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Escutando a generalidade da intelligentsia política, económica e social, somos levados a acreditar que é imprescindível salvar os fiéis da tirania dos mercados, que a todos submete. Qual hidra gerada do cruzamento entre o demónio da avareza e o ogre da gula; serpente de muitas cabeças, bem capaz de ter cornos e tudo! – não há político que não se ofereça para a esconjurar ou, pelo menos, meter numa jaula. E o povo agradece, aliviado.

Só que os mercados não são monstros: são processos em que os indivíduos buscam formas mais eficientes e seguras de alcançar os seus fins, trocando bens e serviços entre si. Em sociedade, as pessoas vão criando e aplicando conhecimento de forma útil. Quanto melhor os beneficiários desse conhecimento possam recompensar os produtores do mesmo, melhor o mecanismo de reforço das boas práticas entre todos. A esse processo coordenador da distribuição de “recompensas” damos o nome de mercado. Não é um demiurgo: são processos totalmente humanos. Como tal, para funcionarem, necessitam do mesmo incentivo que qualquer outra produção humana: o lucro, a concorrência, a liberdade e a realização pessoal.

Não há indivíduo mais vilipendiado que o intermediário – às vezes com razão, outras nem por isso — simplesmente por ser o mensageiro dos preços. O intermediário ia ao campo comprar batatas para trazer para a cidade e ganhar a diferença entre o preço que paga ao produtor e aquele que consegue do consumidor. A esta diferença, deduzida dos custos de transporte e incerteza, chamamos lucro. Quando os lucros são elevados, há um incentivo a que mais indivíduos se dediquem a este comércio e criem processos mais complexos e eficientes de distribuição. Se, ao pressentir isto, o primeiro intermediário corre a casa do governante a prometer-lhe uma parte dos lucros a câmbio de um monopólio, o processo de mercado é abortado e a concorrência e a inovação deixam de se produzir em benefício de produtores, de consumidores ou de ambos. O mafarrico mercado é colocado na jaula pelo justo governante e a turba rejubila.

É preciso perceber que não se trata apenas de uma questão de concorrência: o aumento da prosperidade no futuro depende, em grande parte, de conhecimento que ainda não se produziu. E nem sequer há garantias de que esse conhecimento possa chegar a aparecer. A eficiência dos mercados é dinâmica e é resultado da capacidade dos indivíduos aproveitarem localmente a divisão do conhecimento e criarem novos processos que vão refinando a coordenação continuamente. Numa sociedade tendencialmente socialista, também existem mercados, isto é, processos pelos quais a produção chega aos consumidores. Só que estão sequestrados pelos planificadores, pelos seus fins particulares e pela sua incapacidade de aproveitar toda a extensão da divisão do conhecimento. É por isso que o mercado-estado é incapaz de substituir os mercados-livres. Porque carece de conhecimento sobre a informação disponível e é incapaz de criar informação nova. Tende à obsolescência.

Os filo-marxistas não percebem essa limitação: para eles, o mercado é simplesmente um ente demoníaco. Não entendem a importância do processo nem como este emerge. Marx pensava que, no modo de produção socialista, o proletário produziria, por exemplo, parafusos de manhã e tratados de filosofia de tarde. Isto ao mesmo tempo que chamava “utopistas” aos outros socialistas. Nunca entendeu que, numa sociedade próspera, praticamente toda a produção é para terceiros e tem de chegar aos beneficiários de forma eficiente. Se os socialistas realmente se preocupassem com a prosperidade dos indivíduos, estariam todo o dia a invocar a presença do deus-mercado, nas suas vidas e nas dos demais.

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