1 Após prolongada hesitação, acabei por decidir começar esta crónica com uma crítica a um dos meus jornais preferidos (e que leio todos os dias em papel): refiro-me ao Financial Times de Londres.

Na segunda-feira 22 de Setembro, o jornal titulava na primeira página, a cinco colunas e duas linhas: “UK, Canada and Australia recognise Palestine as an independent state”. Isto é certamente muito verdade, mas esqueceram-se de acrescentar Portugal — o mais antigo aliado do Reino Unido que reconheceu simbolicamente a Palestina exactamente na mesma ocasião.

2 Serve esta minha crítica amigável ao FT também para exprimir o meu elogio à decisão do governo Português de reconhecer simbolicamente a Palestina como estado independente. É um contributo simbólico importante para retomar a solução pacífica dos “dois estados”. E é uma significativa expressão do sentido de dever pluralista do Ocidente — sobretudo quando expresso em conjunto com três ancestrais democracias ocidentais, o Reino Unido, o Canadá e a Austrália.

3 Foi aliás amplamente assinalado que estes reconhecimentos simbólicos simultâneos, seguidos do reconhecimento pela França, Luxemburgo, Malta, Mónaco e San Marino, terão contribuído significativamente para facilitar o acordo entre Trump e Netanyahu, com o apoio de vários estados árabes, com vista a terminar a guerra em Gaza.

4 Simultaneamente, e por outro lado, o mesmo pluralismo ocidental obriga a que seja firmemente condenado o antissemitismo violento que vai crescendo na América e na Europa.

A propósito do recente ataque terrorista ocorrido contra uma Sinagoga em Manchester, os jornais britânicos condenaram sem hesitação a crescente campanha de ódio e violência contra os Judeus — campanha essa que identifica grosseiramente o conjunto da comunidade judaica com a política agressiva do governo de Netanyahu em Gaza.

Como aliás sublinhou certeiramente em Editorial o acima referido Financial Times (4/5 de Outubro, p. 8), a defesa do pluralismo democrático implica a condenação firme dos actos e discursos racistas, assim como dos discursos revolucionários e contra-revolucionários.

5 Esta é certamente uma altura apropriada para recordar as célebres condenações por Winston Churchill dos fanatismos revolucionários, tanto da extrema-esquerda como da extrema-direita, e o seu elogio da democática “Corrente de Ouro”. Disse ele, a propósito das opiniões políticas de seu pai, o conservador Lord Randolph Churchill:

“Ele não via qualquer razão para que as velhas glórias da Igreja e do Estado não pudessem ser conciliadas com a democracia moderna; ou para que as massas do povo trabalhador não pudessem tornar-se nos principais defensores dessas antigas instituições através das quais as suas liberdades e o seu progresso tinham sido alcançados. É esta união entre o passado e o presente,, entre a tradição e o progresso, esta Corrente de Ouro (Golden Chain), até agora nunca quebrada, uma vez que nenhum esforço indevido lhe foi imposto, que tem constituído o mérito singular e a qualidade soberana da vida política inglesa.” (Winston S. Churchill, Thoughts and Adventures, 1934, p. 52).

Post-scriptum: Ainda a propósito desta disposição reformista e pluralista, vale a pena recordar a entrevista de página inteira que Lord (Charles) Moore deu ao Daily Telegraph de Londres (27 de Setembro, p. 25) a propósito do centenário do nascimento de Margaret Thatcher (13 de Outubro,1925-8 de Abril, 2013) — de quem foi biógrafo autorizado, mas não oficial (a biografada pediu-lhe para escrever a biografia mas insistiu que não queria lê-la antes de publicada e que a publicação deveria ocorrer apenas após a sua morte). Basta o título da entrevista para revelar todo o espírito de tolerância e pluralismo daquilo a que Sir Karl Popper chamou de cavalheirismo (gentlemanship) e que identificou como ingrediente crucial da democracia liberal:

“In some ways Thatcher was dislikeable. But I did love her”.