Não há dúvida alguma que a ‘sinodalidade’, num dos milhares de sentidos que lhe foram dados, entusiasmou a Igreja Católica, os crentes Católicos e até os das demais denominações cristãs. Mas as suas primigénias célebres palavras ‘comunhão’, ‘participação’ e ‘missão’ foram, e ainda são, tão ambíguas que, desde logo, deram origem aos sobreditos milhares de sentidos. Foi, assim, anexada a esse tríptico uma pletora de vocabulário que já daria para constituir um léxico (não etimológico-teológico), mas ‘sinodal’. E isto também num esforço de se mostrar que a ‘sinodalidade’ era a (única?) interpretação, seja da Constituição Dogmática sobre a Igreja do II Concílio do Vaticano, seja, inclusive deste mesmo como um todo.

Devido à dita ambiguidade, que dava para se dizer algo e ao mesmo tempo o seu oposto e num intento de clarificação que evitasse minimalismos e maximalismos, foram-se juntando àquele tríptico muitos mais termos e expressões como: ‘laboratório’, ‘escuta’, ‘diálogo’, ‘discernimento’, ‘unidade’, ‘decidir’, ‘colaboração’, ‘procedimento’, ‘modo de vida’, ’caminho’, ‘caravana’, ‘dinamicidade’, ‘esvaziar-se’, ‘tarefa’, ‘catalisador’, ‘colegialidade’, ‘carisma’, ‘método’, ‘coração’, ‘mentalidade’, ‘dimensão eclesial’ e, entre outras expressões e palavras que facilmente poderiam ser trazidas para aqui (como a estranhíssima e tão pouco analisada ‘assembleia eclesial’), inclusive ‘desígnio fundamental de Jesus Cristo’.

Bastava, chegou-se a pensar, fazer combinações de duas ou mais de tais, ou outras, palavras e expressões, para se ‘lançar os foguetes’ e ‘apanhar as canas’ que a celebração festiva desta redescoberta estava garantida. Não foi isso o que aconteceu. Basta ler, com atenção, os zigue-zagues que foram sendo pronunciados por este ou aquele perito para nos darmos conta de que se estava numa fase de construção.

Uma fase que eu, diversas vezes, traduzi pela ideia de que antes de um sínodo ‘sobre a sinodalidade’ teria sido bom fazer-se um ‘sínodo sobre o discernimento’; sobre se ter um conhecimento seguro acerca de um instrumento essencial para se pensar sobre a ‘sinodalidade’ – algo que Francisco pediu aos teólogos para fazerem em novembro de 2024 – e viver sinodalmente.

Com efeito, quem é que pode garantir que, apenas pela invocação orante do Espírito Santo antes de um momento de diálogo, é Aquele que está a falar no nosso coração? Os mestres espirituais de todos os tempos, embora com a exceção dos mais modernos e futuristas, são unânimes: essa dita convicção é a receita ideal para o desastre, para a confusão e até para a divisão entre pessoas que, mesmo com imensa boa-vontade, intentam fazer um discernimento comunitário. Pude mostrar isto mesmo em diversas formações teórico-práticas que, acredito com toda a sinceridade, salvaguardaram e salvaguardarão aqueles que as assistiram de caírem nesse laço.

Não conheço o Papa Leão XIV, nem consigo fazer prognósticos do que será o seu pontificado apenas pelo nome escolhido (seja a nível do nome propriamente dito, seja do número que o segue), o modo de usar os seus óculos, de se pentear, de onde escolheu dormir, etc. Creio que nestas situações, e como disse o mestre João Pinto – esse quase eterno número 2 do Futebol Clube do Porto e da Seleção Nacional –, ‘prognósticos só no fim’. Evidência disto é o que aconteceu com o pontificado de Francisco, acerca do qual só daqui a uns bons anos se terá a coragem de historiar com rigor.

Dito isto, devo admitir que, aquando da homilia por si proferida na ‘Vigília de Pentecostes’ de 2025, Leão XIV avançou com três ideias que, embora tenham passado grandemente desapercebidas – talvez voluntariamente no caso dos nossos ‘especialistas’ –, começaram a limar as arestas a algum do nevoeiro conceptual que envolvia, e ainda poderá estar a envolver, o que é a ‘sinodalidade’ (pelo menos a nível da cognição da mesma por parte do presente Pontífice). Senão vejamos.

Note-se que Leão XIV não quis falar apenas para um grupo privilegiado ou ostracizado de crentes – seja a favor das aduladas minorias infinitesimais, seja contra as maiorias esmagadoras –, antes para toda a catolicidade de batizados. Ou seja: para todos os seguidores de Jesus movidos, não por um ímpeto humano, mas por uma ignição divina suscitada pelo Espírito que centra na mensagem de Jesus – objeto essencial da missionação eclesial. Uma mensagem apenas corretamente interpretada se situada na Igreja e no Magistério que está ao serviço dessa mesma Igreja.

Anódino, não? Estimo que não. Ora vejamos.

Em primeiro lugar, fica claro que a sinodalidade só será fecunda se for fiel a todo o Evangelho e ao Evangelho todo, na sua mais crua – e até exigente – integridade e integralidade. Se assim não for, poderemos estar neste caminho sinodal, até à manifestação gloriosa da segunda vinda do Senhor, que não teremos dado um passo congruente que seja na direção desejada pelo Mesmo. Seremos pessoas que nos poremos a tentar desenhar um cavalo apenas para todas as demais pessoas dizerem: “Isso é um camelo, totós; até tem duas bossas no dorso”.

Depois, a Igreja, embora seja formada por todos os batizados de todos os tempos, tem à ‘cabeça’ uma Pessoa exclusivamente Divina que, pelo Espírito, deveria ser a vida da nossa vida; o coração do nosso coração; as mãos das nossas mãos. Não para operar uma substituição, mas uma transformação, de modo a que o amor, e apenas o amor, seja a força motriz do agir eclesial. Para isto suceder, a autoridade confiada por Jesus à Igreja é o único lugar de segurança para se viver a, e crescer na sinodalidade, inclusive, se esse for o caso, se se enveredar por uma evangelização confiada na glória de Deus (que é cada um de nós plenamente vivos) e não dependente do que agrada a quem quer que seja senão a Jesus.

Por fim – e para concluir os três aspetos que farão da sinodalidade uma oração, um método de conversão e uma esperança –, há a necessidade de se assumir e afirmar que não há salvação senão em Cristo. Claro que esta salvação operada por Cristo pode ter imensas feições que não impliquem a pertença explícita à Igreja – pois, pela sua constituição, todos fazem parte de uma Igreja que é memória futura de Cristo Ómega –, mas a verdade persiste: Jesus Cristo glorioso é a o único Salvador Universal. Venham, depois, as categorias de “cristãos anónimos”, de “batismo de desejo” (que não é o “desejo do Batismo”), das sementes desse Salvador em tudo o que é verdadeiro, bom, belo e alegre em qualquer cultura ou religião, etc. Venham. Mas só depois.

O caminho sinodal ainda está a ser trilhado por infantes. Não podia não ser assim. Mas Leão XIV já está a efetuar a aduzida limagem de arestas que nos recorda que o «tutti, tutti, tutti» precisa, inapelavelmente e como já dizia o Topo Gigio, de andar a par do “ma non tutto”. Se assim não for, continuar-se-á a gastar inconsequentemente esforços, dinheiro e tempo.