Há um equívoco nacional com a Caixa Geral de Depósitos: o de que é um banco “nosso”, quase um prolongamento sentimental do Estado Social. Na verdade, a CGD é o banco mais caro que os portugueses ainda não privatizaram — e quanto mais tarda a decisão, maior o custo de oportunidade.

A narrativa do “contribuinte líquido” não resiste à matemática.

Receber dividendos não apaga os milhares de milhões lá enterrados.

Analisando os relatórios de contas da CGD, desde 2017, é verdade, a CGD tem dado lucros. Mas entre 2011 e 2016 acumulou quase 3,9 mil milhões de euros de prejuízos — e precisou de recapitalização estatal no mesmo montante para não colapsar. Desses, 2,5 mil milhões foram injeção directa de dinheiro dos contribuintes, sem qualquer retorno garantido (Tribunal de Contas, 2019).

Mesmo somando os lucros de 2017 a 2024 (cerca de 6,2 mil milhões de euros), os dividendos pagos ao Estado ficaram nos 2,1 mil milhões. A diferença foi retida em capital. Resultado? O Estado ainda está no prejuízo. E com capital preso num banco que não pode vender livremente porque, dizem, “é estratégico”.

Chamam-lhe âncora. Na verdade, é um colete de forças.

A CGD não está orientada para servir os portugueses. Está orientada para servir quem a governa — e quem a governa muda consoante o ciclo político. Desde as administrações ruinosas dos anos 2000 até à farra do crédito malparado que encheu a comissão parlamentar de inquérito, o histórico é claro: a influência política custa caro e perdoa pouco.

O argumento da estabilidade sistémica também já foi desmontado. O Novo Banco era privado e foi salvo com fundos do setor. O BPN também era privado e só se tornou público depois de ser nacionalizado para evitar o colapso. O verdadeiro seguro está na regulação bancária europeia, no BCE e na União Bancária — não no facto de um banco ser tutelado pelo Ministério das Finanças.

Dizer que “a CGD é pública, mas bem gerida” é como elogiar um elefante por dançar.

Sim, a gestão recente da CGD tem sido profissional. Mas isso não é mérito do modelo público, é excepção imposta por Bruxelas como condição da recapitalização. O que prova que boas práticas podem existir — mas não dependem da propriedade estatal.

Pelo contrário: um banco com accionistas privados está sujeito ao escrutínio do mercado, à exigência de resultados, à concorrência aberta. E se falhar, arca com as consequências. A CGD, por seu lado, sabe que nunca será deixada cair — o que alimenta o risco moral. Quando a dívida corre mal, a factura é nossa.

Na Europa, os países liberais já aprenderam. A Suécia salvou o Nordea nos anos 90 e privatizou-o totalmente até 2013 — hoje é o maior banco da Escandinávia, eficiente e competitivo. O Reino Unido nacionalizou o RBS para evitar o colapso, mas vendeu-o progressivamente até sair em 2025, aceitando até prejuízo. A Holanda ainda detém 30% do ABN AMRO, mas está a sair aos poucos, maximizando o valor da venda.

E Portugal? Insiste num banco estatal com missão indefinida, que quer ser tudo ao mesmo tempo: rentável como um privado, inclusivo como um público, obediente como um funcionário. Resultado? Uma Caixa que nem é forte o suficiente para liderar nem livre o suficiente para inovar.

A CGD não é o Banco de Portugal. É um banco como os outros.
A diferença é que somos todos os seus fiadores.

“Ah, mas e se a privatização correr mal?”, perguntam. E se correr bem? E se o Estado puder manter uma posição minoritária e vender parte da CGD a investidores institucionais nacionais? E se usarmos o encaixe para amortizar dívida ou capitalizar o Banco de Fomento?

O problema não é privatizar. É não ter coragem de o fazer.

O fetiche do banco público já custou demasiado a Portugal. A CGD, como qualquer outra empresa, deve provar o seu valor no mercado — e se o tiver, será valorizada. O Estado não precisa de ser dono para ser soberano. Precisa é de saber quando deixar de ser proprietário e passar a ser apenas regulador. A Caixa foi útil. Mas já não é necessária como é. E a única coisa verdadeiramente “com certeza” que ela ainda tem… somos nós, os pagadores do costume.