“Aqui só um partido pode ganhar as eleições. Meta isso na cabeça.” O recado foi-me entregue – um entre vários de uma campanha de intimidação, calúnia e ameaça, como aquele “vais levar um tiro”, onde o visado era eu por ter ousado fazer uma notícia onde a Renamo reivindicava a vitória nas eleições desse ano de 1999.
A verdade é que de lá para cá só esse partido, esse único que só ele pode ganhar as eleições, as “venceu”, fossem elas legislativas ou presidenciais. Estou a falar da Frelimo. Mas desde 1999 nunca convenceu.
Na altura, pressionaram a Renamo a aceitar sendo que o Washington Post escreveu – não eu – que as eleições tinham sido uma fraude. A estratégia desde então não mudou.
Pressionar, conceder benesses, promessas de um novo ciclo, de um novo processo político, um vale tudo para que só um partido permaneça sempre no poder. Até agora.
Renamo e MDM compreenderam finalmente que não podem continuar nessa lógica, que nunca nada mudará. Já a Frelimo, essa não entendeu que o povo de Moçambique mudou – a maioria da população é jovem, já não se revê nas lutas coloniais do passado. Pior: não sente ter futuro com aqueles que controlam todas as alavancas do poder desde a independência.
E muitos países não o entenderam também. Veja-se o caso de Portugal. Na esquerda há quem mantenha uma solidariedade histórica incompreensível com uma Frelimo que há muito deixou de ser comunista. Já os partidos do regime, quando essa mesma Frelimo se metamorfoseou num capitalismo para amigos, deixaram-se influenciar pelos interesses das empresas. Fossem elas escritórios de advogados, de consultores, da banca, etc.. Todos os que se instalaram quando no novo rumo, ao serviço de clientes da nomenclatura frelimista ou tornados sócios dessa mesma nomenclatura. Daí a dificuldade em ter um olhar isento e distanciado para muitos deles. E, sinal dos tempos, apenas os novos partidos no parlamento português, à esquerda e à direita, foram capazes de denunciar com veemência a situação em Moçambique.
A verdade, porém, é que a Frelimo já perdeu. É uma questão de tempo. Quantas mortes mais serão ainda necessárias até que o mundo o perceba, essa é a grande incógnita.
O povo moçambicano merece melhores dirigentes e alguma justiça mais por parte da comunidade internacional…