A revelação de que altos responsáveis da administração Trump usaram a aplicação Signal para discutir temas sensíveis de segurança nacional, num grupo onde incluíram inadvertidamente um jornalista da revista The Atlantic, é um enorme embaraço. Jeffrey Goldberg acabou por expor na própria revista o episódio, uma troca de mensagens sobre a resposta dos EUA aos ataques dos Houthis no Mar Vermelho.

A revelação deste episódio expõe falhas graves na cibersegurança, mas expõe também as opiniões depreciativas sobre os parceiros europeus dos EUA. Há nelas um padrão de desprezo estrutural. Os europeus são um fardo: dependentes, fracos, ingratos. “PATHETIC”, escrevem.

A Europa constata uma vez mais a crueza de que a relação transatlântica assente no respeito mútuo não faz parte do pensamento desta administração norte-americana. Os EUA querem apenas que a Europa pague, obedeça e agradeça, como se viu com Zelensky no episódio na Casa Branca. Como se vê nas negociações com a Rússia, com os europeus remetidos a serem meros subalternos.

Num tempo em que o mundo se reconfigura — entre o colapso do multilateralismo, a ascensão em potência da China e a ameaça crescente russa — a autonomia estratégica europeia é cada vez mais urgente. E já não é apenas segurança: é dignidade política.

Chega a ser incompreensível haver forças políticas na própria Europa — algumas no poder, outras à porta dele — a endossar entusiasticamente esta América trumpiana que no fundo as despreza, pois são meramente instrumentais para destruir internamente a União Europeia. Veja-se o apoio de Musk e JD Vance à extrema-direita alemã. Ela própria não longe de Putin, também ele com a obsessão de rebentar com o projecto europeu, também ele há muito a apadrinhar várias forças europeias desse espectro político com o mesmíssimo fim.

O episódio exposto na revista The Atlantic serve como mais um alerta para que a União Europeia acelere a sua autonomia. Já tem bons alicerces: valores comuns numa economia forte. Falta-lhe uma força militar suficientemente dissuasiva. Mas parece que está finalmente a acordar para tal. Ser aliado não é ser submisso.