Todos conhecerão, numa ou outra versão, a origem da expressão “entregar a carta a Garcia”. Contudo, devido à coeva pluralidade de sentidos, até antagónicos, de todas as palavras (inclusive ‘todos’), aqui fica uma sucinta explicação da origem (talvez apócrifa) de tais palavras.

Durante a guerra dos EUA com Espanha a propósito da posse da atual ilha de Cuba, um soldado dos Estados Unidos foi incumbido de entregar, com o máximo de sigilo, uma carta a um certo Garcia. Mais nenhuma informação lhe foi dada, donde ele não sabia, nem podia perguntar: quem era Garcia, onde estava Garcia, como haveria de lhe fazer chegar a carta. Todavia, tal militar logrou cumprir a sua missão! Bem… «se non è vero, è ben trovato».

Volto, mesmo que de passagem, a referir o meu espanto pela desatenção que tem sido dada às mais importantes declarações de Leão XIV. Acerca dele, ainda se vai noticiando e falando a respeito disto e daquilo, mas as pequeno-grandes afinações de agulha têm passado frequentemente ao lado do público em geral. Dois textos meus, que foram aceites para publicação neste órgão informativo, são um pequeno exemplo disso.

Hoje volto a uma dessas pequeno-grandes afinações, pronunciadas num telegrama enviado aos ‘perdidos’ bispos da Amazónia reunidos em Bogotá. Desta feita, tal ocorrência foi noticiada, mas não se falou nas mudanças que os aspetos mais capitais de tal telegrama comportam face a posições tidas como fundamentais em Francisco. A isto já darei a minha atenção, contudo começarei por discorrer sobre o significado do uso de um telegrama, ainda por cima não assinado pelo próprio Papa, mas pelo seu Secretário de Estado.

Há que afirmar abertamente que o recurso a um tal expediente é pouco usual e está, na ordem de importância magisterial de documentos papais, quase no fim da mesma. Diga-se mesmo, que quase só é usado para expressar condolências e orações na sequência de determinadas tragédias. No presente caso, o seu uso talvez tenha sido pensado para que aquilo que nele está patente fosse melhor entendido e acolhido, dado que o ‘peso’ de tal tipo de documento dificilmente pode ferir o amor ao seu antecessor.

Dito isto, nada do que referi não significa que esse telegrama esteja desprovido de valor. De modo algum. É um documento do magistério da Igreja e possui um valor próprio e intrínseco baseado: no que é dito por Leão XIV e nos argumentos empregues por ele. Mais: tem o dom concreto e prático de dar a entender o pensamento mais pessoal do Papa (e isto quiçá de um modo mais transparente do que se fossem usadas outras formas de comunicação).

Já o facto desse telegrama ter sido assinado pelo Cardeal Pietro Parolin (mais ainda sem a indicação explícita de que o seu envio foi autorizado ou aprovado pelo Papa), deve ser entendido como uma forma de não tornar o conteúdo do aduzido documento algo do magistério eclesial pontifício.

Mas não nos enganemos: na minha opinião, este facto só lhe dá um maior peso efetivo, mesmo dentro da circunstância de se ter posto voluntariamente ao lado do magistério papal. E se isso foi assim, foi para (se estou certo na minha leitura deste acontecimento) Leão XIV realizar (sem causar anticorpos) uma daquelas ‘pequeno-grandes afinações de agulha’. Com Leão XIV não tem havido gestos sensacionais, nem mudanças radicais ribombantes, antes ‘fortes’ sussurros que inclinam a ‘agulha da bússola’ para o verdadeiro ‘Norte’ sem causarem ruturas.

Com estes dois pontos minimamente esclarecidos, passarei a apontar o que de mais saliente o supracitado telegrama transmite. E isto, em especial no que concerne a mudanças de posição acerca do dito por Francisco, seja na Encíclica Laudato si, seja na Exortação Apostólica Pós-sinodal Querida Amazonia [sic].

Neste intento, ficar-me-ei pelas palavras «ajudar de forma concreta e eficaz os bispos e vigários apostólicos […] [referindo] três dimensões que estão interconectadas na ação pastoral dessa região [Amazónia]: a missão da Igreja de anunciar o Evangelho a todos os homens (cf. Decreto Ad gentes, 1), o tratamento justo aos povos que ali habitam e o cuidado da casa comum».

A ordem pela qual surgem as ditas «dimensões» não é casual: é sintomática e aponta para um ordenamento de prioridades, que também denuncia as ideologias do ‘naturalismo’ e do ‘indigenismo’, que infantilizam os, e não fazem justiça aos, povos amazónicos.

Pois bem, se nos textos de Francisco, a Amazónia é apresentada como quase um novo Éden e decididamente uma terra bem-aventurada, povoada por quem sabem viver em harmonia com a natureza (porque ainda não foram arruinados pela perversidade do progresso ocidental), a frivolidade de anunciar o Evangelho a esses povos é um corolário direto, sendo antes preciso aprender com eles. Não admira que tenham surgido tantos “Garcias” perdidos, a quem, agora, Leão XIV tenta chegar. Mas o capital será o acolhimento, ou não, do por si expresso.

Na realidade, com o telegrama que estamos a analisar (a partir da citação que escolhi para me nortear), temos uma clara tripla inversão de posições face ao dito nos mencionados textos ‘de Francisco’.

  1. Os povos da Amazónia também carecem da Salvação que só Cristo pode outorgar conquanto Este for anunciado por uma evangelização concertada. A ‘boa vida’ dos indígenas amazónicos é na realidade uma ilusão, pois ela só se encontra em Cristo.
  2. Já a ‘justiça’ (que sempre deve preocupar os cristãos) não tem como base uma consideração de índole política e/ou sindicalista, antes decorre do amor de Cristo comunicado, sobretudo, na Eucaristia, podendo, depois, tal amor impregnar essa índole.
  3. O tema fraturante da ecologia (que mais não é do que um ativismo revolucionário levado a cabo por quem não prescinde das pegadas pouco ecológicas do seu modo de vida) é tratado de um modo no mínimo curioso (irónico?). Leão XIV emprega um ‘fio de prumo’ inaciano e jesuítico, que, resgatando a ligação com o amor justo de Jesus, rasga algumas tendências de endeusamento pagão da ‘natureza’ (noção esta que, note-se, é antitética ao conceito bíblico de ‘Criação’), presentes mormente na interpretação da noção de «cuidado da casa comum» (que nunca deve ser ‘cuidado do comum da casa’).

A saber: tal expressão precisa de ser entendida no contexto mais amplo da meta da ação criadora divina: a união das pessoas com Deus e, por elas, do restante da Criação. Assim sendo, o usar e o deixar de usar das criaturas (sempre nos encarando como «administradores solícitos» das mesmas) depende, respetivamente, do poder que elas têm de nos aproximarem ou afastarem de Deus. Será demasiado tarde para se levar aos católicos uma visão católica da ecologia, após anos a seguirmos, e mal, o que dizem as ONGs ecologistas, a ONU, a EU, etc.?

Repito-me: estas palavras de Leão XIV têm um valor muito menor do que os textos de Francisco. E bem, pois o Cardeal Robert Prevost foi escolhido para reagrupar uma Igreja que estava tresmalhada. Todavia, dizem quase tudo acerca do modo como ele quer que os cristãos da Amazónia (e, embora com certas adaptações, todos os demais) se afinem acerca do que é prioritário no Cristianismo (enquanto uma parte de algo muito mais amplo): Cristo, a evangelização, a promoção do amor justo d’Aquele e, por este, a atenção à «casa comum».