O texto de opinião publicado no Observador “Maduro caiu e o direito internacional foi convidado para o funeral” oferece-nos um prazer simples: um vilão cai e o mundo aplaude. Há só um pequeno problema, daqueles chatos como a gravidade: a seguir vem a conta.
A força não é argumento; é atalho.
Primeiro, a peça vende uma ideia sedutora: “Maduro caiu, logo a realidade venceu”. Só que isto confunde duas coisas diferentes. Sim, a queda de um autocrata pode ser um alívio moral e até político. Mas transformar o alívio num cheque em branco para qualquer meio é trocar análise por adrenalina.
O autor escreve como se o direito internacional fosse uma decoração de sala, bonita até alguém precisar de passar com o sofá. Ora, a proibição do uso da força não é um capricho de juristas, é o corrimão do sistema. A própria ONU sublinhou que a operação dos EUA “mina um princípio fundamental” ao usar força contra a integridade territorial e a independência política de um Estado.
Se a regra só vale para os fracos, não é regra.
Depois, há o truque retórico mais antigo do bairro: “os críticos são hipócritas”. Pode ser verdade para alguns, mas é um atalho intelectual. A questão séria não é se há hipocrisia, isso há sempre em política externa. A questão séria é se estamos a normalizar um precedente que torna o mundo mais perigoso, precisamente porque dá munição argumentativa a todos os outros que queiram fazer o mesmo.
Se a justificação é “aplicação da lei” por via militar, então o planeta vira um mapa de mandados de captura, onde cada potência decide quem é criminoso e entra pela porta dentro. A Reuters noticiou precisamente este alerta da ONU: o mundo fica menos seguro quando se sugere que os poderosos podem agir unilateralmente.
O autor também escorrega para a caricatura. Chamar “manjedoura” à Venezuela pode ser imagem eficaz, mas misturar máfias, gangues e políticos europeus como se fossem a mesma coisa é mais panfleto do que argumento. Não é preciso gostar de Zapatero ou Livingstone para perceber que “gosto” não é evidência e insinuação não é prova.
Aqui entra o ponto que ele evita: a Venezuela é, de facto, uma tragédia em números, e não só em metáforas. O colapso empurrou milhões para fora do país. A plataforma R4V (coordenação ligada a agências da ONU) apontava para 6,9 milhões de refugiados e migrantes venezuelanos na região (atualização de novembro de 2025). Isto é o tipo de realidade que obriga a prudência: não basta “tirar o ditador”, é preciso evitar que o remédio abra a porta a outro desastre.
A parte geopolítica também merece menos fanfarronice e mais método. O texto joga com a ideia de que “isto é realismo” como se isso fosse sinónimo de “logo é aceitável”. Realismo, a sério, não é festejar músculo; é calcular efeitos de segunda ordem. Quais?
Primeiro, legitimidade interna. Se a mudança de regime nasce de helicópteros estrangeiros, a oposição passa a carregar o carimbo “produto importado”. Pode correr bem, pode correr mal, mas o risco é estrutural.
Depois, competição com China e Rússia. Sim, Pequim e Moscovo tinham interesses na Venezuela. Mas a forma de os contrariar importa. Uma ação que viola a regra central do sistema internacional dá-lhes narrativa para usar noutros tabuleiros: Taiwan, Ucrânia, Mar do Sul da China. O que se ganha num palco pode perder-se noutro.
Por fim, a Europa. O autor trata-a como plateia moralista, e há um grão de verdade nisso. Mas a UE não é apenas “conversa de advogado”; é, para o bem e para o mal, um dos poucos atores que tenta prender poder a regras, porque não tem um porta-aviões por cada dilema. E, nota importante, a UE reconheceu repetidamente a ilegitimidade democrática de Maduro e, ao mesmo tempo, insiste na Carta da ONU como limite ao uso da força. Isto não é hipocrisia automática, é uma tensão real entre fins e meios.
O realismo sem limites chama-se cinismo com boa imprensa
No fundo, o artigo confunde “descrever como o mundo é” com “prescrever como deve ser”. A primeira parte pode ser útil. A segunda, quando vem embrulhada em celebração, é perigosa. Porque a mensagem prática fica assim: se o alvo for suficientemente detestável, as regras são opcionais. E quando as regras são opcionais, quem decide é quem tem mais força, hoje e amanhã.
A ideia-força que o texto tenta vender é “voltemos ao ginásio da realidade”. Concordo, mas com uma correção: ginásio sem regras vira ringue clandestino. E aí, mais cedo ou mais tarde, todos acabam no chão.