1 O horrendo assassinato do jovem activista político norte-americano Charlie Kirk, na passada quarta-feira, só pode, e deve, merecer veemente condenação – condenação simultaneamente moral e também política.
No plano político, esta condenação deveria ser particularmente enfática e intransigente por parte daqueles que possam não concordar com as opiniões do jovem Kirk – um destacado apoiante de Donald Trump e do Movimento MAGA. Ele simplesmente exercia o seu direito e o seu dever democráticos de exprimir as suas opiniões – e, em democracia, esse direito e esse dever devem em primeiro lugar ser reconhecidos e defendidos por aqueles que discordam das opiniões dos seus críticos.
Esta defesa intransigente da liberdade de expressão, do pluralismo e da conversação/concorrência pacíficas e civilizadas entre opiniões e partidos rivais está no âmago da tradição cultural e política das democracias liberais do Ocidente.
2 Infelizmente, como venho alertando repetidamente nestas páginas, aqueles princípios e ideais das democracias liberais do Ocidente têm vindo gradualmente a ser secundarizados, quando não simplesmente esquecidos, ou mesmo hostilizados, por visões tribalistas rivais.
É por isso particularmente relevante referir duas obras recentes sobre o Ocidente. Refiro-me a How the World Made the West, de Josephine Quinn, Professora na Universidade de Cambridge (Bloomsbury, 2024/2025, 564 pp.) e a The West: The History of an Idea, de Georgios Varouxakis, Professor na Queen Mary University of London (Princeton University Press, 2025, 494 pp).
3 Não é aqui o espaço para apresentar recensões detalhadas destes dois livros excelentes. Mas pode e deve ser certamente sublinhado que ambos enfatizam a dimensão sobretudo cultural – e não racial, nem mesmo estritamente geográfica – do conceito de Ocidente.
Ambos sublinham também como o entendimento do conceito de Ocidente foi evoluindo ao longo dos séculos, reforçando gradualmente no seu âmago os valores da igual dignidade da pessoa humana, da liberdade de consciência, e da conversação pacífica entre pontos de vista diferentes, inclusive rivais.
Josephine Quinn sublinha enfaticamente o papel do Mar na emergência e consolidação do Ocidente e da Europa. Começando pelo Mediterrâneo, “o Mar no meio da Terra”, segue-se o “Mar Aberto” do Atântico, “quando os estados marítimos do Oeste da Europa começaram a criar um novo mundo Atlântico sob cultura Cristã”.
Esta dimensão marítima acentuou a abertura da Europa e do Ocidente ao contacto com outras culturas e civilizações, acentuando por essa via a importância crescente do pluralismo e da conversação. [Algo muito semelhante tinha sido referido por Karl Popper – que Josephine lamentavelmente não cita — acerca da cultura política liberal da Atenas marítima, por contraste com a cultura política autoritária e colectivista da Esparta continental].
4 Falando da Europa, do Ocidente e do Mar, é incontornável referir o recente e, literalmente, fantástico livro Ernâni Lopes: Vida e Pensamento; Textos escolhidos, acabado de publicar na semana passada pela Universidade Católica Editora (444 pp).
O livro foi apresentado no campus de Lisboa da Universidade Católica, na passada quarta-feira, com a presença de mais de seis centenas de pessoas. O Presidente da República proferiu o (excelente) discurso de encerramento, após oito distintas intervenções, incluindo D. Rui Valério, Magno Chanceler da UCP, Isabel Capeloa Gil, Reitora, José Manuel Durão Barroso, Director do Centro de Estudos Europeus do IEP, Mónica Dias, Directora do IEP, e José Pena do Amaral, em representação do grupo coordenador do livro.
Não seria possível tentar resumir aqui a riqueza e elevação da sessão de apresentação do livro e de homenagem a Ernâni Lopes. Mas fica um enfático convite à leitura da obra – e uma sentida homenagem a um homem que nobremente serviu a democracia portuguesa, a sua integração na Europa e a sua ancestral dimensão marítima, bem como o diálogo pluralista entre perspectivas políticas rivais.