1 Retomo hoje a antiga tradição de sugerir livros para férias no início do Verão. De acordo com esta tradição, costumo dedicar uma primeira crónica sobretudo a livros em inglês, seguindo-se uma segunda crónica sobre livros em português.

Desta vez, todavia, uma tremenda inovação – não revolucionária, no entanto, desejavelmente apenas enfaticamente reformista – terei de introduzir aqui. A minha primeira e muito enfática sugestão de leituras para férias é um livro em português: Dicionário da Geração de 70; Introdução de Eduardo Lourenço; Organização e coordenação de Ana Maria Almeida Martins, Guilherme d’Oliveira Martins e Manuela Rego (Imprensa Nacional/Editorial Presença, 831pp., Março de 2025).

2 Trata-se de uma obra simplesmente magistral sobre um tema simplesmente magistral – a chamada Geração de (18)70, onde se incluem autores como Antero de Quental, Eça de Queirós, Oliveira Martins e Teófilo Braga.

O livro levou cerca de trinta (sim, 30!) anos a preparar, envolvendo sessenta e oito (sim, 68!) distintos colaboradores, muitos dos quais já não estão connosco – e entre os quais se contam, para citar apenas alguns, Eduardo Lourenço, Oliveira Marques, Eugénio Lisboa, José Augusto França, Luís Francisco Rebelo e Raul Rego.

3 E, uma vez que falamos da Geração de 70, parece incontornável referir o livro recente de Teresa Pinto Coelho sobre Eça de Queirós no Egipto e a Abertura do Canal de Suez: Viagem, Orientalismo e Império (Tinta da China, 368 pp, Outubro de 2024).

Trata-se de uma obra que combina “os rigores da investigação académica com uma narrativa vibrante que procede ao ritmo de um bom romance” – como refere Luísa Leal de Faria na efusiva recensão que publicou na mais recente edição de Nova Cidadania (Nº 84, Janeiro/Abril de 2025, pp. 65-71).

4 Retomando agora a tradição dos livros em inglês, a minha primeira enfática sugestão vai para Popper, Philosophy and Faith, de Anthony O’Hear (Cambridge University Press; Series: Elements in the History of Philosophy and Theology in the West; 240 pp, Junho de 2025). O autor, que foi diretor do Royal Institute of Philosophy de Londres, é um dos maiores estudiosos da obra de Karl Popper.

Anthony O’Hear retoma neste livro uma excelente visão global sobre o pensamento de Karl Popper, o decisivo crítico dos totalitarismos, da direita e da esquerda, e decisivo defensor da sociedade aberta e da democracia liberal. Neste livro, O’Hear retoma obras anteriores em que abordou a filosofia política de Popper, enfatizando desta vez a abertura do filósofo da Sociedade Aberta e do Racionalismo Cítico (por contraposição ao “Racionalismo Dogmático”) à tradição religiosa judaico-cristã.

5 Logo a seguir, permito-me sugerir enfaticamente The Idea of the Good Society: Essays in honour of Raymond Plant, coordenado por Matt Beech and Kevin Hickson (Oxford University Press, 288 pp, Junho de 2025). Reunindo cerca de 20 contributos (entre os quais tive o prazer e o privilégio de me incluir), o livro presta homenagem a um distinto professor de Filosofia Política e membro da House of Lords (na bancada Trabalhista), bem como “lay cannon” da Catedral de Winchester.

Raymond Plant marcou decisivamente a atmosfera política e intelectual das últimas décadas, contrariando simultaneamente os excessos da esquerda trabalhista e da direita neo-liberal. O livro foi lançado na quinta-feira da semana passada (19 de Junho) em Londres, na Câmara dos Lordes, tendo sido pré-apresentado no Estoril, em Junho do ano passado, na 32ª edição do Estoril Political Forum, promovido anualmente pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica.

6 Para concluir, mais uma enfática referência, desta feita para o recente livro de Edward Luce, distinto cronista do Financial Times de Londres: Zbig: The Life of Zbignew Brzezinski, America’s Cold War Prophet (Bloomsbury, 560 pp, Abril de 2025).

Trata-se de uma excelente biografia intelectual de um grande intelectual público, hoje injustamente esquecido entre nós. Refugiado da Polónia nos EUA em 1938, chegou a Conselheiro para Assuntos Internacionais do Presidente Carter.

Aí desempenhou influência crucial na adoção da defesa dos Direitos Humanos pela política externa dos EUA, incluindo a decisiva sintonia com o Papa polaco João Paulo II. Estes foram os primeiros passos da ulterior “Terceira Vaga de Democratização” à escala mundial – iniciada, segundo Samuel P. Huntington, em Portugal em 1974/75 e culminando na queda do Muro de Berlim em 1989.

7 Votos de boas férias e de boas leituras.