Há qualquer coisa intelectualmente satisfatória na ideia de um médico português desempregado, como quando um zoólogo avista uma espécie rara, ou quando uma dona de casa pobre ganha a lotaria. A profissão médica é uma das duas únicas em que existe pleno emprego. A razão é conhecida. Quem é admitido num curso de medicina pode contar com um emprego público perpétuo. A medicina não é uma actividade liberal. A quase nenhum médico recém-formado ocorre ou é permitida a satisfação de se estabelecer sob uma tabuleta. A ideia de um médico que não saiba se amanhã vai ter doentes é impensável.
Uma profissão assim dá azo à imaginação económica geral. Se, por exemplo, todos os admitidos num curso de sociologia tivessem emprego público assegurado não haveria sociólogos desempregados; e modistas, ou físicos. Aos sociólogos porém já nem ocorre a possibilidade de exercer a profissão sociológica, não obstante ser tão útil. Será que a imunidade dos médicos ao desemprego se deve ao facto de, ao contrário dos sociólogos, se ocuparem de coisas palpáveis como ossos e vísceras? Não parece. O desemprego não é desconhecido entre várias outras classes palpáveis, como os massagistas, ou os militares.
Sempre que alguém sugere que talvez não fosse mau haver médicos a mais para depois quem precisasse deles poder escolher os melhores, verificam-se protestos, sobretudo das pessoas a quem move a vocação de um emprego. Não é apenas porque tal implicaria que houvesse médicos no desemprego, o que compreensivelmente não agrada. É porque a ideia de escolher os melhores médicos lhes parece contraditória nos seus termos. Os médicos são sempre bons não por sorte, mas no sentido em que a água tem sempre dois átomos de hidrogénio, ou no sentido em que ulmeiros não são faias. A ideia de médicos maus não parece ser metafisicamente possível.
Serão então os médicos uma espécie natural, como a água ou os ulmeiros? Os dados conhecidos não permitem pensar que seja assim. O exame de um esqueleto feminino encontrado nas ruínas do Centro de Saúde de Conímbriga mostrou dimensões da caixa craniana comparáveis às de uma socióloga. E há o fenómeno sazonal conhecido como Homem da Covilhã: a pessoa vestida de bata a quem os doentes amaram durante vinte anos e que se verificou não ser médico. Se a bata faz o monge, o médico não é uma espécie natural.
A única explicação que sobra é a de que a educação dos médicos elimina a possibilidade de haver médicos maus. Tal característica merecerá o desfastio de um emprego permanente. Poderiam as outras profissões ter muito a aprender com ela, visto que todos concordam que o país está genericamente submerso em profissionais sem ocupação conhecida. Se todas as pessoas fossem médicos não haveria mais modistas a pedir esmola à porta dos casais; e físicos a chorar pelos aeroportos. A profissão médica pode-nos ajudar a resolver o mistério da educação.