É irónico: a imprensa internacional, sempre tão tolerante com desastres socialistas, entra em pânico quando um governo decide ser responsável. Michael Stott, editor para a América Latina no Financial Times, alerta que Javier Milei está a fazer “uma aposta arriscada” no peso argentino. O que Stott chama de risco, os argentinos chamam de realidade.
“Não se come superavit.”
Também não se janta com promessas socialistas.
Na peça em causa, o FT queixa-se do aumento de argentinos a viajar para o Brasil, do preço da carne, da vida dura. Pois claro. Uma terapia de choque não se confunde com spa. Depois de anos a anestesiar a economia com dívida, impressão monetária e falsos subsídios, Milei teve de ser cirurgião, não massagista.
Durante décadas, o Estado argentino distribuiu miséria com um sorriso. O resultado foi um país funcionalmente falido, onde trabalhar era sinal de estupidez e onde a classe média desaparecia entre o mercado negro e o subsídio. Não era o modelo liberal que criava pobreza — era o clientelismo socialista que a institucionalizava.
O peronismo foi a grande fábrica de pobres com cartão de voto.
Mas vamos aos factos que o Financial Times deixou à porta da narrativa. Desde que Milei tomou posse:
- A inflação mensal, que rondava os 25 % no início do mandato, caiu para valores inferiores a 5 % segundo o INDEC;
- O peso valorizou-se cerca de 40 % em termos reais;
- O défice público foi eliminado em tempo recorde — sem recorrer à impressão de moeda;
- O risco-país desceu de forma consistente, de acordo com a Bloomberg Economics, e investidores voltaram a olhar para Buenos Aires sem franzir o sobrolho.
Nada disto elimina o desconforto. A diferença é que, pela primeira vez em décadas, a dor tem sentido de orientação.
“Dor com rumo.”
É melhor que anestesia rumo ao abismo.
Stott lamenta que as reformas não se tenham traduzido “em alívio para os cidadãos”. Como se fosse possível desmontar um Estado gorduroso, viciado e corrupto sem dor social. É como querer emagrecer comendo croissants. A alternativa, que os argentinos já testaram até à náusea, foi sempre a mesma: gastar o que não se tem, adiar o colapso e culpar o FMI.
Há uma diferença entre populismo e liberalismo. O primeiro distribui futuros hipotecados em nome de uma felicidade instantânea. O segundo aguenta o murro no estômago porque sabe que sem dor presente não há futuro possível.
O Financial Times exige resultados sociais em sete meses, como se Milei fosse mágico. E ignora que os verdadeiros “custos sociais” já tinham sido pagos — em décadas de inflação galopante, educação em colapso e um sistema de pensões a definhar.
Mas nem tudo no governo de Milei é liberal. Em outubro de 2024, a Argentina foi o único país do G20 a recusar assinar uma declaração sobre a valorização do papel das mulheres. Antes disso, o executivo dissolveu o Ministério da Mulher e reduziu drasticamente o orçamento para programas de apoio a vítimas de violência.
“Cortar despesa não justifica cortar direitos.”
O liberalismo não promete milagres. Promete responsabilidade. E isso, em política, é subversivo. Na realidade, os ganhos sociais iniciais já começaram, mesmo que tímidos:
- Os salários reais no sector formal começaram a recuperar — após anos de erosão sistemática;
- O comércio informal dá sinais de refluir para a economia formal, à medida que o câmbio estabiliza;
- Medidas do novo Ministério do Capital Humano apontam a uma racionalização dos apoios sociais, embora sem prova clara — para já — de cortes a intermediários políticos.
Não são manchetes sexy — mas são sinais de recuperação moral e institucional.
A narrativa do “Milei perigoso” também falha geopoliticamente. A Argentina de 2023 era um país implosivo, a caminho da irrelevância internacional. Hoje, é observada por investidores estrangeiros, pelos Estados Unidos e até pelo Brasil com expectativa e prudência.
Mais importante ainda: os argentinos sabem o que escolheram. Milei foi eleito com um mandato claro para mudar tudo. E, apesar da dor, mantém uma taxa de aprovação surpreendente — algo que muitos tecnocratas de Londres ou de Genebra acham incompreensível. Talvez porque nunca viveram com inflação de 200 %.
As reformas de Milei não são um bluff. São uma ruptura histórica com o passado decadente.
Num país habituado a trocar dignidade por subsídios, Milei repete: “Não há almoço grátis”. Isso não é um bluff. É política para adultos.
Se o Financial Times procura fábulas, talvez prefira o Bambi. Mas a Argentina precisa do Lobo Mau — que sopra as casas feitas de palha, para que alguém finalmente construa em pedra.