualidade. É preciso remunerar o trabalho integrado, não apenas o número de consultas.
Terceiro, e talvez o mais importante: sem cuidados de saúde primários robustos, não há integração possível. Precisamos de medidas urgentes para atrair e fixar médicos de família. Sem eles, todo o edifício cai.
É também essencial que cada ULS tenha um plano estratégico claro, com metas mensuráveis e participação dos profissionais. A Organização Mundial da Saúde, em parceria com Portugal desde 2024, reforça que a integração só funciona com investimento digital e boa governação.
Por fim, exigimos transparência. Queremos indicadores claros: quantos utentes têm médico de família, quanto tempo esperam por consultas, quantos doentes são reinternados, qual a satisfação com a coordenação. Sem avaliação rigorosa e independente, não saberemos se estamos no caminho certo.
O modelo ULS pode transformar o SNS num sistema verdadeiramente centrado no utente, mais acessível e eficiente. Mas reorganizar estruturas sem investir na integração real – clínica, tecnológica, financeira – apenas gera frustração.
Os portugueses têm direito a um SNS funcional e com resposta eficaz às suas necessidades. Os números recentes sobre listas de espera e falta de médicos de família são um alerta que não podemos ignorar. A integração de cuidados não pode ser apenas uma promessa política. Tem de ser real, tem de funcionar, tem de chegar aos utentes.
O caminho está identificado, as soluções são conhecidas. Falta a coragem política para as concretizar. Os utentes merecem mais do que palavras – merecem cuidados integrados que façam diferença nas suas vidas.